São Luís 408 anos

Ludovicenses escolheram o Centro Histórico como casa por amor à cultura popular

Moradores do Centro de São Luís falam sobre riquezas culturais e pedem valorização.
Neto Cordeiro/Na Mira08/09/2020 às 07h00

SÃO LUÍS - Todo mundo que mora em São Luís tem 365 dias por ano para descobrir ou redescobrir seus encantos de sua história, acervo colonial e cultura popular magnetizante.

Quem vem de fora não quer mais sair, e quem é de dentro se sente parte de um emaranhado de riquezas culturais que fortalecem o pertencimento. Ilha Magnética! São Luís não é chamada assim à toa, e dois moradores do Centro Histórico confirmam e exemplificam bem a alcunha.

Thiago Ferrer e Carla Coreira contam como é morar no Centro Histórico de São Luís. Foto: Neto Cordeiro/Na Mira.

Nesta terça-feira (8), aniversário de São Luís, o Na Mira mostra a produtora cultural Carla Coreira e o artista Thiago Ferrer, ambos ludovicenses que acolheram o Centro Histórico como morada ou que foram acolhidos pelo Centro Histórico. Todos os caminhos, daquelas estreitas ruas de paralelepípedos com inúmeros casarões, os levam a um só lugar: o coração da cidade, onde a cultura popular pulsa o ano inteiro.

Carla Coreira mora na rua do Ribeirão, mas optou por bater um papo com nossa reportagem na Praça da Faustina, um local para ela cheio de significados e boas memórias. “Meu lugar favorito é esse cantinho aqui”, destaca.

Carla Coreira ajudou a dar nova cara à Praça da Faustina por meio da cultura. Foto: Neto Cordeiro/Na Mira.

Na praça, fica situada a capelinha de São Benedito, criada por ela e amigos, um espaço simples que um dia foi um depósito de lixo. “Essa capelinha era uma antiga lixeira. Era um sábado e sai andando da feira com um cafezinho. Fiquei sentada aqui olhando ‘pro’ tempo e pensei: olha rapaz ali dá uma capela para São Benedito. Eu sou devota desde criança. Aí fiquei viajando”, relembra.

Com R$ 100 que recebeu de um amigo, comprou alguns utensílios e limpou o espaço, onde foi montado um altar para São Benedito. Bem, ali de frente para o santo, é onde já ocorreram incontáveis vezes rodas de tambor de crioula, que tiveram uma pausa com a pandemia do novo coronavírus.

É lá também que Carla realiza sua oficina de tambor de crioula, que garante sua renda e sustento. “Trabalha na Praça da Faustina toda quarta-feira”, diz a produtora que dança tambor de crioula desde os cinco anos de idade. “Mudei pra cá pro Centro porque fica mais fácil pra mim”.

Eu amo muito São Luís, essa cidade maravilhosa, sou tão grata por ter nascido aqui. Adoro as ruas de paralelepípedo, gosto dos casarões, gosto da cultura que tem aqui o ano inteiro, rodas de tambor durante a semana, além de reggae, capoeira, bumba meu boi..."Carla Coreira

Carla ressalta que não pretende se mudar do Centro e como outros profissionais da cultura e da arte local, revela o descontentamento com o poder público. Diante das dificuldades do mercado de trabalho no setor cultural, ela espera mais valorização e apoio à classe por parte das autoridades.

“Eu ‘tô’ brigando por causa de apartamento aqui no Reviver. Eu conheço tantos artistas que passam o que passo, de pagar aluguel. Aqui aluguel não é barato e são casas muito velhas. Eles [poder público] acabam dando apartamentos para pessoas totalmente erradas. “A gente [classe artística] cuida a gente zela, a gente faz cultura popular”, desabafa.

A questão foi também um ponto que Thiago Ferrer, que mora ao lado da Fonte do Ribeirão, destacou. “A maioria [dos casarões] é destinada a iniciativa privada e deveria ser voltado para as pessoas que fomentam o Centro Histórico, tem muitos artistas que moram aqui. A valorização da arte e da cultura não é só em relação à manifestação, mas vem desde a valorização do artista”, aponta.

Nascido no Centro, Thiago só veio se envolver com a produção cultural há pouco tempo. Ele explica que a família sempre viajou bastante e, por isso, não tinha ligação direta com a diversidade de manifestações culturais que estavam tão próximas a eles. “Tem muita gente que sempre viveu aqui mas não conhece o Centro Histórico, então acredito que falta muito incentivo”, ressalta.

Thiago Ferrer iniciou a vida artística após contato com manifestações culturais de São Luís. Foto: Neto Cordeiro/Na Mira.

Ele largou o emprego na área de publicidade e marketing, e não demorou para iniciar no teatro. “Tudo veio a partir do momento que conheci o centro e as manifestações. Essas coisas foram se tornando cada vez mais presentes”, conta.

O orgulho e a consciência sobre o pertencimento foi ficando cada vez mais forte e marcante na vida do jovem artista. “Moro aqui, trabalho aqui, meu lazer é aqui. Gosto das rodas de tambor. Acredito que São Luís, culturalmente, em muitos aspectos, é muito rica, mas ainda requer muita valorização. Não só dos órgãos públicas, mas também das próprias pessoas”, afirma.

Minha casa, minha terra sempre vai ser essa aqui independente da gestão, de como as coisas funcionam aqui. Sempre vai ser um orgulho pra mim dizer que sou daqui e fomentar a cultura."Thiago Ferrer

Com a certeza de que se reencontrou e sentiu suas raízes mantendo-o firme em sua terra natal, ele revela que já teve planos de morar em outros lugares. “Mas conheci o Centro Histórico e mudei a minha opinião em relação a isso”, disse. “É isso que orgulha bastante: a cultura e a resistência dessa cultura. As pessoas que mesmo com toda dificuldade fomentam a cultura e passam para outras gerações”, completa.

Resposta do governo do Estado

A reportagem solicitou ao governo do Maranhão esclarecimento sobre habitação e gestão de casarões do Centro Histórico de São Luís. Leia a nota na íntegra:

A Secretaria das Cidades e Desenvolvimento Urbano (Secid) esclarece que o programa Nosso Centro tem o objetivo de tornar o Centro Histórico de São Luís referência em renovação e desenvolvimento sustentável, preservando seu valor histórico e cultural, ao tempo em que promove o Centro como espaço democrático.

A intervenção do programa compreende áreas de tombamento estadual, federal e zona central, com obras do Governo do Estado, Prefeitura e Iphan, atuando em 5 polos vocacionais: habitacional; comercial e gastronômico; cultural, turístico e de lazer; institucional; e tecnológico.

Foram lançados, ainda, editais do programa Adote um Casarão que visa fomentar negócios na área central, gerando emprego e renda. Além, disso, por meio do Cheque Minha Casa, o Governo do Estado promoveu melhorias habitacionais que contemplaram imóveis do Centro Histórico.

Habitar no Centro

O programa Habitar no Centro vem promovendo o uso habitacional de imóveis públicos e privados, na área de interesse de preservação do patrimônio, por meio do apoio aos atuais moradores. Através da iniciativa, a Secid está revitalizando o prédio Governador Archer, que, após a reforma, ofertará todas as condições de segurança e conforto às famílias que irão residir no imóvel.

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