Surto de Raiva Humana deixa autoridades em alerta

A doença matou 24 pessoas no Maranhão, sendo 17 delas em Turiaçu, Cândido Mendes e Carutapera.
Agência Ministério da Saúde 14/11/2005 às 18h00

BRASÍLIA - Um surto de raiva humana matou 24 pessoas no Maranhão, sendo 17 delas da área rural da cidade maranhense de Turiaçu (320 km São Luís), povoado Antônio Dino e Mupeuá. Outros sete casos ocorreram nas áreas rurais dos municípios: Cândido Mendes (dois casos), Godofredo Viana (três casos) e Carutapera (dois casos).

Neste ano, o Estado do Pará também registrou dois surtos de raiva humana transmitida por morcegos, 15 morreram na cidade de Augusto Corrêa (256 km de Belém) e mais três mortes em Viseu, cidades vizinhas ao Maranhão. A Investigação epidemiológica realizada pelo Ministério Saúde e pelos órgãos de saúde locais (secretarias estadual e municipais de saúde) revelaram que os morcegos hematófagos (espécie de animal que se alimentam de sangue) são os responsáveis pelas ocorrências.

O Ministério da Saúde, em conjunto com a Secretaria Estadual de Saúde do Maranhão, a Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão (Aged) e as secretarias municipais das cidades envolvidas, realiza a vigilância de mortes de animais suspeitos e a busca ativa de novos casos de agressões em pessoas.

Em todo o estado, mais de 2,6 mil pessoas que sofreram agressões por morcegos já foram vacinadas (são cinco doses em um período de 28 dias) para evitar o desenvolvimento da doença, que não tem cura. A população dos municípios das áreas vulneráveis é de pouco mais de 161,2 mil habitantes. Os profissionais envolvidos na captura e controle de morcegos também estão sendo vacinados preventivamente.

A população local recebe, permanentemente, esclarecimentos sobre o que fazer em caso de agressão por morcegos e sobre a gravidade da raiva. "Promovemos também a orientação educativa dos profissionais da rede dos serviços de saúde, com treinamento em relação à prevenção e ao tratamento pós-exposição, palestras educativas dirigidas a professores, líderes comunitários, auxiliares de enfermagem, agentes comunitários de saúde e outros", enumera a coordenadora de Vigilância de Doenças Transmitidas por Vetores do Ministério da Saúde, Rosely Cerqueira. Quarenta equipes da vigilância, composta por profissionais habilitados, atuam nas áreas afetadas do Maranhão.

Entre as ações específicas para controle da transmissão da doença por morcegos no estado estão: a captura de morcegos para identificação de espécies, comprovação da circulação viral, reconhecimento de mamíferos doentes e controle populacional de morcegos hematófagos com a utilização de pasta vampiricida (warfarina). As autoridades não cogitam o extermínio da espécie, pois isso poderia gerar ainda mais desequilíbrio ecológico. São animais protegidos pelas leis ambientais.

Raiva Humana

A raiva é uma zoonose, tipo de doença transmitida por animais. Atinge os mamíferos e também o homem. Sem tratamento, a doença tem uma letalidade de 100%. A transmissão da doença acontece quando o vírus da raiva, presente na saliva do animal infectado, penetra no organismo através uma solução de continuidade pela pele ou mucosas. Isso pode acontecer por meio de mordidas, arranhões, lambidas ou pelo contato com a mucosa dos animais contaminados.

A transmissão da raiva ocorre nos meios urbano e rural. Os principais agressores são cães, gatos e morcegos. Em espaços rurais, o morcego é o maior transmissor da doença para bovinos, eqüinos, suínos, macacos e para próprio homem. Para o diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Expedito Luna, casos de transmissão da raiva por animais silvestres podem ter ligação com o desequilíbrio ecológico. "Esses desequilíbrios causados pela ação humana levam os morcegos a procurar fonte de alimento fora da sua cadeia alimentar. Por isso, deixam de atacar animais silvestres e mordem os moradores da região", diz Luna.

Graças às diferentes realidades epidemiológicas encontradas no país, o Ministério estabeleceu novas estratégias para controle da raiva, além da vacinação de animais domésticos. Mesmo com o controle da transmissão da raiva aos seres humanos, por meio da vacinação de animais domésticos, Expedito Luna entende que é necessária uma eficiente vigilância epidemiológica dos casos transmitidos por animais silvestres, para evitar novos surtos, como no Maranhão e Pará.

A doença, em declínio desde 1995, após investimento do Ministério da Saúde na vacinação de cães e gatos, teve um aumento devido às agressões de morcegos em pessoas. Só no ano passado, foram 22 mortes. Em 2005, já são 42 óbitos.

Vacinação

A vacinação de animais domésticos é a única forma de se conseguir a imunidade contra a raiva nos animais. O Ministério da Saúde, em parceria com as secretarias municipais e estaduais de saúde, realiza campanhas anuais de imunização de animais em todo o país para controle da doença, campanha nacional e a de Intensificação em áreas de alto risco. Em 2004, as autoridades vacinaram cerca de 25 milhões cães e gatos. O ministério tem como meta eliminar a raiva humana transmitida por cães, em áreas urbanas até 2007.

Deve-se aplicar a vacina anti-rábica em animais sadios a partir do terceiro mês de vida, ou em filhotes a partir dos 02 meses, devendo ser dada uma dose de reforço aos 6 meses de idade. A dose tem que ser repetida anualmente. No ano passado, o Ministério da Saúde gastou com a vacinação anti-rábica canina (VARC) R$ 32,5 milhões, com a vacina anti-rábica humana (VARH) R$ 37,8 milhões e mais R$ 3,3 milhões, destinados à compra de soro anti-rábico (SAR) e Imunoglobulina , utilizado no tratamento pré e pós-exposição à doença.

As ações de prevenção se refletem na diminuição do número de casos de raiva humana no país. Os estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e alguns estados da região Sudeste não têm mais casos de raiva canina e felina (variante 02). Em 2004, o Ministério da Saúde registrou apenas seis casos de raiva humana transmitido por animal doméstico. Até novembro de 2005, apenas um caso foi notificado. "Foi a primeira vez que o Brasil conseguiu ter menos de dez casos de raiva humana por animal doméstico em um ano", comemora o diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Expedito Luna.

Nas duas últimas décadas, houve uma redução significativa no número de casos humanos registrados por ano, que caíram de 173, em 1980, para 17 em 2003 e 06 em 2004. A diminuição dos casos de raiva canina e felina, neste mesmo período, segue a mesma redução de casos caninos no país, aproximadamente 90% .Esses casos se concentram, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste.

Orientações

Junto às ações de vacinação, as prefeituras devem promover a captura de animais de rua e controlar os transmissores da modalidade silvestre e ações educativas. Caso seja detectada a presença de morcegos na região, deve-se procurar iluminar áreas externas das residências, colocar telas nos vãos das casas ou tapar com reboque, telar janelas e fechar ou vedar porões, pisos falsos e cômodos pouco utilizados que permitam o alojamento de colônias deste mamífero. Outros alojamentos freqüentes de morcegos são forros, garagens fechadas, casas de máquinas de elevadores, caixas de persianas, edifícios e casas abandonados, estábulos, poços tubulares desativados, bueiros, copas e troncos (ocos) de árvores , cavernas e grutas.

Agressividade e hidrofobia são alguns dos sintomas

Quando os sintomas da raiva se manifestam, é quase impossível tratar e curar humanos ou animais. Todo o tratamento preventivo tem que ser feito antes do aparecimento dos primeiros sintomas. O período de incubação varia, em média, de dez dias a dois meses. As pessoas que tiveram contato com animais doentes ou foram mordidas por morcegos devem, imediatamente, procurar atendimento, para ser medicadas com soro e receber cinco doses de vacina no período de um mês.

A raiva lesa o sistema nervoso central e leva à morte o infectado após sua curta evolução. No homem, o primeiro sintoma é uma febre pouco intensa (38º) acompanhada de dor de cabeça e depressão nervosa. Em seguida, a temperatura torna-se mais elevada, indo de 40º a 42º. "Mal-estar, formigamento, perda de sensibilidade no local agredido e náuseas são outros indícios da contaminação", exemplifica Expedito Luna.

Durante três dias, em média, a vítima fica inquieta e agitada. No período de extrema excitação, ela pode apresentar ataques de terror e depressão, tendência à gritaria e agressividade, com acessos de fúria, acompanhados de alucinações visuais e auditivas, além de salivação intensiva.

No próximo estágio da evolução da doença, o infectado torna-se hidrófobo e não consegue beber água, sofre espasmos (contração involuntária e não ritmada do músculo) dolorosos na laringe e faringe e passa a respirar e engolir com dificuldade. Os espasmos estendem-se a outros músculos depois. Nota-se a paralisia flácida da face, tronco, extremidades dos membros, língua, músculos da deglutição e oculares. A raiva segue com tremores generalizados, taquicardia e parada de respiração.

O cão apresenta alterações sutis de comportamento e anorexia (perda do apetite) ou ainda, poderá apresentar a raiva furiosa. Começa a se esconder, parece desatento e, às vezes, não atende ao próprio dono. Ocorre, então, um ligeiro aumento de temperatura corpórea, dilatação das pupilas e os reflexos oculares ficam lentos. No caso dos felinos, a raiva se apresenta, na maioria das vezes, de forma furiosa e com demais sintomas similares aos do cão.

O que fazer com o animal com suspeita de raiva?

Ao identificar que cães e gatos estão com suspeita de raiva, os donos devem isolar os animais e chamar ajuda especializada, que pode ser a de técnicos do centro de controle de zoonoses local ou veterinários da secretária municipal de saúde ou ainda veterinários autônomos, para que as providências adequadas sejam adotadas.

O diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Expedito Luna, orienta o dono a levar o animal ou solicitar sua remoção ao centro de zoonoses; Vigilância Epidemiológica Municipal ou médico veterinário. Cães e gatos sadios e vacinados, de donos conhecidos, devem ser confinados por dez dias após a mordida, para observação do aparecimento dos sintomas da raiva, somente após este período, se estiver sadio, o animal poderá voltar ao convívio normal. Caso o resultado do animal dê positivo pela presença do vírus, deverá ser iniciada a imunização imediata das pessoas envolvidas, pois não há período de espera seguro e o animal recolhido.

O cão ou gato já vacinado, se mordido comprovadamente por um animal raivoso ou silvestre, em uma área onde há comprovação de vírus circulante, deve ser observado e confinado dentro de sua residência, sob a responsabilidade do proprietário por 90 dias. No caso de animais não vacinados, recomenda-se o recolhimento e a eutanásia (morte sem sofrimento) do mesmo.

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