O jovem que cresceu surfando a pororoca com portas de geladeira e transformou a brincadeira em empreendimento
Ruan Ribeiro transformou a paixão pelo fenômeno natural do Rio Mearim em uma atividade turística que movimenta visitantes e gera renda na região.
ARARI – Uma brincadeira de infância nas águas do Rio Mearim se transformou em uma atividade ligada ao turismo de experiência que hoje atrai visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo para o Maranhão.
Essa é a trajetória construída por Ruan ‘Pororoca’ Ribeiro ao longo de mais de uma década em Arari, município localizado a cerca de 165 km da capital São Luís. Aos 25 anos, o jovem se tornou uma das principais referências quando o assunto é a divulgação e exploração turística da onda que marca a paisagem da região - a pororoca. O que nasceu da convivência com o fenômeno foi ganhando forma até se tornar um negócio estruturado, que hoje profissionaliza expedições e movimenta a economia local.
A pororoca é causada pelo encontro da maré oceânica com as águas do Rio Mearim. O nome tem origem no tupi e significa “estrondo”, em referência ao barulho e à força da água. Em Arari, o fenômeno ocorre com maior intensidade durante os períodos de lua cheia e lua nova, quando a maré avança rio acima formando ondas que podem percorrer quilômetros e atrair surfistas e turistas de diferentes regiões.
Ruan cresceu ouvindo histórias sobre a força da pororoca e, ainda criança, observava a onda passar pelo rio. Quando fez 12 anos, decidiu que queria mais do que isso, e a curiosidade o levou a experiências improvisadas para tentar surfar a onda.
Primeiro, usava cordas presas à margem do rio. Depois, passou a utilizar estruturas feitas com plantas aquáticas e, mais tarde, portas de geladeira encontradas após enchentes.
Na época, Ruan não imaginava que aquela vivência poderia se tornar profissão.
“Naquela época eu não tinha a mínima noção que aquilo poderia agregar valor profissional pela minha vida, como é hoje (…) na época eu não sabia que eu estava plantando uma semente e passando pelo processo (…) para mim era apenas uma brincadeira e um lazer”, relembra.
Redes sociais e virada profissional
A virada começou em 2017, quando Ruan ganhou sua primeira prancha e passou a registrar imagens da pororoca em diferentes trechos do rio. Os vídeos publicados nas redes sociais despertaram a atenção de surfistas e aventureiros de várias regiões do país.
“O que me destacou foi a maneira como eu mostrava o fenômeno. Eu mostrava detalhes que as pessoas não conheciam”, afirma.
Com o aumento da procura, surgiram as primeiras expedições organizadas de forma simples, até que empresas como Corona, Red Nose e Toyota passaram a buscar o trabalho para projetos ligados ao fenômeno.
A experiência acumulada levou à criação da Pororoca Tur, em 2020, fundada por Ruan e Sérgio Laus.
Segundo ele, a parceria uniu conhecimentos complementares: Ruan com o domínio da pororoca na região e Sérgio com experiência internacional e rede de contatos no surfe.
A profissionalização exigiu também estrutura: das canoas de rabeta, as expedições passaram a contar com lanchas e jet skis.
Turismo e geração de renda
Com o crescimento da atividade, o turismo passou a ser a principal fonte de renda de Ruan.
Hoje, segundo ele, é possível viver exclusivamente das atividades ligadas à pororoca. As expedições recebem surfistas e turistas interessados em conhecer o fenômeno.
A atividade também gera renda para pilotos de embarcação, motoristas, guias e outros prestadores de serviço locais.
O crescimento do turismo da pororoca acompanha uma tendência mais ampla do setor no Maranhão. De acordo com dados do Sebrae Maranhão, o estado possui mais de 76 mil empresas ativas ligadas ao turismo, considerando atividades principais e secundárias, o que representa cerca de 24% do total de negócios ativos.
Desse total, aproximadamente 96% são micro e pequenas empresas, o que evidencia a predominância do pequeno empreendedor no setor turístico maranhense.
Reconhecimento e projeção
A trajetória ganhou projeção ainda maior com a visita de nomes conhecidos do surfe, como Gabriel Medina e Pedro Scooby.
Para Ruan, receber atletas desse porte representou a confirmação de que o trabalho desenvolvido ao longo dos anos havia alcançado reconhecimento nacional.
Além da visibilidade, as experiências ajudaram a fortalecer a credibilidade da Pororoca Tur perante novos clientes e parceiros.
Objetivo de consolidar o destino turístico
Entre os próximos objetivos está a realização de eventos e festivais ligados ao surfe na pororoca, especialmente na região de Arari e entorno.
A meta é consolidar o fenômeno como um dos principais atrativos turísticos do Maranhão.
“A gente tem o objetivo profissional de transformar a Pororoca em um principal ponto turístico do Maranhão, ao ponto de bater de frente com os Lençóis. A gente trabalha para que a Pororoca vire um potencial turístico semelhante aos Lençóis Maranhenses”, afirma.
Hoje, o que antes era apenas curiosidade diante da força da pororoca se consolidou como atividade turística estruturada, que movimenta visitantes, profissionais locais e projetos ligados ao turismo de experiência no Maranhão. Ao falar sobre sua trajetória, Ruan destaca a importância da persistência.
“Faça o básico bem feito. Faça a sua parte, que as coisas vão acontecendo”, aconselha.
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