BRASÍLIA - O senador e ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) defende, em entrevista ao GLOBO, o mandato de seis anos para presidente da República, acabando com a reeleição.
Sarney reafirmou seu voto no petista Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por considerá-lo o mais preparado para promover o pacto social.
Ao fazer um balanço do governo Fernando Henrique Cardoso, o senador destacou como ponto positivo o controle da inflação, mas o acusou de ter levado o país à estagnação econômica e de ter tirado a esperança do povo.
Jorge Bastos Moreno
Do jornal O Globo
o globo - Como poeta, o senhor não cansa de repetir o verso de que “tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Sua opção por Lula é pela convicção de que ele é o mais preparado ou foi uma opção política, resultado de seu rompimento com o governo?
JOSÉ SARNEY - Ele reúne as melhores condições para conciliar o país. Tem capacidade de diálogo e legitimidade para negociar tanto com o empresariado e as forças produtivas como com os setores marginalizados da sociedade, de onde veio. O Brasil vive um momento difícil, de grande vulnerabilidade, com a estagnação da economia e uma crise social cuja face mais perversa é o desemprego e a banalização da violência. Lula pode conseguir o pacto que eu desejei fazer e não pude, e conter os movimentos sociais, além de fazer um governo mais preocupado com os interesses nacionais, integrado à economia global, mas sem submissão.
o globo - Ao ver o presidente Fernando Henrique convocar os candidatos para expor a situação do país, o senhor não pensou que, como presidente, poderia ter feito isso na sua sucessão? Não havia clima para isso ou a situação do país não estava tão grave quanto agora?
SARNEY - Àquela época, o Brasil não tinha crise cambial nem estava, como agora, recorrendo ao Fundo Monetário Internacional para resolver a crise da insolvência. Nosso saldo comercial só era inferior ao do Japão e ao da Alemanha. Não havia, como está ocorrendo agora, a ameaça de inadimplência.
o globo - Qual o balanço que o senhor faz do governo Fernando Henrique? O senhor concorda com os que dizem que ele se perdeu ao lutar pela reeleição?
SARNEY - Como todos os governos, o atual teve coisas boas e coisas ruins. O controle da inflação é uma coisa positiva. Mas a estagnação econômica, o desemprego, a falta de esperanças, não.
o globo - A experiência da reeleição é boa para o país ou o senhor acha que deve acabar?
SARNEY - O melhor para o Brasil, como sempre defendi, era estabelecer um mandato de seis anos, sem direito à reeleição, para o presidente da República. Todos temos de convir que quatro anos é muito pouco tempo. Mas oito anos é um tempo excessivo.
o globo - Qual a avaliação que o senhor faz da sucessão atual? Na sua, os quadros eram melhores ou piores do que o de agora?
SARNEY - No meu tempo, não houve nenhuma reclamação sobre interferência do governo ou quanto à lisura das eleições. Cada eleição reflete o tempo em que ocorre, com os homens desse tempo.
o globo - Todo eleitor tem sua segunda opção, caso seu candidato não chegue ao segundo turno. Qual é a sua segunda opção?
SARNEY - Minha opção nestas eleições já foi feita.
o globo - Dos candidatos que estão aí, em quem o senhor não votaria de jeito nenhum?
SARNEY - O Brasil inteiro sabe.
o globo - O ex-governador Leonel Brizola, em entrevista ao GLOBO, disse que, mesmo sendo uma das vítimas do regime militar, é obrigado a reconhecer que os militares governaram o país melhor do que o senhor e o presidente Fernando Henrique, porque, segundo ele, não entregaram o país ao estrangeiro. O que o senhor acha dessa declaração?
SARNEY - É pura desinformação. Nenhum governo defendeu mais o interesse nacional do que o meu. Aliás, é o que disse em meu discurso de despedida da Presidência: não cedi nem concedi.
o globo - Como o senhor vê a perspectiva de, depois de dois intelectuais terem governado o país, um operário chegar à Presidência da República?
SARNEY - É bom para o Brasil. Os operários, assim como os negros e as mulheres, não podem ser excluídos do direito ao exercício do poder. Isso é coisa do passado.
o globo - Dez anos depois da morte de Ulysses Guimarães, se ele estivesse vivo, o senhor se arriscaria a especular qual dos quatro candidatos ele apoiaria?
SARNEY - Ulysses, tenho certeza, estaria apoiando um candidato do seu partido, o PMDB. Eu sempre defendi a candidatura própria do nosso partido, para que ele não ficasse a reboque de outras candidaturas. Deu no que deu.
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