Crítica

Crítico comenta aventura dos bichos de Madagascar

Divertimento passageiro com meia dúzia de personagens simpáticos, exóticos e engraçadinhos.

Márcio Sallem

Atualizada em 27/03/2022 às 12h20

Afora raras exceções (Shrek 1 e 2 e Como Treinar seu Dragão), a DreamWorks Animations nunca teve qualidade e relevância para destronar os ambiciosos e premiados filmes da Pixar, sua principal concorrente. A cinessérie Madagascar é a prova disto: mero divertimento passageiro com meia dúzia de personagens simpáticos, exóticos e engraçadinhos, os episódios anteriores praticamente recontavam a mesma história (o retorno de Alex, Martin, Glória e Melman à selva urbana de Nova York) com ação e humor em doses equilibradas e sem aspirar ser mais do que 90 minutos de entretenimento para os pequenos e exigir maior ou menor envolvimento dos adultos. Madagascar 3: Os Procurados não foge à regra e repete a mesmíssima fórmula dos antecessores, mas ao final, me vi surpreendentemente emocionado. Confuso, perguntei-me o que havia acontecido, e na reflexão descobri ter assistido a um filme que não só encerra um ciclo iniciado há bons 7 anos, mas o fez de forma cativante e sensível.

Escrito por Eric Darnell e Noah Baumbach, o roteiro desconsidera boa parte dos eventos do episódio anterior, o mais fraco, e acompanha a odisséia dos animais, de onde quer que estejam na África, no retorno à civilização. Para isto, partem no encalço dos pinguins e macacos que escaparam de avião rumo a Monte Carlo, surgindo misteriosamente no cais do principado à nado (e porque não fizeram isto anteriormente para chegar à Grande Maçã é um mistério semelhante a uma girafa mergulhadora). Perseguidos por Chantel DuBois, uma taxidermista obcecada por leões e chefe do controle de animais, Alex e os demais fingem ser circenses e se juntam ao circo Zaragoza, cuja trupe composta pelo tigre Vitaly, a jaguar Gia, o leão marinho Stefano e a ursa Sônia encerra sua própria jornada pessoal.

Previsível na abordagem para conquistar um maior número de fãs, vender mais brinquedos e produzir novos subprodutos, a equipe duplica a quantidade de personagens, acentua a ação desenfreada e substitui muitas soluções inteligentes por comodidades preguiçosas, forçando a barra ao sugerir que animais inexperientes com pouquíssimas horas de treino elaborariam um novo espetáculo de circo. Abusando de clichês, é apenas natural que a mentira contada por Alex seja desmascarada oportunamente e provoque a desilusão daqueles que o viam como um salvador, ou que o drama de Vitaly renda um retorno triunfal no momento apropriado.

Por outro lado, entre a ação frenética, especialmente a perseguição em Mônaco, que não cede brecha para respirar (a montagem destaca-se pela fluidez de raccords, como a recordação de Vitaly ou a chegada à Roma), a narrativa encontra espaço para apresentar personagens cativantes, bem mais interessantes do que Alex, Martin, Melman e Glória, sobretudo o esperançoso e sonhador Stefano. Já o sucesso da série de televisão dos pinguins e lêmures exige a sua promoção de alívios cômicos pontuais à integrantes de destaque na narrativa, sendo cediço afirmar que eles protagonizam as melhores sequências cômicas, como nas tentativas das aves de tirar vantagem ou na paixão à primeira vista do Rei Julian pela ursa Sônia.

Expandindo o olhar além das savanas africanas, os três diretores (supostamente, três cabeças pensantes) mostram pouca inspiração para explorar as localidades europeias, limitados a registrar pontos turísticos que, alheios ao contexto da narrativa, são dispensáveis. Aos diretores, basta pôr os animais nas selvas urbanas ao ritmo de uma trilha sonora relativamente empolgante, com músicas de Katy Perry e LMFAO, além de canções de Edith Piaf, a inspiração estética da vilã Chantel DuBois. Finalmente, o que dizer do uso nefasto e capitalista do 3D, que justifica o ingresso mais caro somente para arremessar objetos no espectador ou projetar o pescoço de Melman.

Mas, aí você pergunta, onde está algo nesta narrativa que justifique o veemente elogio no parágrafo inicial? Encontrando no circo o resgate sonhado pelos bichos novaiorquinos, a narrativa encerra de forma inesperadamente lógica e inteligente a trilogia - termo que pensei cuidadosamente antes de usá-lo -, e a alucinante perseguição enfim culmina na comovente descoberta dos bichos de onde pertencem, o que envolve a superação do comodismo e das grades que enjaulam e deturpam os reais desejos e aspirações de cada um. Mais, há ainda uma mensagem acerca da crueldade praticada contra os animais que, embora não seja sutil como a mensagem ecológica de Wall-E, repisa algo atual e importante aos pequenos sem afastar a coerência narrativa.

Ao fim, independente de estar na selva de concreto, nas savanas de Madagascar ou nas históricas paisagens europeias, na companhia daqueles bichos desajustados pouco importa o destino da viagem, mas a dinâmica desta família desfuncional que não fez feio diante dos bons da Pixar!

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