"intervenção manual"

"Punks Invaders": Artistas de São Luís lançam nova edição de fanzine punk que resiste há mais de 20 anos

Criado por Isomar e Josinaldo, o Punks Invaders reúne histórias, imagens e memórias do punk maranhense e nova edição prepara novidades para 2027.

Hudson Souza/Na Mira

Algumas cópias da fanzine artesanal. (Foto: Divulgação/Punks Invaders)
Algumas cópias da fanzine artesanal. (Foto: Divulgação/Punks Invaders)

SÃO LUÍS – Antes das redes sociais, dos aplicativos de mensagem e da facilidade para publicar qualquer coisa na internet, o fanzine era uma das formas mais importantes de comunicação entre artistas e integrantes da cena punk. Em São Luís, essa história ganhou páginas, recortes e colagens com a Punks Invaders, publicação artesanal criada há mais de 20 anos pelo arquiteto Isomar e pelo historiador Josinaldo.

Ao longo de sua trajetória, o projeto já lançou 10 edições. Depois de um período afastados da cena, os criadores retomaram a produção e estão preparando uma nova edição da publicação, que nasceu com a proposta de registrar e manter viva a história do punk produzido na capital maranhense.

Imirante conversou com Isomar, que explicou como nasceu a vontade de colocar no papel uma movimentação cultural que tinha pouco espaço na mídia. “A ideia surgiu principalmente da necessidade de registrar a história que vinha sendo construída há vários anos em São Luís [...] e que era ainda pouco documentada”, confessou.

Punks Invaders nasceu como forma de comunicação

Segundo Isomar, a cena punk de São Luís já produzia bandas, shows, desenhos e outras iniciativas independentes quando a Punks Invaders surgiu. O fanzine acabou se tornando uma maneira de divulgar essas produções e manter contato com outras cenas do país.

“A cena punk daqui produziu bandas, produziu shows, fanzines, desenhos, toda uma movimentação independente. E ‘pra’ gente divulgar isso e manter o intercâmbio com outros punks e outras cenas de outros estados, de outras regiões, a gente criava os fanzines”, contou.

Naquela época, sem internet e telefones celulares como os de hoje, as publicações circulavam principalmente pelo correio. Quem estava por dentro do movimento produzia as revistas e enviava por meio de cartas para outros interessados Brasil afora.

Recortes, colagens e produção manual marcam a Punks Invaders

O visual da Punks Invaders também faz parte da história. A publicação mantém referências da estética tradicional dos fanzines punks, com recortes, colagens, xerox e montagem manual. Para Isomar, manter esse formato é uma maneira de preservar não apenas informações, mas também o espírito de produção independente que marcou o movimento.

“A intenção do fanzine é preservar esse espírito, mas dentro de uma história específica da cena”, afirmou.

Joacy Jamys é grande referência para a Punks Invaders

Entre as inspirações da Punks Invaders está o artista maranhense Joacy Jamys, já falecido e lembrado por sua atuação como quadrinista e fanzineiro dentro da cena punk.

“Uma grande referência foi o nosso amigo Joacy Jamys, que já partiu. Ele foi um grande quadrinista, ele era atuante na cena punk, era um fanzineiro. O primeiro fanzine aqui em São Luís se chamava Grito Punk, produzido por ele”, relembrou.

Isomar também destaca a trajetória nacional e internacional de Joacy e afirma que seu trabalho deixou um legado para quem continua produzindo na cena.

Os criadores da Punks Invaders também já planejam uma publicação dedicada ao artista. A ideia é lançar, no próximo ano, um livro sobre Joacy Jamys e sua produção, em parceria com uma editora de São Paulo e com a União Libertária do Maranhão (ULMA).

Fanzines ajudam a preservar a memória

Para Isomar, um dos principais papéis da publicação é impedir que acontecimentos e personagens da cena desapareçam com o tempo. Segundo ele, o fanzine “não depende dos meios tradicionais para contar a sua história. O punk sempre teve essa característica de criar seus próprios meios de comunicação, de produção e divulgação”, celebrou.

Em São Luís, essa lógica também se repetiu com a cena criando suas as próprias bandas, eventos e espaços. Além de divulgar artistas e eventos, a publicação funciona como um arquivo da própria cena.

Biblioteca de fanzines guarda materiais históricos

Os criadores também mantêm uma biblioteca com fanzines e outros materiais relacionados à cena, que estão sendo catalogados. O projeto também quer digitalizar esse acervo e ampliar o acesso às publicações.

A Punks Invaders surgiu há mais de duas décadas e, depois de um longo período sem novidades, voltou recentemente à cena. Isomar contou que a produção é conhecida nacionalmente e que a nova edição pretende continuar esse trabalho de memória, mas também funcionar como uma porta de entrada para quem está conhecendo o punk de São Luís agora.

Os criadores esperam que as pessoas que já viveram a cena possam encontrar alguma lembrança da época, como uma banda, um show, ou uma pessoa. Já para quem está começando agora, eles querem essas pessoas descubram que existe uma história sendo construída em São Luís há muito tempo.

Artesanal continua sendo parte da experiência da Punks Invaders

Mesmo com todas as ferramentas digitais disponíveis atualmente, os criadores decidiram manter boa parte do processo de produção de forma manual. Segundo Isomar, a escolha está ligada à própria essência da cultura punk. Ele também destaca que as imperfeições fazem parte da identidade desse tipo de publicação.

“Ele [fanzine] não precisa ter a aparência perfeita de uma publicação comercial, pelo contrário, o erro, a colagem, a xérox, a sobreposição de imagens, a intervenção manual, às vezes até um desenho da gente pessoal feito com uma caneta nanquim, feita no lápis”, contou.

IA aparece apenas como ferramenta na Punks Invaders

Embora o processo continue majoritariamente artesanal, Isomar conta que algumas ferramentas de inteligência artificial também são utilizadas na produção. A tecnologia, segundo ele, serve principalmente para criar texturas e elementos que depois são incorporados manualmente ao material.

“A gente também acaba utilizando a IA pra poder, às vezes você tem coisas que a gente utilizava há 20 anos atrás que hoje não tá mais à disposição numa livraria, numa papelaria, entende? Digamos, uma retícula, alguma textura”, revela.

Depois de gerado, o material volta para o processo manual e é inserido à mão na fanzine

Nova geração também faz parte da história

Depois de mais de 20 anos, os criadores da Punks Invaders querem que a publicação continue servindo como ponte entre diferentes gerações do punk maranhense. A próxima edição chega justamente nesse espírito, recuperando histórias do passado e apontando para o que ainda pode ser produzido na cena local.

E os planos não param por aí. Em janeiro de 2027, Isomar e Josinaldo pretendem organizar um encontro nacional de atitude punk para marcar os 40 anos do punk na Ilha de São Luís.

A nova edição da Punks Invaders também deve ajudar a divulgar as datas e as informações sobre a programação do encontro.

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