Coluna do Kardec

Navegar é preciso, viver não é preciso

A pesquisa científica maranhense teve uma grande vitória!

Allan Kardec

Solvay Conference - 1927
Solvay Conference - 1927

Marie Curie morreu aos 66 anos, em um sanatório em Sancellemoz, na França, de anemia aplástica, causada por exposição à radiação durante sua pesquisa científica e seu trabalho radiológico em hospitais de campanha durante a Primeira Guerra Mundial.

Ela recebeu dois prêmios Nobel, um em Física, em que demonstrou a existência da radioatividade natural, em 1903, e o outro em Química, pela descoberta de dois novos elementos químicos em 1910. Foi a única cientista até os dias de hoje a ser premiada em dois campos científicos diferentes. Ninguém imaginaria hoje viver sem radiação. Ela é usada na indústria, agricultura, pecuária, geração de energia nuclear ou na medicina, em que a tecnologia é aplicada para diferentes procedimentos de diagnóstico e de tratamento de saúde.

Albert Einstein é o descobridor da equação E=mc2, que afirmam ser a equação mais popular do mundo. Graças a ele e a sua proposta da famosa teoria da relatividade, os aviões percorrem continentes, os satélites retransmitem informações e conseguimos usar o localizador do celular. Ganhou Prêmio Nobel, no entanto, pelo efeito fotoelétrico. Esse que é fundamental para as placas solares que muita gente utiliza no teto de suas casas para converter luz em energia elétrica.

Niels Bohr foi o criador do modelo atômico, esse em que o elétron gira em torno do núcleo. E chegou à conclusão gigantesca de que esses mesmos elétrons “saltam” de um nível para outro. Ele previu a fissão nuclear, além de ser um dos maiores interlocutores de Einstein naquela que viria a ser hoje chamada de Mecânica Quântica. Prêmio Nobel. 

Max Planck é considerado o pai da Mecânica Quântica e um dos mais importantes do século. Além das contribuições que lhe renderam o Nobel de Física em 1918, ele pesquisou sobre termodinâmica, entropia, termoeletricidade, radiações eletromagnéticas e outras coisas interessante que, sem elas, hoje não nos comunicaríamos. Em nome dele, é dado o nome “constante de Plank” a uma das constantes de Física. O mais interessante é que ele a criou e justificou a criação dessa constante como “um ato de desespero”, para que as equações se encaixassem à realidade. Outro Nobel.

Erwin Schrödinger trabalhou com Bohr e propôs uma equação que organizou o então desconhecido e desafiador universo da Mecânica Quântica. Ele é o dono do famoso “Gato de Schrödinger”, em que ele usa uma analogia hilária para os desafios filosóficos daquela parte da Física. Explico: o gato não estaria nem vivo nem morto, dentro de uma caixa, até que a abríssemos. Nobel.

Claro que estou falando de pessoas presentes nessa icônica foto da Conferência de Solvay em 1927. Originalmente ela está em preto e branco, mas encontrei colorida e adorei! Falei só de cinco deles, mas ali estão 29 das maiores mentes do século 20!

Quando iniciaram suas pesquisas, formularam as suas perguntas, eles sabiam a resposta?

Claro que não! Nem sabiam a solução nem os caminhos que percorreriam para encontrá-la. De outra forma não se chamaria pesquisa científica! Aliás, só enfatizando: os cinco que falei todos foram Prêmio Nobel! Nenhum deles – nem ninguém no planeta – sabia onde chegaria quando iniciou seus trabalhos, nem que ferramentas, recursos ou o quanto necessitariam para terminá-los.

Um cientista tem muito do ímpeto dos navegadores portugueses, imortalizados por Fernando Pessoa na frase que dá título a esta crônica. Cabral e sua tripulação zarparam de Lisboa, rumo a Calicute, na Índia, no dia 9 de março de 1500. Nunca chegaram à Índia! O resto da História nós sabemos.

No fundo, um cientista ou uma pesquisadora tem uma ideia vaga de onde quer chegar. Escolhe as ferramentas e os caminhos, se frustra, retorna, luta e finalmente chegará em um resultado positivo. Ou reformulará tudo! Por exemplo, você deve conhecer o que têm em comum a descoberta da penicilina, do viagra ou do velcro? Nenhum deles era um resultado esperado, mas ainda assim revolucionaram o planeta!

Falo isso para aplaudir a iniciativa do Governador Carlos Brandão sobre uma questão fundamental da pesquisa científica. Ele sancionou recentemente a Lei 11.733/2022 que versa sobre inovação tecnológica e simplifica a prestação de contas dos cientistas.

Os cientistas maranhenses fizemos um movimento gigantesco, envolvendo UFMA, UEMA, UEMASul, CEUMA, AMC e outras instituições que desaguou na confecção e apresentação do Marco Legal no último dia 5 pelo secretário Davi Telles, com auditório lotado! Foi um movimento que se iniciou em 2020 com um grande abaixo assinado, e o encaminhamento do então Governador Flávio Dino à Assembleia Legislativa.

Quem assistiu ao filme Radioactive viu o esforço hercúleo de Marie Curie enfrentando não só os desafios científicos. Mas o fato de ser mulher, polonesa e ousada em uma Paris do início do século 20. Volte e veja quem é a única mulher na foto! E a única pessoa com dois prêmios Nobel! Só para lembrar: naqueles idos de 1903, o voto não era permitido às mulheres brasileiras! 

Os cientistas se expõem horas a fios em frente a uma bancada ou manipulando materiais perigosos. Se estressam e são cobrados por não alcançarem resultados - que o digam os estudantes de doutorado ou mestrado! São honestos – se sentem insultados e respondem de acordo se insinuarem o contrário! A Lei 11.733/2022 dá garantias para que eles continuem trabalhando, desenvolvendo, lutando e focando no principal: pesquisa científica, laboratório e bancada em vez de burocracias intermináveis!

Nenhum grande país conquistou soberania sem dar guarida a seus cientistas. Quando estava no Japão e trabalhava em meu pós doutorado no Brain Science Institute, na Grande Tokyo, lembro que meu mestre e orientador, Noboru Ohnishi, me autorizava comprar – sem prévia anuência – até US$ 1000 dólares do material que precisasse para a pesquisa. Afinal, ele defendia que precisamos de dinamismo e sentido de urgência quando trabalhamos com Ciência.

A Lei 11.733/2022 socorre os cientistas maranhenses em um momento grave nacional e que estava se tornando preocupante na academia local.

Navegar é preciso, viver não é preciso!

*Allan Kardec Duailibe Barros Filho, PhD pela Universidade de Nagoya, Japão, professor titular da UFMA, ex-diretor da ANP, membro da AMC, presidente da Gasmar.

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