Acidente na BR-153

Sobreviventes permanecem acolhidos e relatam falta de informação sobre destino

Acidente com ônibus irregular deixou sete mortos e mobiliza investigação.

Imirante.com

Ônibus sem cinto e com pneu faltando transportava trabalhadores do MA.
Ônibus sem cinto e com pneu faltando transportava trabalhadores do MA. (Foto: divulgação)

SÃO PAULO – Os sobreviventes do acidente envolvendo um ônibus que transportava trabalhadores rurais pela BR-153, entre os municípios de Ocauçu e Marília (SP), permanecem acolhidos em uma casa de passagem em Marília.

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, parte do grupo não tinha informações precisas sobre o destino final da viagem nem detalhes confirmados sobre a atividade profissional que iria desempenhar. O acidente aconteceu na madrugada de 16 de fevereiro e resultou em sete mortes e 45 pessoas feridas.

Sobreviventes relatam vulnerabilidade após acidente com trabalhadores na BR-153

Durante os atendimentos realizados pela assistência social em Marília (SP), ficou evidente a situação de vulnerabilidade dos trabalhadores rurais sobreviventes do acidente na BR-153. Muitos deixaram o Norte do Maranhão em busca de oportunidades no Sul do país, mas não tinham informações precisas sobre o município de destino, a fazenda onde atuariam ou sequer a função que desempenhariam.

“Nos atendimentos, percebemos que muitos não tinham clareza sequer do município ou da fazenda onde iriam trabalhar”, afirmou a secretária municipal.

A Prefeitura de Marília atua em conjunto com a Secretaria de Desenvolvimento Social do Maranhão para emitir novos documentos, já que parte deles foi perdida no acidente. A previsão é que o retorno às cidades de origem ocorra por transporte aéreo, em ação articulada entre os governos de São Paulo e Maranhão. Foi firmado convênio de aproximadamente R$ 235 mil para custear o retorno e a assistência às vítimas, sendo cerca de R$ 185 mil provenientes do governo estadual.

Investigação aponta possíveis irregularidades trabalhistas

O Ministério Público do Trabalho acionou a Polícia Civil para acompanhar as investigações. Segundo a delegada Renata Ono, um auditor fiscal identificou indícios de infrações trabalhistas na contratação das vítimas.

Entre as possíveis irregularidades estão a ausência de contrato formal e o recrutamento realizado por terceiros, o que pode configurar intermediação ilícita de mão de obra. Há ainda suspeita de que o caso possa envolver trabalho em condições análogas à escravidão, diante da vulnerabilidade dos trabalhadores e da falta de informações sobre a viagem.

O MPT deve instaurar procedimento para apurar a responsabilidade da empresa ou contratante e assegurar os direitos das vítimas e familiares.

Ônibus tinha irregularidades e motorista foi preso

De acordo com a investigação, o ônibus não possuía cintos de segurança, apresentava pneus carecas, farol queimado e trafegava sem um dos pneus em um dos eixos. Segundo a delegada, o veículo já estava em situação irregular antes de entrar no estado de São Paulo.

A suspeita é que o motorista tenha retirado um dos pneus após estouro anterior e decidido seguir viagem apenas com o outro pneu do mesmo eixo. Para a delegada, ao continuar nessas condições, o condutor assumiu o risco de provocar o acidente, comprometendo a estabilidade do veículo.

O motorista Claudemir Moraes Moura foi preso em flagrante e será investigado por homicídio e lesão corporal na direção de veículo automotor. Ele permanece internado sob escolta policial no Hospital das Clínicas. A audiência de custódia deve ocorrer após a alta médica.

Viagem não tinha autorização da ANTT

Os trabalhadores seguiam para Santa Catarina, onde atuariam na colheita de maçãs, em viagem superior a 3 mil quilômetros. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o ônibus não possuía autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres para fretamento interestadual.

A empresa responsável pelo transporte, sediada no Maranhão, também será investigada. “A questão da autorização para fazer a viagem e outras responsabilidades da empresa serão apuradas no inquérito policial posteriormente”, afirmou a delegada.

Sete mortos e 45 feridos

O acidente ocorreu após o estouro de um dos pneus. Antes de tombar, o motorista perdeu o controle da direção e o veículo saiu da pista. Sete trabalhadores morreram e 45 ficaram feridos.

As vítimas fatais são:
Edilson da Silva Lima, 42 anos;
Robson Rodrigues Alexandrino, 25 anos;
Gonçalo Lisboa dos Santos, 33 anos;
Antônio da Silva Nascimento, 47 anos;
José Milton Ribeiro Reis, 49 anos;
Raimundo Nonato Sousa da Silva, 41 anos;
Santana Barros de Oliveira, 30 anos.

Os corpos foram encaminhados ao Maranhão para sepultamento.

Estado de saúde dos feridos

Os 45 feridos foram distribuídos entre o Hospital das Clínicas, Santa Casa, Hospital da Unimar, Hospital Materno-Infantil e Unidades de Pronto Atendimento de Marília.

No Hospital das Clínicas, cinco pacientes estão em estado grave. Na Santa Casa, três seguem na UTI com politraumas. O Hemocentro de Marília solicitou doações de sangue, registrando mais de 200 bolsas coletadas desde o acidente.

Relatos de sobreviventes

José da Silva Reis, que perdeu o pai no acidente, descreveu o momento do tombamento. “[Estava] eu e outro rapaz, meu pai estava bem atrás de mim. Eu só lembro do tempo que capotou e eu já estava do lado de fora. Quando eu abracei meu pai, ele já estava morto”, contou.

Ele afirmou ainda que, após verificar o pai, tentou ajudar outras vítimas. “Aí eu fui ajudar os outros meninos que estavam vivos, com as coisas em cima deles. Eu fui ajudar. Eu fui o primeirinho a me levantar.”

Outro sobrevivente, Wagner da Silva Carvalho, relatou que dormia no momento do acidente. “Estava dormindo. Aí, na hora, eu escutei um barulhão no pneu. Aí, aquela zoada mesmo, aí [a gente] se espantou.”

“Aí o carro virou. Aí, nessa hora, depois que virou, eu não me lembro mais nada. Quando eu me lembrei, já estava no chão. Me lembro só na hora que estava dentro, que fez aquela zoadona. Aí, depois, eu não me lembro mais, não”, completou.

 

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.