(Divulgação)
COLUNA
Geraldo Carvalho
Economista, MBA pela USP e mestre em gestão de empresas
Geraldo Carvalho

Molécula x Elétron

A China apostou nos elétrons; os EUA, nas moléculas. O resultado definirá a próxima era da geopolítica global.

Geraldo Carvalho

Nesse 2026, a economia global atingirá um ponto de inflexão onde as tecnologias definidoras — de veículos elétricos (EVs) e robótica a redes inteligentes e Inteligência Artificial (IA) — rodam sobre uma fundação comum: a "pilha elétrica"1. Este conjunto, composto por baterias, motores e eletrônica de potência, tornou-se o novo campo de batalha da supremacia geopolítica. O relatório de riscos da Eurasia Group aponta que, enquanto a China dominou essa pilha, os Estados Unidos estão cedendo terreno, uma divergência que se tornou impossível de ignorar.

O Surgimento do Primeiro "Eletroestado"

Há apenas 15 anos, a China era uma das economias mais dependentes de combustíveis fósseis do planeta4. Hoje, transformou-se no primeiro "eletroestado" do mundo5. Embora ainda utilize carvão em larga escala, a maior parte do crescimento de sua capacidade energética vem de fontes renováveis.

Pequim domina atualmente cerca de 75% da produção global de baterias de íon-lítio e 90% dos ímãs de neodímio essenciais para motores. Esse controle não é acidental, mas o resultado de décadas de política industrial agressiva que reduziu o custo da "pilha elétrica" em 99% desde 1990. Em 2026, o 15º Plano Quinquenal da China deve dobrar a aposta nesses setores, ignorando críticas ocidentais sobre "excesso de capacidade".

EUA: o gigante das moléculas

Em contraste, os Estados Unidos cimentaram seu status como o maior petroestado do mundo, superando a Arábia Saudita com uma produção de 13,5 milhões de barris de óleo por dia. A estratégia energética atual do governo Trump foca na exportação de Gás Natural Liquefeito (GNL), carvão e energia nuclear, enquanto retira o apoio a renováveis.

Através de uma nova legislação, o país está eliminando créditos fiscais para energia solar e eólica em escala industrial, tornando mais difícil o financiamento de tecnologias de baterias. Na prática, Washington está tentando vender ao mundo energia do século XX, enquanto Pequim oferece a infraestrutura do século XXI.

O impacto nos mercados emergentes e na IA

A proposta de valor da China é particularmente atraente para economias no Sudeste Asiático, América Latina e África. Estes países estão migrando de uma postura defensiva contra tarifas americanas para um planejamento de longo prazo que favorece a tecnologia chinesa. Painéis solares e turbinas eólicas chinesas são vistos como investimentos que não dependem de importações voláteis de commodities.

A corrida pela Inteligência Artificial também está sendo afetada por essa disparidade energética:

Em 2024 a China produz 2,5 vezes mais eletricidade que os EUA e adicionou 429 GW de nova capacidade (mais de um terço de toda a rede americana), enquanto os EUA adicionaram apenas 51 GW.

Enquanto os EUA buscam modelos de IA de fronteira e a "Inteligência Artificial Geral" (AGI) como ChatGpt, Gemini, etc, a China aposta em modelos de código aberto, mais leves e baratos, integrados diretamente à infraestrutura física (drones, robôs e veículos autônomos), como o Deepseek.

O Triplo Dilema Americano

O relatório conclui que a lacuna em tecnologia elétrica cria um "triplo dilema" para os Estados Unidos:

  1. Custo Industrial: A indústria americana enfrenta custos de energia mais altos e lentidão na modernização da rede, onde as filas para novas conexões chegam a oito anos.
  2. Perda de Influência: Países emergentes estão construindo suas bases econômicas sobre plataformas chinesas, o que garante a Pequim uma influência comercial que o "soft power" sozinho não conseguiria.
  3. Risco Estratégico: Washington aposta que a "inteligência" sozinha vencerá a corrida, mas a China acredita que o valor estratégico real está na capacidade de alimentar e implementar essa inteligência em escala industrial e militar.

Em 2026, a pergunta que ecoa nos corredores de poder é se os Estados Unidos, ao focarem na vitória de uma competição tecnológica estreita, não estarão perdendo a disputa mais ampla pela liderança do século XXI. A China apostou nos elétrons; os EUA, nas moléculas. O resultado definirá a próxima era da geopolítica global.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.