Curtas e Grossas

Meu nome é Gal

Por que razão quando soube de sua morte a primeira coisa que lembrei foi dessa música a ponto de compartilhá-la com os amigos nas redes sociais?

José Ewerton Neto

 
 

Meu nome é Gal.

Gal é o nome artístico de Maria da Graça Costa, cantora baiana morta semana passada aos 37 anos de idade. 

A canção, assim intitulada, sem que seja um primor de composição, sempre me tocou de um jeito muito peculiar. O impacto inicial foi o da pronunciação do nome curto e acariciante, tendo ao fundo o sotaque baiano com uma voz afinadíssima afirmando que ali estava a moça Maria das Graças querendo dizer alguma coisa de si mesma através do nome (e da canção, e do seu talento...). 

Por que razão então quando soube de sua morte a primeira coisa que lembrei foi dessa música a ponto de, num primeiro impulso, compartilhá-la com os amigos nas redes sociais?

Não sei, não consigo explicar, já que nunca fui um fã ardoroso dessa composição de Roberto e Erasmo Carlos. Lembro que as canções em que Gal é mais Gal e que, melhor a representaram para mim foram Baby de Caetano Veloso e Folhetim, de Chico Buarque, nenhum outro intérprete entraria na pele o no osso dessas duas melodias como Gal. Quando em Folhetim ela diz sou dessas mulheres que só dizem sim, no belo  verso de Chico Buarque , está claro que Gal é a única mulher que diz sim , assim  e, por isso mesmo, se inseriu na melodia e na letra mais até do que seu autor. 

A cantora Gal Costa tinha certamente esse dom: o de extravasar   certos significados. Nem sempre o seu tom agudo se adaptava a todas as melodias que interpretava como em Índia, como podiam fazê-lo outras intérpretes de sua época, Clara Nunes, Elis Regina e Maysa, que talvez tivessem mais domínio daquilo que pretendiam buscar: Clara Nunes, no samba, Maysa, no samba-canção e Elis Regina na MPB pós-João Gilberto... 

Mas Gal era uma intérprete cuja especificidade estava em fazer pulsar através da música, aquela mulher meio tímida, sem grandes arroubos, uma moça de beleza comum, que não teve filhos nem grandes romances, reservada, cujo afeto consigo mesma extravasa na letra título desta crônica, e que ainda hoje soa como se a moça de então estivesse se apresentando na fila da eternidade apresentando seu currículo e dizendo: “Meu nome é Gal.  Guarde  esse nome.” 

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