Redes Sociais

ANPD determina que Discord suspenda transmissões ao vivo no Brasil

Após suicídio em Naviraí, a ANPD determina que Discord suspenda transmissões ao vivo. Medida visa proteger menores contra crimes em servidores privados.

Alex Rodrigues / Agência Brasil

- Atualizada em 13/08/2026 às 16h53
A rede social Discord faz sucesso entre os jovens.
A rede social Discord faz sucesso entre os jovens. (Valter Campanato / Agência Brasil)

BRASÍLIA - Com apenas 3 dias para cumprir a ordem, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou nesta quarta-feira (12) a suspensão imediata das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos do Discord no Brasil, visando frear uma onda de crimes contra menores.

A suspensão, de caráter preventivo, vigora por no mínimo três dias, prazo dado para que a companhia comprove à ANPD a implementação de novas camadas de proteção para crianças e adolescentes. A empresa pode recorrer da decisão em até dez dias úteis.

A decisão surge após o trágico caso de 22 de julho, onde uma adolescente de 13 anos, de Naviraí (MS), foi induzida ao suicídio durante uma live no Discord, um evento que acendeu o alerta da ANPD para a coação sistemática de menores de 18 anos na plataforma.

O suicídio da adolescente foi alvo da Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e o Ministério da Justiça e Segurança Pública para aprofundar as investigações sobre uma suposta organização criminosa suspeita de atrair crianças e adolescentes para comunidades virtuais, onde eram submetidos à coerção psicológica e convencidas a praticar atos de violência extrema contra animais (principalmente gatos), desafios de automutilação e até o autoextermínio.

A Operação Lívia já resultou na apreensão de cinco adolescentes (de 13 a 17 anos) e na detenção de um jovem de 18 anos, suspeitos de integrar o esquema de aliciamento. A ofensiva policial se expandiu para além do Mato Grosso do Sul, com oito mandados de busca e apreensão cumpridos simultaneamente no Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.

Suspensão

Motivada pelo suicídio da adolescente, a ANPD instaurou na última sexta-feira (7) um processo de fiscalização contra a plataforma, com o objetivo de apurar indícios de falhas na proteção aos usuários, principalmente a crianças e adolescentes.

A agência justificou a suspensão do recurso de lives apontando “falhas graves” na estrutura do Discord, que, segundo a ANPD, não possui procedimentos eficazes para prevenir violações contra jovens.

“A medida cautelar de suspensão da funcionalidade de lives foi determinada pela Superintendência de Fiscalização (SFI-ANPD) em função de evidências robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes no âmbito do seu serviço, sobretudo indução, incitação, instigação ou auxílio à violência, à automutilação e ao suicídio”, detalhou a agência.

O órgão reforçou que a plataforma não está sendo bloqueada.

“O que a medida preventiva suspende é a funcionalidade ‘Go Live’, utilizada para transmissões ao vivo em servidores fechados”, acrescentou a ANPD, garantindo ter reunido “elementos suficientes que justificam a necessidade dessa ação emergencial”.

Ainda de acordo com a agência, a função Go Live “tem sido reiteradamente usada para a prática de crimes graves, colocando em risco a integridade física e mental dos menores de 18 anos”.

“Pela arquitetura técnica adotada, o Discord não tem acesso ao conteúdo das transmissões de vídeo enquanto elas ocorrem, o que inviabiliza a utilização, no âmbito do servidor, de mecanismos de análise do conteúdo audiovisual e detecção em tempo real de violações. A plataforma depende de sistemas automatizados falhos e de denúncias dos próprios participantes desses ambientes voltados à prática dessas violações”, prossegue a ANPD.

A medida cautelar não impede que outras sanções sejam adotadas no curso do processo de fiscalização instaurado na última sexta-feira. No âmbito administrativo, caso sejam constatadas irregularidades, a agência pode determinar medidas corretivas e aplicar sanções previstas no ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que incluem multa de até R$ 50 milhões por infração.

Diálogo

Consultada, a empresa reafirmou em nota o compromisso com a segurança de seus usuários.

“O Discord mantém um diálogo contínuo com as autoridades brasileiras, incluindo o Ministério da Justiça, e tem atuado de forma proativa ao reportar [denunciar] indivíduos às autoridades policiais brasileiras, contribuindo para operações que resultaram em prisões", informou o Discord. 

Mantendo o teor das notas já divulgadas, a plataforma afirmou que "não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência […]".

"Contamos com equipes dedicadas a desarticular esses grupos, remover conteúdos que violem as políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas condutas.”

O Discord reiterou que espera manter o diálogo com formuladores de políticas públicas brasileiras, visando implementar mudanças que tornem a experiência online mais segura para todos os usuários. A empresa acrescentou que está cooperando com as autoridades policiais na investigação do suicídio da adolescente de Naviraí.

“O Discord investigou um servidor privado no qual acredita-se que indivíduos envolvidos em atividades criminosas tenham incentivado a automutilação [da jovem] e o desativou antes da morte da adolescente. O acesso ao servidor privado dependia de convite e não podia ser encontrado por outros usuários [da plataforma]”, finalizou o Discord, atribuindo às suas denúncias e ações a identificação e consequente detenção de “extremistas violentos”.

Onde buscar ajuda

Adolescentes e seus responsáveis ou quaisquer pessoas com pensamentos e sentimentos de querer acabar com a própria vida devem buscar acolhimento em sua rede de apoio, como familiares, amigos, educadores e também em serviços de saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde, é muito importante conversar com alguém de confiança e não hesitar em pedir ajuda, inclusive para buscar serviços na área.

Serviços de saúde que podem ser procurados para atendimento: 

  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e unidades básicas de saúde;
  • UPAs 24h, Samu 192, prontos-socorros e hospitais;
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita).

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone (188), e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

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