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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Datas e rotas

Entre rotas recalculadas e afetos silenciosos, o Natal revela que é o cuidado — simples e cotidiano — que nos guia de volta ao caminho.

Kécio Rabelo

Era um passeio de férias.
Carro amarrotado de sacolas, bolas, skates e travinhas que tomavam a mala. Aquele domingo prometia diversão e alegria.
Pais no banco da frente, casal de filhos no banco de trás.
No caminho, um grande shopping exibia uma luxuosa decoração natalina, com cores e luzes que chamavam a atenção de quem passava. Dudu, o filho mais novo, apontou para um enorme Papai Noel inflável e perguntou à mãe quando era mesmo o Natal. Ela, distraída no celular, respondeu de forma vaga que dali a duas ou três semanas. Enquanto isso, Tita, a mais velha, fez uma rápida busca no tablet e respondeu com precisão:
— Vinte e cinco de dezembro. Natal. Que eu saiba, sempre foi assim — completou, com o tom de quem corrige o mundo. — Não muda a data nem o cardápio do jantar, que é sempre sem graça e sem gosto — ironizou.
Dudu franziu a testa, olhando pela janela como se tentasse encontrar o Natal entre os postes e outdoors.
— Mas falta muito?
— Falta o tempo de esperar — disse o pai, impaciente, quase sem perceber que falava mais para si do que para o filho.
A mãe levantou os olhos do celular:
— Falta pouco, Dudu. O Natal chega quando a gente menos espera.
O carro seguiu alguns minutos em silêncio, quebrado apenas pela voz metálica do GPS: “Siga em frente por mais dois quilômetros.”
— Dois quilômetros? — reclamou o pai. — Isso não faz sentido nenhum. Era para virar agora.
— Está dizendo isso porque não gosta de seguir instruções — respondeu a mãe, já com o tom levemente alterado, resquício de uma discussão não finalizada. Ela queria o passeio de domingo; ele queria o jogo. Era a final do campeonato do seu time. “Domingo, esposa, filhos e parque, tem o tempo todo”, murmurou entre os dentes.
— Não é isso. É que esse GPS sempre erra. No ano passado nos fez dar uma volta absurda.
— Erra ou você erra? — devolveu ela. — Porque quando eu digo para virar, você não vira.
Tita levantou os olhos do tablet, farejando o clima.
— Acho que a gente já passou da entrada…
— Não passamos — disse o pai, firme demais.
— Passamos, sim — insistiu a mãe. — Olha ali o retorno.
O GPS interrompeu: “Recalculando rota.”
A palavra caiu no carro como uma sentença.
— Está vendo? — disse ela.
— Está recalculando porque alguém resolveu mexer — respondeu ele.
— Eu mexi porque você não escuta!
Dudu encolheu-se no banco, apertando o cinto com força.
— Vocês brigam o tempo todo, brigam até perto do Natal? — perguntou, com a inocência que desarma qualquer discussão.
A pergunta ficou suspensa no ar. O pai respirou fundo. A mãe fechou os olhos por um instante.
— A gente briga porque está vivo — disse ela, por fim. — E porque quer chegar junto.
— Às vezes errando o caminho — completou ele, mais baixo e com certa ironia.
O carro diminuiu a velocidade. Do lado de fora, luzes piscavam em tons de dourado e vermelho, como se lembrassem que o mundo insistia em celebrar, apesar de tudo.
— Natal também é isso, Dudu — disse o pai, um pouco mais calmo. — Não é só a data. É quando a gente para, recalcula, tenta de novo. 
— É quando a gente decide seguir a estrada, sabendo onde quer chegar, às vezes deixando um pouco da gente pelo caminho — acrescentou a mãe, pousando a mão no braço dele, num gesto simples de cuidado que dizia mais do que qualquer argumento.
O GPS finalmente se decidiu: “Vire à direita.”
Ele virou. Ela sorriu, meio cansada, meio reconciliada.
Tita voltou ao tablet. Dudu voltou à janela. E o carro seguiu carregando não só sacolas e jogos, mas a certeza silenciosa de que, entre desvios e reencontros, é o cuidado — esse gesto cotidiano e quase invisível — que sustenta os afetos e faz do Natal um verdadeiro marco de recomeço capaz de mudar rotas e vidas. Porque, no fim, o cuidado cura.


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