Coluna do Kardec

Vai, Aldebaran!

Relatamos aqui iniciativas maranhenses para participação no Programa Espacial Brasileiro.

Allan Kardec

 
 

“Qual trecho do Acordo em que o Brasil entrega Alcântara para os Estados Unidos?”. Silêncio obsequioso... O colega não respondeu, e em seguida reconheceu que não tinha lido o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST), que era o tema do debate.

Para quem não lembra, o AST foi assinado em 2019, entre o Brasil e os Estados Unidos, e versa sobre as atividades espaciais e o Centro Espacial de Alcântara (CEA). Sua essência é o óbvio: proteção da propriedade intelectual de quem a produziu, algo consolidado e comum entre empresas ou Estados, há várias décadas.

O fato é que o Maranhão, de forma organizada, está entrando na área espacial. Senão, vejamos. A UFMA criou o curso de graduação em engenharia aeroespacial e, também, junto com a UEMA, UFRN, UFPE e INPE, também criou o mestrado em engenharia aeroespacial. O primeiro fora do eixo Rio-São Paulo!

A educação é revolucionária! Ela reverte o velho status quo, que é de manter os povos na periferia, e os inclui, fazendo-se respeitar. É o único caminho para a revolução verdadeira. Se usada com estratégia, desestabiliza a História e implode os muros que separam os pobres dos ricos, garantindo soberania a um povo.

Por outro lado, não havia sentido em o país investir na área espacial desde 1985 e a formação na área ser toda abaixo do paralelo 16, ou, mais precisamente, ao sul de Brasília. Até 2017, existiam seis cursos de graduação na área. Enquanto isso, os lançamentos se concentravam ou em Natal/Parnamirim, no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), ou em Alcântara, no CEA. O mesmo servia para a pós-graduação, basicamente concentrada no polo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA/DCTA) e INPE.

E a população do entorno? Enquanto no Rio Grande do Norte, há o INPE e uma certa formação acadêmica no setor, no Maranhão, o CEA era uma incógnita, um mundo distante, ausente. Distância reforçada pelo “Boqueirão” que vive no imaginário dos habitantes de São Luís, como uma dificuldade a mais na travessia da Ilha para o continente alcantarense. As ondas são agressivas e intensas naquela área quando entramos em agosto e setembro. 

A participação da sociedade veio a ser organizada pela Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA), com o grupo “Pensar o Maranhão”, que inclui as universidades (UFMA, UEMA e IFMA), a AEB, o próprio CEA, os sindicatos e vários pensadores do Estado, além dos governos Federal, Estadual e o municipal, representado pelo saudoso Padre William. Essa mobilização participou fortemente na construção do Programa de Desenvolvimento Integrado para Centro Espacial de Alcântara (PDI-CEA), envolvendo entidades nacionais.

A outra novidade é que a Innospace, uma startup aeroespacial sul-coreana, veio ao Maranhão e, durante a visita, anunciou que pretende realizar seu primeiro lançamento suborbital em dezembro deste ano, partindo de Alcântara. A empresa – asiática, enfatize-se – vai testar o HANBIT-TLV, um foguete com cerca de 16 metros de altura, basicamente um prédio de cinco andares.

No segundo lançamento, uma das cargas será o Aldebaran. Deixa-me apresentá-lo. Ele é um nanossatélite, de tamanho um pouco menor que uma caixa de sapatos, desenvolvido por pesquisadores da UFMA, liderados pelos professores Luís Cláudio, Braga Júnior e Carlos Brito.

Você deve conhecer a música “Lençol de Areia”, do Boizinho Barrica, que canta “Estrela, minha estrela, vem Aldebaran / Estou vagando luas, Tainahakan”. A Alpha Tauri, também conhecida como Aldebaran, é a estrela mais brilhante da constelação Taurus!

Em 1612, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville passou quatro meses com os Tupinambás do Maranhão e publicou em Paris, em 1614, um livro interessantíssimo intitulado “História da missão dos padres capuchinhos na ilha de Maranhão e terras circunvizinhas”, um dos vívidos relatos da fundação de São Luís. Ele mostra que os Tupinambás conheciam e estudavam as constelações e as relacionavam com os eventos naturais. Entre as constelações, estava Tainahakan, que significa a “queixada da anta”, pelo seu desenho no céu, e incluía a nossa Aldebaran.

Essa pequena caixinha já deu frutos, a partir dos esforços conjuntos da AEB e da UFMA, sob a batuta do Professor Luís Cláudio: um doutorado, do José de Ribamar Fonseca, e um mestrado, do Edeilson Pestana, ambos sob nossa orientação. Para os Tupinambás, o aparecimento de Aldebaran anunciava que as chuvas estavam chegando, o que era motivo de alegria. Agora ela vai virar uma estrela mais próxima, nos céus do Brasil, girando em torno do Mundo. Vai, Aldebaran!

*Allan Kardec Duailibe Barros Filho, PhD pela Universidade de Nagoya, Japão, professor titular da UFMA, ex-diretor da ANP, membro da AMC, presidente da Gasmar.

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