Coluna do ACL

Os amigos maranhenses de Guimarães Rosa

Autor de Grande sertão: veredas, poucos sabem, manteve relação de amizade com José Maria dos Reis Perdigão, Franklin de Oliveira, Josué Montello e Odylo Costa, filho.

Antonio Carlos Lima

- Atualizada em 16/11/2022 às 22h23
A carta de Guimarâes Rosa a Reis Perdigão: arrematada em leilão
A carta de Guimarâes Rosa a Reis Perdigão: arrematada em leilão

Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios (G. Rosa. Grande sertão: veredas).

Há menos de dois anos, no dia 18 de março de 2021, a Levy Leiloeiro, do Rio de Janeiro, vendeu, por R$ 1.810, a arrematador não identificado, uma carta do escritor e diplomata Guimarães Rosa (1908 – 1967) endereçada ao jornalista, escritor e político maranhense José Maria dos Reis Perdigão (1900 – 1986), a quem trata como amigo. (1)

Na carta, datilografada em papel timbrado do Ministério de Relações Exteriores, com data de 3 de junho de 1946, acompanhada do respectivo envelope dos Correios, o autor de Grande sertão: veredas desculpa-se com Perdigão por não poder lhe enviar, como gostaria, um exemplar de Sagarana, seu primeiro e lendário livro de contos, que acabara de ser publicado, porque “o livreco se esgotara depressa demais, inesperadamente.” E encerra a breve correspondência ao “caro Perdigão” pedindo-lhe: “Acredite na amizade e no abraço do seu Guimarães Rosa.”

Tratava-se, sem dúvida, de mais uma preciosidade para os aficionados de tudo o que se relaciona com a vida e a obra daquele que um importante crítico literário definiu como “um dos maiores ourives da palavra que a literatura brasileira jamais conheceu e ao mesmo tempo um dos mais perspicazes investigadores dos matizes da alma humana em seus rincões mais profundos” (2).     

A relação de Rosa com Reis Perdigão é quase desconhecida, certamente porque outros aspectos da vida atribulada desse maranhense tenham merecido mais atenção dos estudiosos. 

Antes de conhecer o grande escritor no Rio, para onde se mudara de São Luís aos 22 anos, Reis Perdigão escrevera crítica de teatro nos jornais cariocas, publicara livros (3) e participara de duas revoluções, a de 1924, que não foi bem sucedida na tentativa de derrubar o governo Artur Bernardes, e a de 1930, quando integrou a junta governativa do Maranhão que assumiu no lugar do governador deposto José Pires Sexto. Por alguns meses, exerceu o governo do Maranhão como interventor. 

Os dois foram colegas no Itamaraty, onde Guimarães Rosa chegara por concurso em 1934. Reis Perdigão exerceu os postos de cônsul na Ilha da Madeira, em Portugal, e em Rosário, na Argentina, além de atuar como secretário de embaixada, em Assunção, no Paraguai. As relações de amizade nascem da experiência de ambos na vida diplomática. 

Foi Perdigão, muito provavelmente, com base em sua participação na Coluna Prestes, quando editava o jornal O Libertador, porta-voz do movimento revolucionário, quem contou a Rosa a história que lhe inspirou o conto “A simples e exata estória do burrinho do comandante”, publicado em abril de 1960 na revista Senhor e incorporado ao livro Estas estórias (1970). Parte da trama do conto se desenvolve em São Luís, quando a cidade se previne contra uma possível invasão dos revoltosos. (Leia post anterior: “O Maranhão em Guimarães Rosa”).

Raridade vendida por uma bagatela em leilão virtual, que também pôs em hasta 71 livros da biblioteca que pertencera a Reis Perdigão, a carta leiloada no ano passado revela, além da surpresa de Rosa com o sucesso de seu “livreco” – na verdade, uma obra-prima –, a existência de mais um maranhense no restrito grupo de amigos do escritor mineiro.

Josué Montello com Guimarães Rosa: posse na Academia Brasileira
Josué Montello com Guimarães Rosa: posse na Academia Brasileira

Os outros a desfrutarem esse privilégio foram o jornalista e crítico Franklin de Oliveira (1916 – 2000), talvez, o mais próximo; o romancista Josué Montello (1917-2006); e o jornalista e poeta Odylo Costa, filho (1914-1979); todos, como o escritor mineiro, vivendo, em meados do século passado, no Rio de Janeiro. 

Não se tratava, porém, de grupo homogêneo, confraria, igrejinha. Em circunstâncias diversas, Rosa e aqueles maranhenses frequentavam-se, não necessariamente em turma. Confraternizavam.  Correspondiam-se. Atuavam na mesma seara, a literatura, e na mesma trincheira, a imprensa. Eram amigos.

Franklin de Oliveira era, desde o final dos anos 40, um dos críticos literários mais respeitados do País, reputação que obtivera a partir, principalmente, dos artigos que publicava na coluna Sete Dias (muitas deles reunidas em livro de título homônimo), da revista semanal O Cruzeiro. Foi um dos primeiros a reconhecer a genialidade do amigo, em artigos antológicos. (4)

Em tese de doutorado para a Universidade de São Paulo, publicada em 1991, a historiadora Elizabeth Hazim (5) observa que mais do que um amigo, Franklin de Oliveira foi um confidente do mineiro. Almoçava aos sábados na casa de Rosa e teria acompanhado passo a passo o desenvolvimento do primeiro rascunho de Grande sertão: veredas. Em entrevista à pesquisadora, Franklin disse que o escritor “parecia um louco, não pensava em outra coisa. Dizia que aquilo era maior que o escritor”.

Para Hazim, Franklin “é um caso especial, pois não parece crível que outros amigos do autor tenham se dedicado à leitura integral de manuscrito tão extenso‖”. Em sua pesquisa, descobriu que Rosa e Franklin viam-se com frequência desde o início da década de 40, quando ambos lançaram livros aclamados pela crítica. Esses laços teriam se consolidado ao longo de uma convivência de vinte anos, até a morte do criador de Riobaldo. Elizabeth Hazim menciona uma crônica do também escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, na qual ele conta ter encontrado, na noite anterior à posse de Rosa na Academia Brasileira de Letras, os dois caminhando juntos pelas ruas do Arpoador, no Rio de Janeiro.

Outros dois pesquisadores, Gustavo Castro e Andréa Jubé, em trabalho para a Universidade de Brasília (6) revelam que quando Franklin de Oliveira foi perseguido pelo regime militar após 1964, estando desempregado, sem condições de sustentar a família, foi Guimarães Rosa quem agiu nos bastidores para convencer Roberto Marinho, diretor-geral do jornal O Globo, a contratá-lo. Marinho foi cobrado pelos militares pela contratação, quando, segundo Castro e Jubé, teria pronunciado a conhecida frase: “De meus comunistas, cuido eu”.

Testemunho maior dessa amizade foi o poema que Guimarães Rosa dedicou à filha de Franklin de Oliveira, Lygia Maria, poucos dias depois que ela nasceu, em 6 de março de 1953. "Grande louvação pastoril à linda Lygia Maria” consta de Ave, palavra, outro livro de Rosa publicado postumamente, em 1970. No poema, o escritor incluiu personagens do bumba-meu-boi do Maranhão.

                                                                               ***

O romancista Josué Montello foi outro amigo próximo de Guimarães Rosa. As maiores evidências desse relacionamento estão nos seis diários que o romancista maranhense publicou em dois volumes. Neles, Montello reproduz cartas, conta episódios e reconstitui diálogos que manteve com o escritor, cuja casa frequentava, com a esposa Yvone. Em carta de novembro de 1957, quando se candidata pela primeira vez à Academia Brasileira de Letras (e não se elege), Rosa escreveu ao amigo: “A primeira coisa que estou fazendo é escrever a você, Josué, mande-me palavras, conselhos, mande-me alma. Vou para a frente, se Deus quiser, candidato firme, até o fim, não recuo. Com desejo, angústia e respeito. Josué, pense em mim e abrace, forte, este muito seu amigo Guimarães Rosa “. (7) 

Em setembro de 2008, a família de Aracy, a segunda esposa de Guimarães Rosa, revelou o conteúdo de uma carta de Josué Montello (8), na qual este comunica a Austregésilo de Athayde, então presidente da Academia Brasileira de Letras, uma confidência que o amigo lhe fizera cinco dias antes de morrer: queria que a esposa fosse sepultada ao seu lado, no mausoléu da ABL. Aracy morreu em 3 de março de 2011, aos 102 anos de idade, mais de quatro décadas anos após a morte de Rosa, sem que se realizasse o desejo que ele confiara a Josué Montello. 

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O poeta, escritor e jornalista Odylo Costa, filho, nascido em São Luís, mas desde os dezesseis anos estabelecido no Rio de Janeiro, como redator, editor ou diretor de jornais como O Jornal do ComércioDiário de NotíciasJornal do Brasil, reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, também frequentava, com a esposa Nazareth, a casa de Guimarães Rosa e o recebia em sua própria casa, no bairro de Santa Teresa. Em 1936, Rosa havia conquistado com Magma o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, vencendo o Livro de Poemas de 1935, de Odylo e Henrique Carstens, que recebeu menção honrosa.

A carta afetuosa de Guimarães Rosa para Odylo Costa, filho
A carta afetuosa de Guimarães Rosa para Odylo Costa, filho

O ex-presidente, escritor e poeta José Sarney conta que conheceu o escritor mineiro na casa de Odylo. “Não tive a honra de ser seu amigo, mas o conheci na casa de Odylo, em Santa Teresa, que era frequentada por muitos artistas e intelectuais importantes da época, pois Odylo era um fazedor de amigos”. O escritor e arquiteto Pedro Costa, filho de Odylo, fala da convivência com Rosa. “Lembro bem da figura de Guimarães Rosa e de testemunhar muitas conversas dos dois na livraria São José, de Carlos Ribeiro”. Pedro conserva, entre outras relíquias do pai, uma comovida carta que ele recebeu do escritor em resposta à que lhe fizera durante o período que o maranhense foi adido cultural em Portugal. Escreve o inventor de Diadorim e Riobaldo, em 27 de janeiro de 1967. (confira o fac-símile da carta, acima): 

Querido Odylo, Você recebeu minha outra carta, rabiscada, a quente, na pressa do coração? E estou voltando da Amazônia, cheio de impressões fortes, de imagens; maravilhado, enriquecido, mesmo. Agora é que procuro pôr alguma ordem em minhas coisas, papelada, tudo espalhado e em desarrumação, atapetadas gavetas, como se diz: “um cafarnaum”. Tudo atrasado – menos o querer-bem.

Não encontro a sua carta, a que me comoveu tanto, a que, me lembro, Você escreveu na manhã de seu aniversário – os 52, magníficos, milionários, do merecimento. Devo tê-la guardado bem demais, agora não atino onde, oxalá ela não se perca, faz bem à gente, consola, reler em certas horas cartas, recados de verdadeiro afeto e compreensão, de fraternidade.

Aliás, em todas as suas cartas encontro esse tom, o apelo cordial, o “sinal”, o grão de ouro na bateia. Naquela, porém, sei que havia uma passagem que me veio mais fundamente. Você dizia, mais ou menos: que “permita Deus, possamos estar mais frequentemente juntos, quando eu regresse ao Brasil.” Em vez de responder logo, a própria grandeza e alegria daquilo me fez ficar à espera da hora calma e propícia – e isto é coisa que a gente nunca deve fazer.

 Agora, o que desejo é saber de Você, se já firmemente bem, sadião, sanadíssimo, sem edemas, sem preocupações. Principalmente quando Você e Nazareth podem estar tão perfeitamente felizes, com o livro – lindo e imenso.

Já o li todo, relido. É – o livro. Você o escreveu para o Juízo Final. Você é um dos seis melhores, maiores poetas nossos, talvez o que me traz mais necessariamente a poesia, como conversa prévia que Deus concede, como marulho de riacho. Como consolação. Obrigado, Odylo.

Pedro acompanhou o pai à casa de Afonso Arinos e testemunhou a leitura de trechos dos discursos que pronunciariam no dia seguinte, quando Arinos receberia Rosa na Academia Brasileira de Letras, onde passou a ocupar a cadeira número 2, fundada, ora vejam, pelo maranhense Coelho Neto (1864 – 1934)! 

Apenas três dias depois, no dia 19 de novembro de 1967 – há 55 anos – o grande, imenso escritor brasileiro morreu de um ataque fulminante do coração. 

​Como se vê, os caminhos de Guimarães Rosa, seus grandes sertões e veredas, cruzaram o Maranhão, por obra e graça de seus amigos maranhenses: um poeta, um romancista, um crítico de literatura e um líder revolucionário.

N O T A S

1) A oferta da carta pelo leiloeiro Levy pode ainda ser visualizada aqui: https://www.levyleiloeiro.com.br/peca.asp?Id=639082

2) COUTINHO, Eduardo F. In Guimarães Rosa: Ficção completa. Editora Nova Aguillar, Rio de Janeiro, 1994. Fortuna crítica. P.11

3) Reis Perdigão publicou os seguintes livros: Estrela da esperança (poesia), 1956. Da fornalha de Nabucodonosor, relato sobre a Coluna Prestes escrito e publicado no exílio, em Buenos Aires, sob o pseudônimo João da Talma; conferência que pronunciou em... foi posteriormente publicado em formato de livro com o título A Revolução de 30 no Maranhão. Todos disponíveis no site de livros Estante Virtual.

4) Entre outros artigos de Franklin de Oliveira sobre Guimarães Rosa, podem ser lidos aqui: https://www.usp.br/bibliografia/autor.php?cod=6358&s=grosa

5) HAZIN, Elizabeth de Andrade Lima. No nada, o infinito: da gênese do Grande sertão. 1991. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991. Disponível aqui: https://app.box.com/s/6o285zjgqz3jk0iqc43dnf0pgbw9bdgr

6) A tese está disponível aqui: https://www.scielo.br/j/gal/a/S3bsX6MvZvkKHhKyRTGz4CC/abstract/?lang=pt

7) Diário da Tarde, 18/11/ 1957, p. 509, tomo I. 

8) Notícia publicada pela revista Época. Leia aqui: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI12760-15518,00.html

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