Parlamentares novatos se atrapalham em Brasília

Atualizada em 27/03/2022 às 15h22

BRASÍLIA - Os endereços não têm nome de rua, só siglas.

Na esquina não há botecos, aliás, há quem defenda que não existe nem esquina em Brasília.

Essas características parecem ser as primeiras percebidas por quem chega de fora para viver na capital federal. E, de repente, o tão sonhado centro do poder do País fica assustador e de difícil adaptação para os políticos novatos, principalmente os que vêm do litoral.

Na primeira semana de trabalhos no Congresso, o olhar dos recém-chegados misturava a expressão de deslumbramento com medo.

Além da agenda e do trâmite legislativo, com ritmo diferente do que ocorre nas assembléias estaduais, deputados e senadores tentavam entender como funciona a cidade.

"Não consigo me localizar ainda. Nem tentei dirigir. Fico assustada nos balões porque não há sinal e penso que todos vão bater", revela a senadora Patrícia Gomes (PPS-CE).

O trânsito também traz dificuldades para o deputado Maurício Rands (PT-PE). "As avenidas são boas, largas, mas a velocidade é controlada em todo canto com os pardais (aparelho do Detran que registra a infração). É difícil não querer correr em pistas tão boas", diz Rands.

Embora já conheça o termo pardais, outras expressões do trânsito em BSB deixam o deputado confuso. "Tesourinhas, o que é isso?". Esse é o nome dado aos acessos entre as quadras e o Eixo Central que corta a capital.

Depois de descobrir do que se trata, o parlamentar revela outro impasse: "Nessas tal tesourinhas, não entendo para que lado temos de dobrar. Se vamos para a esquerda entramos pela direita e vice-versa. É muito complicado".

Mas também há elogios para o funcionamento do tráfego, principalmente sobre o respeito à faixa de pedestres. Todos os carros páram quando qualquer pessoa quer atravessar a rua nos locais permitidos.

"Aqui parece muito com a cidade de Lousane na Suíça, onde moramos por um tempo", compara a esposa do deputado cearense, Pastor Pedro Ribeiro (PTB), Fátima Maria.

As semelhanças, segundo ela, também estão nas quadras largas e nas residências sem grades. Mesmo assim, também confessa que ela e o marido estão perdidos.

"Aqui não tem ponto de referência. É tudo muito parecido", observa. O casal optou por ficar em constante ponte aérea Brasília-Fortaleza, mas precisa se adaptar a isso. Desacostumado com os horários dos vôos, Pastor Pedro só chegou à Câmara, no dia da abertura dos trabalhos, 40 minutos após o término da sessão.

Não conseguiu assistir ao discurso do presidente Lula e nem encontrar seus pares no plenário.

De imediato, todos são unânimes em afirmar: "Brasília é lugar de trabalho". O deputado Paulo Rubem Santiago (PT-PE) conta que trabalhou, em média, 16 horas por dia, durante toda a semana.

Bem mais entrosado com a cidade, onde dois filhos seus moram há dez anos, o petista diz estranhar o ritmo de atividades e os locais das reuniões. "Não sei como, tendo tanto espaço aberto e verde, Brasília foi projetada com tanto ambiente subterrâneo", reclama.

Para conviver com esse "incômodo", conta sua fórmula: "Evito andar pelo túneis do Congresso.

Vou para o meu gabinete no Anexo IV pela rua, para respirar ar puro". O pernambucano, que sempre foi visto nas programações culturais do Recife e de Olinda, diz não ter tido tempo de tomar nem um chopp na primeira semana em Brasília.

Mas já foi informado de que há bons bares e restaurantes, além de um grupo de maracatu na cidade. "Assim que puder vou conhecer esse maracatu", avisa.

O deputado também é membro de um desses grupos folclóricos em Pernambuco, como tocador de alfaia (uma espécie de tambor).

Maurício Rands já deu um giro pela noite de Brasília. "Mesmo sem ter o boteco da esquina, há locais muito agradáveis na cidade, com comida gostosa e chopp cremoso e gelado", atesta, para alívio dos novatos que apreciam a boêmia.

A informação não serve de consolo, no entanto, para a senadora Patrícia Gomes. Embora considere-se "caseira", ela confessa que vai sentir saudade da praia. "Meu mar não troco por nada", diz, diante da observação sempre feita pelo povo daqui de que "o céu é o mar de Brasília".

Entendendo Brasília

Setorização - Há setor para tudo: hospitais, farmácias, indústrias, comércio. Não adianta ficar andando pelas ruas à toa. É preciso ir para o setor certo. Quanto aos bares, estes ficam nas entrequadras ou nos shoppings.

Endereços - O sistema é por letras e números, em ordem crescente. As letras compõem siglas, por exemplo: SQS - Super Quadra Sul, SHLN - Setor Hospitalar Local Norte.

Transporte - Os ônibus não entram nas quadras comerciais e residenciais. Não fazem trajetos transversais, obrigando a pessoa a andar mais.

Distâncias - Além de os ônibus pararem longe de muitos locais, a distância entre os pontos da cidade tiram o hábito de caminhar e gera piadas como: "em Brasília as pessoas têm cabeça, tronco e rodas".

Trânsito - Quase não se ouve buzina, as faixas de pedestre são respeitadas, a velocidade controlada e fechar cruzamento realmente dá multa, pois nos semáforos há sempre máquinas para registrar a infração.

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