SÃO PAULO - Em sua primeira entrevista à imprensa depois de ter se tornado réu, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu colocou sob suspeita o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), devido à possível influência da mídia no processo contra os 40 envolvidos no esquema.
Dirceu, que voltou a afirmar que é inocente e que não há provas de sua participação no esquema de compra de votos, disse temer pelo resultado final do seu processo junto à Corte no futuro.
"No mínimo, está sob suspeição o julgamento. Se isso passar em branco, quem me dá garantia que vou ser julgado, daqui a dois anos, de uma forma absolutamente dentro da lei e da Constituição?", perguntou Dirceu a jornalistas.
A suspeição, segundo Dirceu, se deve à reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira. De acordo com o jornal, em uma conversa telefônica testemunhada por uma jornalista, o ministro do STF Ricardo Lewandowski afirmou que o Supremo votou com a "faca no pescoço", acuado pela imprensa. De acordo com ele, o tribunal tendia a "amaciar" para Dirceu.
Aparentando tranquilidade, de gravata vermelha e terno azul marinho, Dirceu estava acompanhado apenas de seu advogado, José Luis Oliveira Lima, na entrevista realizada em um salão de um flat na região dos Jardins em São Paulo.
Dirceu ponderou que, como réu, tem que medir as palavras, mas disse estar entre "perplexo, estupefato e quase entrando em pânico" com as declarações do ministro do STF. Lembrou também da divulgação pela imprensa de emails trocados entre os juízes durante e sobre o julgamento --"impensável em qualquer parte do mundo", "uma violação da lei".
O ex-ministro, no entanto, disse que não pretende tomar nenhuma medida judicial para anular a decisão do STF. Ele espera que o próprio tribunal e a Ordem dos Advogados no Brasil (OAB) avalie a relevância das declarações de Lewandowski.
Na terça-feira, após cinco dias de julgamento, o tribunal encerrou a análise da denúncia contra 40 acusados de envolvimento no esquema do mensalão, incluindo Dirceu, tornando todos réus. Dirceu responderá pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha.
No julgamento, Lewandowski foi contrário à abertura de processo por formação de quadrilha para Dirceu e outros petistas. Na entrevista, Dirceu negou proximidade com o ministro. "Não há nenhuma relação com ele, nenhuma."
Dirceu, crítico constante do desempenho da mídia, aproveitou-se das declarações de Lewandowski e da divulgação dos emails para ir ainda mais longe ao afirmar que "estamos caminhando quase para uma ditadura da mídia" no Brasil. Sugeriu mais uma vez regulação e concorrência na imprensa.
Disse ainda que desistiu de fazer campanha para pedir a anistia da cassação do seu mandato de deputado federal, ocorrida no final de 2005, em função do escândalo. "Em respeito ao Poder Judiciário, tenho que esperar um veredicto."
DENTRO OU FORA DO PT?
Dirigente do PT por mais de dez anos, afirmou que vai participar do 3o congresso do partido --que começa nesta sexta-- como delegado. "Não voltarei à direção do PT, já cumpri com meu dever", disse, para em seguida externar opiniões sobre o rumo do partido na eleição presidencial de 2010.
"A candidatura própria é unanimidade no PT", disse Dirceu, admitindo que tanto pode ser de um candidato do partido como de outra legenda da base governista.
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