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Entre câmeras e playlists, vive Bruna Castelo Branco, jornalista cultural e diretora de TV que respira entretenimento. Fala (com paixão e um pouco de drama) sobre filmes, séries e mús
Lançamento

Uma jornada de conhecimento sob o sol de Brasília

Pequenas Criaturas, estrelado por Carolina Dieckmann, traz a atmosfera de reconstrução pessoal em uma cidade em desenvolvimento

Bruna Castelo Branco

Atualizada em 29/07/2026 às 11h14
Cena do filme Pequenas Criaturas
Cena do filme Pequenas Criaturas (Divulgação)

Quando eu tinha 20 anos, comecei a consumir tudo o que podia de cinema. Ainda não imaginava que um dia trabalharia com audiovisual, nem tinha essa pretensão. Apesar de cursar Jornalismo, meu caminho ainda parecia indefinido.

Foi nessa época que assisti a O Céu que nos protege (1990), de Bernardo Bertolucci, adaptação do romance homônimo do escritor norte-americano Paul Bowles. O filme acompanha um casal que, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, tenta reconstruir uma relação já desgastada. Durante muito tempo, nunca consegui entender por que aquela história, tão distante da minha realidade, havia me afetado tanto.

Essa mesma sensação voltou ao assistir a Pequenas Criaturas, novo longa da cineasta Anne Pinheiro Guimarães, que estreou recentemente nos cinemas.

Ambientado em 1986, o filme acompanha Helena (Carolina Dieckmann), uma mulher que se muda para Brasília acompanhando o marido, transferido a trabalho. Pouco depois, ele parte para uma viagem internacional e ela se vê sozinha em uma cidade ainda em construção, distante da família e sem qualquer rede de apoio. Enquanto tenta reorganizar a própria vida, precisa lidar com um filho adolescente em conflito e uma menina de oito anos cuja sensibilidade faz com que enxergue o mundo de maneira muito particular.

A vida de Helena muda justamente quando o Brasil ainda reaprendia a viver a democracia, pouco depois do fim da Ditadura Militar. O país e seus personagens atravessam, cada um à sua maneira, o mesmo exercício de reconstrução. Há um futuro em construção em paralelo às urgências do cotidiano.

Ao longo do filme, me perguntei por que aquela história me atravessava tanto.

Embora eu tenha escolhido, até agora, não ser mãe e nunca tenha precisado recomeçar sozinha em outra cidade, conheço a experiência de reconstruir a vida quando tudo parece desabar. Terminei um casamento, iniciei um doutorado e mudei de trabalho, tudo isso em meio à pandemia, quando o mundo inteiro parecia suspenso e, ainda assim, a vida exigia que seguíssemos em frente. Trabalhar, cumprir compromissos e continuar existindo enquanto tudo parecia fora do lugar.

É justamente essa dimensão cotidiana que Pequenas Criaturas compreende tão bem.

Helena não enfrenta grandes acontecimentos. Ela enfrenta o dia seguinte. Precisa conhecer uma cidade nova, entender a lógica das quadras de Brasília, cuidar dos filhos, lidar com a ausência do marido e encontrar algum sentido para uma rotina que deixou de ser familiar. A reconstrução acontece sem grandes discursos, mas no acúmulo de pequenos gestos que, pouco a pouco, devolvem algum sentido à vida.

Confesso que, inicialmente, estranhei o ritmo mais lento da narrativa. Em determinado momento, cheguei a pensar que o roteiro demorava a encontrar seu caminho. Depois percebi que a escolha era consciente. O cotidiano raramente é acelerado. Às vezes, nada acontece. Em outras, tudo muda justamente em um dia comum, daqueles em que apenas nos arrumamos para ir ao trabalho.

Brasília também conta essa história

A Brasília recriada por Anne Pinheiro Guimarães é um dos grandes acertos do filme. A direção de arte impressiona pelo cuidado com os detalhes. Figurinos, interiores, festas em casa e a trilha sonora recriam com delicadeza um Brasil que redescobria a democracia enquanto ainda acreditava na promessa de futuro representada pela capital.

Outro elemento que atravessa o filme é o fascínio, mas também a angústia diante do desconhecido. Um dos personagens é ufólogo e vive permanentemente deslocado, como se buscasse, no céu, um lugar onde finalmente pudesse se reconhecer. A escolha dialoga com um episódio real ocorrido em maio de 1986, conhecido como a Noite Oficial dos UFOs, quando dezenas de objetos voadores não identificados foram avistados em diferentes estados brasileiros.

Anne Pinheiro Guimarães utiliza esse imaginário para falar sobre personagens que também vivem em território desconhecido. Todos parecem procurar algo que ainda não conseguem nomear. Talvez por isso Pequenas Criaturas permaneça conosco depois que a sessão termina.

Quando assisti a O Céu que nos Protege, aos vinte anos, eu ainda não possuía as experiências necessárias para compreender completamente aquele filme. Mesmo assim, ele permaneceu silenciosamente comigo até o dia em que a vida me mostrou por que aquela história havia me emocionado tanto.

Talvez alguns filmes façam exatamente isso: chegam antes da experiência. Eles nos emprestam sentimentos que ainda não sabemos nomear e permanecem à nossa espera até que a vida complete o sentido daquilo que vimos na tela.

Pequenas Criaturas fala justamente desse instante em que percebemos que recomeçar não acontece em um único dia. A reconstrução é feita aos poucos, entre uma tarefa cotidiana e outra, enquanto seguimos tentando encontrar nosso lugar no mundo. Sob o céu amplo de Brasília, impossível não cantarolar "Traço do arquiteto, gosto tanto dela assim". Anne Pinheiro Guimarães nos lembra que todos nós somos, em alguma medida, pequenas criaturas aprendendo a existir depois que a vida muda de direção.


 


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