arte e cultura

Exposição de artista indígena Pataxoop reúne desenhos sobre memória e conhecimento em São Luís

Com 80 desenhos e instalações imersivas, a exposição de Liça Pataxoop abre no CCVM em São Luís no dia 22 de setembro para celebrar a memória indígena.

Na Mira

- Atualizada em 15/09/2026 às 14h01
Exposição de artista indígena Pataxoop reúne desenhos sobre memória e conhecimento em São Luís.
Exposição de artista indígena Pataxoop reúne desenhos sobre memória e conhecimento em São Luís. (Divulgação)

SÃO LUÍS - O desenho como forma de escrita, memória e transmissão de conhecimento. É a partir dessa perspectiva que a artista, educadora e liderança indígena Pataxoop Liça Pataxoop apresenta sua primeira exposição individual em São Luís. “Liça Pataxoop: Minha escrita é o desenho” será aberta ao público no Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM) na próxima terça-feira (22), às 19h.

A mostra reúne cerca de 80 desenhos feitos por Liça e por jovens da aldeia Muã Mimatxi, em Itapecerica (MG), além de vídeos e uma instalação imersiva. A exposição poderá ser visitada gratuitamente de 23 de setembro de 2026 a 22 de maio de 2027.

Os trabalhos são chamados pela artista de têhêys de pescaria de conhecimentos. Por meio deles, Liça registra saberes, histórias, memórias e relações do povo Pataxoop com o território, transformando o desenho em uma maneira de ensinar e aprender.

Têhêy transforma desenho em forma de escrita

Na tradição Pataxoop, têhêy é o nome dado a um instrumento de pesca confeccionado por mulheres e crianças com tucum e cipó. No trabalho de Liça, a palavra passa a representar também uma ferramenta para “pescar” conhecimentos e transmiti-los entre diferentes gerações por meio das imagens.

“Desde o tempo ancestral, nós ensinamos e aprendemos pelo olhar, o escutar e tudo que fazemos na terra. O têhêy é um pescador de conhecimento da vida, uma escrita do aprendizado que vem da tradição”, afirma Liça.

Para a artista, os desenhos também funcionam como um livro, no qual ela registra aquilo que aprendeu ao longo da vida.

“É o meu livro em que apresento a minha leitura da memória, a escrita do meu aprendizado na escola da vida em que me formei”, explica.

Nascida em Barra Velha, no sul da Bahia, Liça cresceu em contato com os conhecimentos de seu povo e com a Mata Atlântica. Em 2006, participou, ao lado do companheiro Kanatyo Pataxoop e da família, da fundação da aldeia Muã Mimatxi.

Na comunidade, a reconstrução da floresta e do território está relacionada à restauração da vida e ao fortalecimento dos conhecimentos Pataxoop. Liça também atua como educadora na Escola Estadual Indígena Muã Mimatxi, onde participa da construção de uma educação específica, intercultural e multilíngue.

Exposição reúne conhecimentos de toda a comunidade

Apesar de levar o nome de Liça, a exposição tem caráter coletivo. Os têhêys apresentados na mostra são construídos a partir das relações da comunidade com familiares, animais, plantas, rios, mar, ancestrais e os yãmixoop, seres-espíritos que fazem parte da cosmologia Pataxoop.

“Cada obra apresentada aqui nasce dessa rede de relações. Seus têhêys de pescaria de conhecimento não são imagens isoladas, mas lugares de encontro entre a ancestralidade e os valores importantes da vivência pataxoop. São imagens que contam, lembram e, principalmente, ensinam”, afirmam os curadores Felipe Carnevalli de Brot, Paula Lobato e Paulo Maia.

A expografia também incorpora princípios de sustentabilidade e recursos de acessibilidade. A proposta é ampliar o acesso do público aos conteúdos apresentados e aproximar visitantes de uma perspectiva indígena sobre a produção e a transmissão do conhecimento.

A abertura de “Liça Pataxoop: Minha escrita é o desenho” será realizada nesta terça-feira (22), às 19h, no Centro Cultural Vale Maranhão, com a presença da artista. O evento é aberto ao público e marca o início da visitação à exposição.

Para Gabriel Gutierrez, diretor do CCVM, a mostra dá continuidade ao trabalho da instituição com a educação indígena. Segundo ele, o centro já realizou seis edições de um seminário dedicado ao tema.

“A cultura indígena, ainda mais dentro do campo da educação, é um dos eixos de trabalho do CCVM. Durante seis edições, nós fizemos um seminário especialmente dedicado à educação indígena. A exposição de Liça Pataxoop, como uma amostra do pensamento formativo pataxoop, criado por ela a partir das bases do território, vem coroar todo esse processo de trabalho e abrir novos caminhos e frentes para a discussão das questões da educação. São novos caminhos e frentes para uma educação libertária”, afirma.

A exposição tem curadoria de Felipe Carnevalli de Brot, Paula Lobato e Paulo Maia. Liça Pataxoop é educadora e liderança da aldeia Muã Mimatxi e atua na Escola Estadual Indígena Muã Mimatxi.

Paulo Maia é antropólogo e professor associado da Faculdade de Educação da UFMG, com atuação nas áreas de antropologia, etnologia, pedagogia, educação escolar indígena e cinema.

Felipe Carnevalli de Brot é arquiteto e urbanista, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG e em Antropologia pela EHESS, em Paris. Paula Lobato também é arquiteta e urbanista e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG. Os dois são fundadores do estúdio Cosmopolíticas Editoriais, que trabalha com a aldeia Muã Mimatxi na produção de livros de autoria Pataxoop.

A exposição fica em cartaz no Centro Cultural Vale Maranhão até 22 de maio de 2027.

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