Sônia Amaral
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COLUNA
Sônia Amaral
Sônia Amaral é desembargadora do Tribunal de Justiça do Maranhão.
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História circular

Questiono-me se não vivemos no Brasil uma repetição infindável da história sob um determinado aspecto

Sônia Amaral

Atualizada em 17/05/2026 às 16h34

Diante de certos fatos da atualidade, questiono-me se não vivemos no Brasil uma repetição infindável da história sob um determinado aspecto. Avançamos positivamente em diversas áreas: trocamos a máquina de datilografar pelo computador; desenvolvemos vacinas para males que outrora matavam aos milhares; universalizamos o acesso à energia elétrica e substituímos as carruagens por aviões e automóveis. Além disso, houve um avanço civilizatório: condutas racistas e transfóbicas já não são aceitas com a naturalidade de antes.

Contudo, algo parece resistir ao tempo neste país: a dificuldade em processar e punir indivíduos que ocupam as camadas superiores da sociedade.

O romance Noite sobre Alcântara, de Josué Montello, ilustra bem essa estrutura. A obra, protagonizada pelo Major Natalino (filho do Visconde e da Viscondessa de Itacolomi) e Maria Olívia (filha do Barão e da Baronesa de Grajaú), retrata a opulência e o ocaso da histórica cidade maranhense. A trama se desenrola entre o final do Segundo Império e o alvorecer da República, período em que Alcântara começa a ruir e as famílias nobres, embora endividadas, migram para São Luís.

O ponto que me reforça a ideia de uma "história cíclica" é o relato de um fato verídico presente na obra: o assassinato de dois escravizados por Dona Anna Rosa Viana Ribeiro, esposa do respeitável médico Carlos Augusto Ribeiro do Nascimento. Na narrativa de Montello, a nobreza da época mostrou-se indignada pelo simples fato de Dona Anna ter sido levada ao banco dos réus. Mesmo diante de provas esmagadoras e da brutalidade do crime, ela foi absolvida. É isso mesmo: absolvida.

Vejo essa história se repetir hoje em relação à "nova nobreza": elites econômicas e agentes públicos que ocupam os degraus mais altos dos Três Poderes. Há uma demonstração explícita de insatisfação pela mera possibilidade de investigação. Como se ventilar qualquer esboço de justiça contra esses grupos fosse uma heresia inominável.

Essa dinâmica remete a outra obra clássica, A Revolução dos Bichos. No livro, Benjamin, o burro, e Clover, a égua de vista cansada, percebem a deturpação dos ideais de igualdade da revolução. Ao consultarem o Sétimo Mandamento na parede do celeiro, descobrem que ele fora alterado para justificar tratamentos diferenciados: "Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros".

Retornando a Noite sobre Alcântara, a absolvição de Dona Anna foi tão absurda que gerou uma revolta popular sem precedentes, forçando o casal a fugir para a Europa para evitar o linchamento.

Hoje, espero que resolvamos essas distorções pelo caminho democrático, especialmente por meio das eleições que se avizinham. Qualquer outra via descamba para a barbárie — como foi a tentativa de linchamento do casal Anna e Carlos —, ainda que seja compreensível a revolta e a desesperança nas instituições que tais injustiças provocam no espírito humano, ontem e hoje.


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