FORTALEZA - A expectativa aumenta a cada quilômetro vencido no asfalto novo da estrada em linha reta. Lá na frente, do outro lado das fartas dunas fica uma das praias mais famosas do Brasil. É Canoa Quebrada, no litoral leste do Ceará. Descoberta por hippies na década de 70, a antiga vila de pescadores do município de Aracati continua encantando os visitantes que se deliciam com as ondas quebrando calmas nas areias protegidas por falésias avermelhadas, moldando a praia a perder de vista. A beleza de paisagens cinematográficas parece soltar uma certa magia no ar que se mistura à hospitalidade dos nativos e à informalidade de pessoas de todas as partes do mundo que escolheram a vila para moradia permanente.
Essa mistura de culturas, o jeito pacato de levar a vida durante o dia e uma noite recheada de opções de lazer, embalada pelo ritmo do forró, dão um toque especial à praia que não sai da moda, diz a gestora do Programa de Turismo do Sebrae no Ceará, Ana Clévia Guerreiro Lima. Mas também cria um certo compromisso entre os moradores para não frustrar os turistas que não param de chegar em qualquer época do ano. “O nível de profissionalismo surpreende, talvez influenciado pelo convívio com os estrangeiros”, acredita a gestora. No pequeno balneário os apelidos fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. Todos são vizinhos, conhecidos. É o Chico de Aló, o Luiz do Chega Mais. Sem perder a descontração, o serviço oferecido é de primeiro mundo.
Não é à toa que a primeira barraca de praia, dessas de frente para o mar, plantada em cima da areia, a ganhar um selo de qualidade de serviços no Ceará está lá em Canoa Quebrada. À beira da praia também está um restaurante que logo depois conquistou o selo. É o Bom Motivo. Aliás, o dono do restaurante é o Chico de Aló, ou Francisco de Assis Pereira da Silva. À frente da barraca Chega Mais está o Luiz, ou Gevandro Nogueira da Costa.
Concedido pelo Sebrae, o selo é reavaliado de seis em seis meses, caso o estabelecimento continue merecendo, ressalta Ana Clévia. A barraca já conseguiu carimbar oito vezes consecutivas o seu passaporte de qualidade e o restaurante, quatro vezes. Ao chegar na barraca ou no restaurante não é difícil concluir porque os estabelecimentos conquistaram a distinção.
Depois de descer uma escada com 104 degraus de madeira colocada na falésia, lá embaixo está a barraca Chega Mais, sob uma faixa de areia que se estende até mar. Em volta da barraca a cobertura de palha se estende por alguns metros. Funcionários gentis e uniformizados encaminham os visitantes para uma das 200 mesas instaladas sobre a areia limpa. Luiz, o proprietário, divide-se entre a barraca e, agora, a administração de uma agência de viagens, aberta recentemente no balneário.
Uma olhada rápida pelo local registra algumas diferenças que chamam a atenção. Os banheiros masculino e feminino instalados ao fundo, próximos à falésia, são de alvenaria, com tijolinhos à vista e a uma boa altura do chão. Usá-los causa surpresa, se comparado à maioria dos banheiros de barraca de praia. São limpos, espaçosos, bem iluminados e não falta papel nem sabonete líquido. Para enxugar as mãos, máquinas automáticas.
Se no Brasil férias é quase sinônimo de sol, mar e descontração, em Canoa Quebrada, além de saber disso, os comerciantes estão esmerando-se para conquistar cada vez mais um número maior de turistas com bom atendimento. A conquista do selo foi por iniciativa dos próprios empresários. Tanto Luiz, quanto Chico de Aló, solicitaram consultoria do Sebrae para obter o selo. Não satisfeito, Luiz, junto com mais cinco empresários, fundou a Associação dos Empresários de Canoa Quebrada, a Asdecq.
Canoa Quebrada tem tudo a ver com o trabalho do Sebrae, diz Ana Clévia Guerreiro Lima, gestora do Programa de Turismo do Sebrae no Ceará. Os próprios moradores e turistas que decidiram mudar para lá abriram pequenos empreendimentos. “Não tem nada muito grande”, sintetiza a gestora. Desde 2000, em parceria com o Sebrae, é realizada a Expoturismo, primeiro no município de Aracati e, este ano, foi sediada na praia de Canoa Quebrada, quando foram levadas mais de 30 representantes de operadoras e agências de turismo para divulgar todo o município e as praias como destino turístico.
O primeiro passo para obter o selo é a solicitação feita pelo empresário. Um técnico do Sebrae explica os procedimentos e todo o processo, que costuma demorar seis meses, mesmo prazo de validade do selo. “Quem quiser a renovação, tem que enfrentar todo o processo de novo”, alerta a gestora. No encontro com o técnico são apresentadas todas as regras do jogo.
Depois das explicações prestadas pelo técnico, o empreendimento costuma ser visitado por consultores sem identificação. Num restaurante, o profissional pede um prato e aproveita para observar todos os detalhes, quanto tempo demora o atendimento, a retirada de pratos de clientes que já se levantaram da mesa, a gentileza dos funcionários e por aí vai. No caso de hotel ou pousada, o consultor hospeda-se e faz pedidos no meio da noite, por exemplo, para conferir quanto tempo leva para ser atendido e a presteza dos funcionários, conforme explicou a gestora.
Já para conferir as condições de higiene da cozinha, a visita é feita por uma nutricionista previamente identificada. Os consultores fazem um relatório informal. Se o empreendimento conseguir obter 80% de aprovação em todos os quesitos, ganha o selo. Caso contrário, só irá receber se seguir às orientações recomendadas pelos consultores.
Para conquistar o primeiro selo, Luiz calcula ter feito um investimento inicial em torno de R$ 25 mil. “Reformei toda a cozinha, instalei exaustores, azulejei, coloquei mesas de inox e freezers”, relaciona. À medida que os selos vão sendo revalidados, os investimentos vão diminuindo”, informa o empresário.
Antes de abrir o seu próprio negócio, o Luiz, da Barraca Chega Mais, trabalhou como garçom junto com Francisco de Assis Pereira da Silva, o Chico de Aló. O antigo patrão trabalhava em parceria com agências de viagem. Isso garante a freqüência durante o ano todo. “Na baixa temporada recebemos em média de quatro a cinco ônibus por dia”, informa o irmão de Luiz, Wando Nogueira da Costa, que ajuda na administração da barraca. Outros três irmãos também estão na linha de frente.
Na alta temporada, recebem de 20 a 25 grupos de turistas por dia. Além de serviços diferenciados, a barraca possui um mezanino, onde são servidas refeições.Os funcionários, todos treinados, variam de 25 a 35 de acordo com a época do ano. “Nosso crescimento é baseado em profissionalismo. A gente defende um turismo responsável e feito com seriedade”, diz Luiz.
Ao lado da melhoria dos serviços, a barraca sempre é envolvida nos acontecimentos e promoções de Canoa Quebrada. “Tudo faz parte, desde o zelo com talhares, a equipe uniformizada, a gastronomia elaborada até estar inserido e promover eventos na comunidade”, relaciona Wando.
Um desses eventos é a Operação Praia Limpa, realizada de seis em seis meses. É um mutirão de limpeza feito na orla com a participação de empreendedores e até o envolvimento dos turistas. “O Sebrae é parceiro em diversas ações”, assegura Wando. A organização dos empresários, por meio da Associação dos Empresários de Canoa Quebrada, a Asdecq, também teve o apoio da instituição, informa Luiz.
A poucos metros da Barraca Chega Mais, no nível da calçada, está o restaurante Bom Motivo, comandado por Chico de Aló. O apelido é uma referência ao pai do comerciante, pescador da região. O restaurante combina a paisagem com espaçosas choupanas espalhadas no terreno em declive. Um caminho coberto com pedras, cercado de grama e pequenas árvores vai conduzindo a descida em direção à praia.
Além do visual bonito do seu estabelecimento e do bom atendimento, Chico incentiva a participação dos funcionários em cursos. “Dou emprego para 40 pessoas na alta temporada e todo mundo sabe fazer tudo”, ele garante. Há nove anos trabalhando com Chico, Fernando Alves Pereira, o JB, é garçom, mas já fez curso de primeiros socorros e de brigada de incêndio, por exemplo. “Na beira da praia, se precisar a gente tem que ser até salva-vidas”, diz.
A capacitação dos funcionários também faz parte das recomendações que constam no relatório feito pelos consultores encarregados de avaliar o estabelecimento. Chico confirma. “O meu funcionário aprende e se dedica a fazer tudo, tem rodízio de função. Ele tem que saber vender os pratos da casa, como funciona a cozinha, a esterilização dos talheres como agir em uma situação de emergência”, ressalta.
Para atender aos padrões exigidos pelo selo do Sebrae, Chico investiu R$ 75 mil em melhorias. “Para ter uma idéia, tanto a água das duchas quanto a usada na cozinha são analisadas periodicamente em laboratórios de Fortaleza. Tem que ter o laudo da qualidade”, informa. Recentemente ele recebeu novas recomendações para revalidar o selo. “Às vezes acho que a exigência é demais. Tenho 11 aparelhos sanitários, mas estão pedindo que coloque mais um banheiro para funcionários”, reclama.
Com diárias que custam até R$ 180 na alta temporada, a cearense Socorro Gonçalves Aires Thommem, administra um sonho de seus tempos de adolescente. “Minha família sempre passava as férias em Canoa Quebrada e lá pela década de 80 coloquei na cabeça que ainda abriria uma pousada aqui”, conta. Com o tempo e depois de algumas andanças pelo mundo, ela transformou a casa onde a família costumava veranear na Pousada Vale do Luar.
Com lugar para 30 pessoas, é pequena, confortável, bonita e cheia de charme. “Nas varandas privativas sirvo o café da manha regional. É o maior sucesso”, diz a empresária que tem quase 80% da sua clientela formada por estrangeiros, principalmente franceses e alemães.
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