Curtas e Grossas

Erasmo, Tremendão Carlos

Cantor disse em depoimento que morreria feliz por ter trazido alento à juventude brasileira, ao alimentar seus sonhos.

José Ewerton Neto

 
 

A juventude é a maior de todas as liberdades. (Esta frase pontua no epílogo do conto Farol da Juventude do livro Dicionário de paixões cruzadas).  

O que dizer então dos sonhos, de toda juventude?

Pois foi dos sonhos da juventude da década 60/70 que faziam parte aqueles caras, aquele programa chamado Jovem Guarda, aquela sensação de liberdade, que voava do palco rumo à cabeça dos jovens. E, como o solo era fértil, germinava. 

Os caras eram Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e alguns outros. Havia também, no mesmo diapasão, os Beatles, mas que viviam distantes, remotamente. Palpáveis para a juventude brasileira, era aquela turma de cantores. Não importava se fossem feios ou bonitos, rebeldes com causa ou sem causa, de esquerda ou de direita, o que importava era a música que faziam e que fazia vibrar os sonhos embrionários até de quem era pré-adolescente, como eu. 

Não importava se fossem repudiados por respeitáveis músicos da MPB, que se julgavam de superior intelecto. Nem que os jornalistas desse nicho se dirigissem a RC o epicentro desses cantores, como “Baixo, subnutrido e cabeludo, assim é o novo ídolo da juventude brasileira” com má vontade não disfarçada. (Revista Realidade) 

Apesar da má vontade, foi uma festa enquanto durou. Embora arrebatadores, os sonhos da juventude fenecem com a mesma, como disse lá fora John Lennon “O sonho acabou”. Por aqui aconteceu em 1967, com o fim da Jovem Guarda. 

E foi só então quando deixou de ser “o sonho dos jovens” que Erasmo Carlos, o Tremendão, percebeu que tinha de rumar em outra direção para ser aceito como o pródigo compositor que já era. Em seu livro Minha fama de Mau - que li e recomendo - Erasmo se refere à guinada que deu à sua vida enveredando para baladas-rock quando Roberto Carlos já tinha partido para uma pegada mais bolerística. Erasmo conta que vibrou quando aqueles mesmos cantores, que o repudiavam, afinal o aceitaram a ponto de chorar quando Elis Regina cantou pela primeira vez uma música sua “Se você pensa”.

A partir dela, a nata dos músicos da MPB se rendeu ao talento desse ‘gigante de delicadeza”, como disse Bethania, contrariando a sua tal fama de mau, que era mais uma ode ao seu aspecto de guardião do rock, esse rock que adorava desde que originário da Zona Norte era um garoto que como eu amava Bill Halley & his comets e que o tirou do destino de garoto pobre da Tijuca, para seguir rumo aos palcos da zona Sul, compondo músicas com seu parceiro RC, até dentro do Lotação.

Poucos dias antes de morrer depois de vencer o Grammy Latino com o disco a Jovem Guarda é o futuro Erasmo disse em depoimento que morreria feliz por ter trazido alento à juventude brasileira, ao alimentar seus sonhos. 

 Nessa ocasião soou como ironia os versos de uma de suas melhores músicas que diz “Preciso lembrar que eu existo, que eu existo, que eu existo...”, desnecessários no seu clamor porque, como todos sabem, aqueles que existiram nos sonhos jovens, como ele, falecem, mas continuam existindo. 

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais Twitter, Instagram e TikTok e curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.