‘Esquerdoboto’: artista maranhense transforma o boto-cor-de-rosa em sátira dos ‘esquerdomachos’
Criado pelo artista Guilherme Cerveira, Esquerdoboto nasceu de uma piada inspirada em uma matéria local e acabou viralizando nas redes sociais.
SÃO LUÍS – O que acontece quando uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro encontra um dos personagens mais comentados das redes sociais? A resposta está no Esquerdoboto, série de charges criada pelo artista maranhense Guilherme Cerveira que mistura humor, cultura popular e crítica social.
Publicada pela primeira vez em 2024, a charge apresenta uma versão inusitada do tradicional boto-cor-de-rosa. Nas histórias, o personagem reúne características associadas ao chamado "esquerdomacho", figura frequentemente debatida em ambientes políticos e culturais.
Em entrevista ao Imirante, Guilherme contou que a ideia surgiu quase por acaso durante a produção de um trabalho de ilustração. Na época, ele desenhava diversos botos para um cartaz quando encontrou uma matéria que discutia o comportamento dos chamados “esquerdomachos” em São Luís.
Versão original do Esquerdoboto tinha 4 personagens
O artista conta que a primeira tirinha não tinha apenas o boto como protagonista. Na versão original, personagens do folclore como Saci, Mula-sem-Cabeça e Curupira também participavam da piada.
A charge mostrava os personagens comentando que "o esquerdomacho tem certeza que não é esquerdomacho". Em seguida, todos respondiam juntos: "Ainda bem que a gente não é".
A repercussão foi imediata. O público abraçou a ideia e a publicação começou a circular amplamente nas redes sociais, incentivando Guilherme a continuar desenvolvendo o personagem.
Primeiras edições do Esquerdoboto foram sucesso
Com o sucesso das primeiras publicações, o artista decidiu simplificar o projeto e concentrar as histórias apenas no boto. Além disso, aproveitou para reformular o visual do personagem.
Segundo ele, após algumas tirinhas viralizarem, o Esquerdoboto ganhou novas cores e um traço mais refinado, tornando-se mais reconhecível para o público. "O Esquerdoboto foi muito bem aceito. Eu não esperava nada disso. Foi uma piada que surgiu praticamente no improviso", relembra o artista.
Esquerdoboto é apaixonado pela cultura
Nas histórias, o personagem também mantém uma forte ligação com as tradições maranhenses. Frequentador de ensaios de bumba meu boi, rodas culturais e espaços boêmios da cidade, o Esquerdoboto satiriza comportamentos enquanto circula por cenários bastante familiares aos ludovicenses.
Para Guilherme, essa conexão com a cultura local é um dos elementos que ajudam a aproximar o público das charges. "Ele também é muito ligado à cultura. Ele bate matraca, ele vai em todos os ensaios [de bois], e tudo para atrair as meninas", brinca o autor.
O início da paixão pela charge
O gosto pelo desenho acompanha Guilherme desde a infância. Como muitos ilustradores, ele começou desenhando super-heróis, mas encontrou seu verdadeiro caminho na charge durante a adolescência.
A mudança aconteceu quando trabalhou na banca de revistas do pai e teve contato com uma edição especial do O Pasquim, jornal que marcou a história do humor gráfico brasileiro. A partir daquele momento, descobriu que o desenho poderia ir além da estética e se transformar em uma ferramenta de humor, crítica e observação da sociedade.
“Fiquei maravilhado. Dá pra desenhar e sacanear os outros, fazer piada, e o desenho não precisa ter aquela anatomia perfeita. [...] Larguei super-herói de mão e acho que foi a melhor escolha que eu fiz”.
Artista coloca a identidade maranhense no foco
Hoje, além de atuar como designer e ilustrador, Guilherme segue produzindo charges autorais e desenvolvendo personagens inspirados no cotidiano local.
O sucesso do Esquerdoboto mostra como referências regionais podem ganhar novas leituras e dialogar com temas contemporâneos sem perder a conexão com suas origens.
“Às vezes a gente quer um reconhecimento da galera dando risada, mas do Esquerdoboto eu não esperava nada”, finaliza o artista.
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