BURITICUPU - O município de Buriticupu, a cerca de 415 km de São Luís, convive há quase 40 anos com o avanço de grandes erosões conhecidas como voçorocas. O fenômeno já provocou a morte de sete pessoas, destruiu casas e ameaça diariamente a rotina de moradores da cidade.
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Buriticupu está localizado em uma área elevada, com cerca de 200 metros de altitude, cercada por vales. As crateras formadas pela erosão do solo, composto por areia, silte e argila, chegam a ultrapassar 600 metros de extensão e até 80 metros de profundidade. Ao longo de quatro décadas, 33 voçorocas já foram registradas no município.
Erosões destroem casas em Buriticupu
Por causa do tamanho e da quantidade dessas erosões, a cidade passou a ser conhecida como “a cidade das crateras gigantes”. O problema é acompanhado por órgãos públicos e já motivou ações do Ministério Público do Maranhão, além de intervenções do governo federal.
Moradores, no entanto, afirmam que as medidas adotadas até agora não têm sido suficientes para conter o avanço das crateras e reclamam da falta de soluções definitivas para o problema.
Ao longo dos anos, pelo menos 83 casas foram destruídas ou engolidas pelas erosões em Buriticupu. Apesar de o fenômeno existir há décadas, os impactos passaram a atingir a população de forma mais intensa a partir de 2015.
Moradores vivem risco com voçorocas
Segundo Isaías Cardoso Aguiar, presidente da Associação de Áreas Atingidas por Voçorocas, criada em 2021, o avanço das crateras está relacionado ao crescimento urbano em áreas vulneráveis.
Uma das maiores voçorocas da cidade fica na Vila Santos Dumont e já teria engolido cerca de 50 casas. No total, aproximadamente 360 famílias foram afetadas pelo avanço das erosões, enquanto outras ainda vivem em áreas consideradas de risco.
O que pode ser feito?
Segundo especialistas, o surgimento de novas crateras pode ser prevenido para evitar tragédias de maiores proporções. Em entrevista ao portal g1, o professor Fernando Bezerra, do programa de pós-graduação em Geografia, Natureza e Dinâmica do Espaço da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), explica que é necessário investir na proteção do solo com cobertura vegetal.
Para ele, é fundamental preservar a vegetação em áreas próximas às encostas e nascentes de rios, além de evitar queimadas e desmatamento.
“A população que vive em torno das cabeceiras das voçorocas precisa ser retirada para evitar novas tragédias. Também é necessário desviar os fluxos de água que chegam às cabeceiras das erosões, investir no plantio de espécies arbóreas nas bordas e no interior das crateras e aplicar técnicas de bioengenharia de solos”, explicou o professor.
Auxílio-moradia e obras atrasadas
Devido à situação de risco provocada pelas voçorocas, o poder público adotou algumas medidas para tentar amenizar o problema. Uma delas é o aluguel social, no valor de R$ 500, pago às famílias que precisaram deixar suas casas.
O presidente da Associação de Áreas Atingidas por Voçorocas afirma que há moradores que sofrem com atrasos no pagamento do benefício.
“O aluguel social é de R$ 500, mas como atrasa muito, muitos inquilinos não querem alugar para quem recebe esse benefício. Quando a pessoa vai com a ordem da prefeitura para alugar uma casa, perguntam se é para a prefeitura, porque sabem que demora para pagar”, explicou.=
Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, desde 2023, o Governo Federal já liberou R$ 9.733.169,07 para ações relacionadas às voçorocas. Desse total, R$ 7.854.243,24 foram destinados à construção de 89 casas para famílias atingidas.
O prazo de entrega das casas era julho de 2024. Até o momento, 27 casas estão prontas há cerca de um ano, mas nunca foram entregues. Outras 33 estão em fase de construção, porém com obras paradas.
Algumas das casas prontas já apresentam infiltrações nas paredes e no forro. Além disso, a obra de uma escola que começou a ser construída no conjunto habitacional também está parada.
Para Jeferson dos Santos, universitário e morador afetado pelas erosões, a falta de apoio do poder público gera sensação de abandono.
“A gente se sente incapacitado. A gente sente no corpo a negligência do serviço público. Minha mãe já procurou muitas vezes o município, advogado, secretarias e ministérios, e não consegue resolver nada. Ou é burocracia demais ou é descaso”, disse.
Justiça determina medidas
A situação das voçorocas em Buriticupu também é alvo de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Maranhão. Em 3 de fevereiro de 2025, a Justiça determinou que o município adotasse uma série de medidas para enfrentar o problema das erosões.
Entre as determinações está o isolamento e a sinalização das áreas com risco de desabamento, além da atualização do cadastro das famílias que vivem próximas às áreas afetadas e a garantia de aluguel social para aquelas expostas a risco iminente.
A decisão também estabelece que a prefeitura apresente um plano detalhado de obras de contenção das voçorocas, com cronograma físico financeiro, e implemente medidas de mitigação dos impactos ambientais.
Mesmo após a decisão, o município apresentou recurso de apelação em março de 2025. O caso foi encaminhado ao Tribunal de Justiça do Maranhão, onde aguarda julgamento.
Enquanto isso, a Justiça determinou que a prefeitura apresente documentos comprovando o cumprimento das medidas estabelecidas. Na sexta-feira, acabou o prazo dado pela Justiça do Maranhão, mas até agora, o relatório não foi entregue.
O que dizem os citados?
Procurado, o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional afirmou que mais de R$ 50 milhões estão empenhados ou em análise para projetos de drenagem e recuperação de áreas e moradias atingidas.
Até o momento, a Prefeitura de Buriticupu não se manifestou sobre o caso.
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