Bento XVI preside sua primeira via-sacra em Roma

Atualizada em 27/03/2022 às 14h24

SÃO PAULO - Bento XVI presidiu nesta Sexta-Feira Santa no Coliseu de Roma sua primeira via-sacra como papa, em cujas reflexões se denunciou que na sociedade estão sendo divulgados "uma enlouquecida apologia do mal e um absurdo culto a Satanás", e que o bem-estar "desumanizou o homem e está aniquilando a família".

A via-sacra percorreu o interior do Coliseu - o antigo anfiteatro Flavio, que servia de diversão aos romanos durante o império e onde uma cruz lembra o sacrifício de cristãos no local - e a área que leva à colina do Palatino.

Em uma agradável noite de primavera e com a presença de aproximadamente 50 mil pessoas, Bento XVI levou a cruz na primeira e na última estação da via-sacra.

Nas restantes, o papa foi ajudado pelo cardeal vigário de Roma, uma família de romana, um jovem seminarista dos EUA, uma religiosa, uma jovem mexicana, dois frades da Custódia da Terra Santa, uma moça coreana, uma religiosa, uma jovem de Angola e outra nigeriana.

Além disso, um casal de jovens italianos com tochas acompanhou a cruz um de cada lado dela.

Os textos das reflexões das 14 estações da via-sacra foram escritos pelo arcebispo Angelo Comastri, Vigário do Papa para a Cidade do Vaticano, que denunciou a "agonia" do mundo, dividido em zonas de bem-estar e de miséria, "em que há duas salas, uma em que se esbanja e a outra em que se morre".

"Perdemos o sentido do pecado, hoje está sendo divulgada com propaganda enganosa uma enlouquecida apologia do mal, um absurdo culto a Satanás, um desejo louco de transgressão, uma falsa e inconsistente liberdade, que exalta o capricho, o vício e o egoísmo apresentando-os como conquistas da civilização", escreveu o arcebispo.

O religioso também escreveu que o amor está sendo apagado e o mundo está sendo transformado em um lugar frio, inóspito e inabitável.

"O bem-estar está nos desumanizando, a diversão se transformou em uma alienação, uma droga e a publicidade monótona é um convite a morrer no egoísmo", acrescentou em suas reflexões.

Sobre a situação do planeta, dividido entre ricos e pobres, denunciou que em uma zona se morre de abundância e na outra se morre de indigência, em uma se tem medo da obesidade e na outra se implora por caridade.

O prelado também ressaltou que a cada dia o homem é mais arrogante e ataca a família. "Parece que está ocorrendo uma espécie de anti Gêneses, um antidesígnio, um orgulho diabólico que pensa em aniquilar a família", afirmou.

Segundo o prelado, dá a sensação de que o homem quer reinventar a humanidade, modificando a gramática da vida como Deus a desenhou "para se colocar em seu lugar sem ser Deus".

O arcebispo também ressaltou o papel da mulher nesta época e lembrou as mães de assassinos, drogados, terroristas, estupradores, dementes, etc.

Comastri disse que estas são mães que choram, "mas o pranto deve transbordar em amor que educa, em fortaleza que guia, na severidade que corrige, no diálogo que constrói, na presença que fala. O pranto deve impedir outros prantos".

Comastri concluiu suas reflexões afirmando que a Cruz é vida e lembrando João Paulo II, ao destacar sua coragem.

A via-sacra do Coliseu foi instaurada em 1741 por ordem do Papa Bento XIV. Após muitos anos de esquecimento, em 1925 voltou a ser celebrada no anfiteatro da Cidade Eterna.

Em 1964 o papa Paulo VI foi ao Coliseu para presidir o ritual e, desde então, todos os anos os Pontífices vão ao local para participar da via-crúcis.

É tradição que a cada ano o papa encarregue a personalidades, até mesmo não católicas, as reflexões das 14 estações da via-sacra. Os textos já foram assinados pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I; o poeta italiano Mario Luzi e a freira protestante Minke de Vries.

Em 2005, o último ano do Pontificado de João Paulo II, este encomendou as reflexões ao então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, que denunciou que o homem atual não acredita em nada e se deixa arrastar por um novo paganismo, com a tendência rumo a um secularismo sem Deus.

O cardeal também disse que Cristo sofria por causa da "sujeira" que há em sua Igreja, em que "se abusa" de sua palavra.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.