Papel de Carta

Mulheres mantêm tradição de colecionar papel de carta

G1

Atualizada em 27/03/2022 às 13h19

SÃO PAULO - O hobby era comum entre as garotas na década de 80. Com o tempo, porém, acabou sendo esquecido e cada vez menos popular entre as novas gerações. Mas nos últimos anos, muitas mulheres, que eram meninas duas décadas atrás, decidiram tirar suas antigas pastas de papel de carta do armário e reativar o passatempo da infância.

Na capital paulista, a antiga mania está voltando a virar febre entre o publico feminino com faixa etária de 30 a 35 anos. Uma das participantes da maior parte dos grupos de troca de papéis de carta, e organizadora de um deles, é a recordista brasileira segundo a ONG RankBrasil, empresa com sede em Curitiba e que cataloga recordes nacionais. A bancária Flávia Romanha, de 32 anos, possui atualmente uma coleção com 30.532 papéis de carta distribuídos em 129 pastas armazenadas no apartamento em que mora no Brooklin, Zona Sul de São Paulo. Todas as folhas e envelopes também estão cadastrados em uma planilha no computador. Quando foi classificada como recordista brasileira, em 2004, a coleção era até menor: ela tinha 19.892 papéis.

A bancária conta que o hobby começou em 1986, quando tinha 10 anos, com um bloco de papel de carta da “Bem-me-quer” dado de presente pelo pai. “Naquela época era uma febre na minha faixa etária. Todo mundo trocava papel de carta. Aí eu pedi para ele”, afirma. De lá para cá, ela nunca abandonou a coleção. Apenas, em momentos de crise, deixou a paixão um pouco de lado. “Eu não me desfaço dela. Eu só deixo ela parada para ser retomada em um momento melhor financeiramente. Eu tenho 30 mil papéis de carta, mas isso foi juntado em mais de 20 anos.”

Tecnologia mantém a tradição

Diferente mesmo da década de 80, ficou só a forma de trocar os papéis e dar continuidade ao crescimento da coleção. Se há mais de 20 anos era no pátio no horário do recreio ou pelos corredores do colégio durante os intervalos das aulas que a troca era feita entre as amigas - pessoalmente -, nos últimos anos é a internet que tem servido de canal para a transação.

“A gente compra bastante pela internet. No Orkut, eu tenho o meu perfil e o meu perfil de papel de carta. Em vez de ter as fotos, a gente coloca os papéis de carta repetidos. Aí, a gente escolhe, troca e vende os repetidos”, conta Flávia.

Foi por meio dessas comunidades que Flávia conheceu Luciana Ceccin, de 30 anos, outra apaixonada por papel de carta. Embora more em Santa Maria (RS), as trocas pela internet se tornaram tão rotineiras que Luciana conseguiu, em oito anos, construir uma coleção com um total de 17 mil papéis de carta. “Eu tinha parado na adolescência e, em 2001, estava fazendo uma faxina e encontrei as minhas pastas. Fiquei matando as saudades. Aí, fui na internet e procurei gente que ainda fazia isso (colecionava)”, conta a administradora.

Com o contato cibernético que se estendeu a pessoas de outros países, as três pastas encontradas no armário se transformaram em 40. “Eu troco com gente da Espanha, Dinamarca, Suíça, Argentina, Japão. Os papeis delas são todos diferentes. Com certeza, esse mundo tecnológico permite a gente ter coisas que antes nem imaginava. Quando eu imaginava ter um papel da Turquia ou do Egito? Só quando a vovó viajava para lá”, ironiza.

As trocas de papel também estreitaram ao laços de amizade e Luciana passou a frequentar os encontros, com até 45 pessoas, para troca de papel de carta na casa de Flávia em São Paulo. Em 25 de janeiro, Luciana conta que realizou talvez a sua maior loucura por causa dos papéis de carta. Saiu de Santa Maria às 6h com destino à capital paulista. Desembarcou no Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, e foi até a Zona Sul da capital para o encontro levando apenas uma mala de mão. “Minha mala só tinha papel de carta. Não tinha uma peça de roupa.” Ela conta que trocou cerca de 200 papéis de carta, voltou para o aeroporto, pegou o avião e em seguida um ônibus, de Porto Alegre e Santa Maria. “Cheguei em casa à meia noite.”

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