BRASIL – Um teste realizado pela Anistia Internacional Brasil apontou falhas do Facebook na identificação de anúncios com desinformação eleitoral. Dos 14 conteúdos antidemocráticos submetidos pela organização à plataforma, oito foram aprovados para publicação.
O levantamento foi divulgado nesta terça-feira (25), a 40 dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026, marcado para 4 de outubro. Os anúncios foram elaborados em português e direcionados exclusivamente a eleitores brasileiros com 16 anos ou mais.
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Apesar da aprovação, os conteúdos não chegaram a ser publicados. Segundo a Anistia Internacional, todos os anúncios foram programados para uma data futura e poderiam ser cancelados antes da veiculação.
A organização submeteu ao Facebook 15 anúncios pagos. Desses, 14 continham desinformação eleitoral e um apresentava conteúdo neutro.
Tipos de desinformação eleitoral
Segundo a Anistia Internacional, os conteúdos analisados utilizaram três principais estratégias:
- Deslegitimação eleitoral: tentativa de diminuir a confiança nas eleições, no sistema de votação ou nos resultados;
- Construção do inimigo: apresentação de adversários políticos e tribunais como ameaças à nação ou instituições ilegítimas;
- Autoritarismo e segurança: defesa do uso da força, de intervenção militar ou de governos autoritários como solução para problemas de segurança e instabilidade política.
Entre os anúncios analisados havia, por exemplo, uma publicação que defendia uma “revolução militar” e afirmava que os militares poderiam retomar o poder caso menos de 50% dos eleitores votassem.
A informação é falsa. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já esclareceu que votos brancos e nulos não anulam uma eleição e são contabilizados apenas para fins estatísticos.
Oito anúncios foram aprovados
Dos 14 anúncios com conteúdo de desinformação eleitoral, sete apresentavam alegações enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais. Entre as mensagens estavam acusações de fraude na votação e questionamentos sobre a segurança do sistema eleitoral.
Os outros sete continham informações falsas que poderiam interferir diretamente na capacidade de votação dos eleitores, como dados incorretos sobre datas, procedimentos e candidatos.
O levantamento apontou que oito dos anúncios foram aprovados para publicação.
Já os sete conteúdos rejeitados — incluindo o anúncio considerado neutro — não foram recusados especificamente por causa da desinformação. Conforme a Anistia Internacional, a plataforma justificou as negativas pela necessidade de verificação de identidade da conta para anúncios relacionados a questões sociais, eleições ou política.
Segundo a ONG, as notificações recebidas não informavam que os conteúdos haviam sido rejeitados por causa das informações falsas.
Anistia critica sistema de moderação
A diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, classificou o resultado do teste como preocupante.
Para ela, a aprovação de mais da metade dos anúncios com desinformação eleitoral demonstra falhas no sistema de moderação da Meta, empresa responsável pelo Facebook.
A organização também questionou o modelo de publicidade da companhia. Segundo dados financeiros da Meta, mais de 97% da receita de US$ 60 bilhões registrada pela empresa no segundo trimestre de 2026 teve origem em publicidade.
Anúncios foram enviados de Londres
Outro ponto destacado pela Anistia Internacional foi a possibilidade de os anúncios terem sido programados a partir de fora do Brasil.
A organização informou que os conteúdos foram enviados de Londres, sem utilização de VPN para ocultar a localização geográfica.
Para a ONG, essa possibilidade gera preocupações sobre a atuação de grupos nacionais ou estrangeiros em campanhas de desinformação capazes de interferir no processo eleitoral brasileiro.
O pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos da Anistia Internacional, Ummar Bashir, afirmou que o teste indica que os mecanismos de moderação do Facebook podem não identificar de maneira confiável conteúdos relacionados à desinformação eleitoral.
Meta contesta resultado do teste
Procurada pela Agência Brasil, a Meta afirmou que o relatório da Anistia Internacional utiliza uma amostra pequena de anúncios que nunca chegaram a ser publicados ou visualizados por usuários.
A empresa também declarou que o estudo não representa a dimensão do trabalho realizado para identificar conteúdos irregulares.
Segundo a Meta, o processo de análise de anúncios possui diferentes camadas de detecção, realizadas antes e depois da publicação.
A empresa afirmou ainda que investe recursos para proteger o processo eleitoral brasileiro em 2026, incluindo mecanismos de transparência em publicidade e protocolos para anúncios relacionados a questões sociais, eleições e política.
O que diz a regulamentação eleitoral
A propaganda eleitoral no Brasil é regulamentada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre as normas que tratam do tema estão as Resoluções nº 23.610/2019, nº 23.732/2024 e nº 23.755/2026.
As regras estabelecem que provedores de aplicações que permitam a divulgação de conteúdo político-eleitoral devem adotar medidas para impedir ou reduzir a circulação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que possam afetar a integridade do processo eleitoral.
A regulamentação também prevê que informações falsas ou sem comprovação técnica que comprometam a credibilidade do sistema eletrônico de votação devem ser retiradas de circulação.
Nesses casos, a indisponibilização do conteúdo pode ocorrer independentemente de uma determinação judicial.
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