Leitura

Livro de Marilena Chaui redefine debate sobre classe social

Entre direitos e mitos, a filósofa e professora disseca as tensões da democracia brasileira.

Evandro Júnior / Na Mira

Atualizada em 23/06/2026 às 11h49
Capa do livro
Capa do livro (Foto: Divulgação)

Democracia e Populismo - A nova classe trabalhadora, de Marilena Chaui, reúne ensaios filosóficos e tece uma crítica ao atual cenário sociopolítico brasileiro. Logo nas primeiras páginas, a professora estabelece o eixo central do livro: a tensão permanente entre democracia e populismo, atravessada por heranças históricas que ainda moldam o exercício do poder no país.

Chaui defende que regimes democráticos devem ter uma vida social baseada no conflito legítimo e na mediação institucional. Já o populismo personaliza o poder e oferece relações de favor, encontrando no messianismo das massas a figura de um “salvador” capaz de realizar o bem contra o mal. Segundo a autora, essa dinâmica se ancora ao “mito fundador” do Brasil, uma construção simbólica que apresenta o país como harmônico e predestinado, ocultando desigualdades e reforçando estruturas autoritárias. Nesse cenário, o lulismo é analisado como oposição à prática populista, uma vez que favoreceu a criação de novos direitos sob uma liderança popular.

Outro ponto decisivo da obra é o contraponto à ideia de uma “nova classe média”. Para Chaui, as transformações recentes não produziram uma ascensão estrutural, mas sim uma nova camada trabalhadora marcada pela precarização e ampliação do consumo sem correspondência em direitos consolidados. Ao redefinir esse conceito, ela desloca o debate do poder aquisitivo para as relações de trabalho e de produção.

Nova forma do totalitarismo

A leitura também propõe examinar o papel do neoliberalismo na reconfiguração da vida pública, que a filósofa classifica como uma “nova forma do totalitarismo”,  mostrando como a lógica de mercado tende a reduzir a cidadania à condição de consumo e a enfraquecer espaços coletivos de decisão. Assim, a política passa a operar como uma indústria, orientada pela lógica do marketing, privilegiando a imagem e a personalização do poder, enquanto promove indiferenciação de todas as esferas da vida, esvazia pautas sociais e limita a formulação de políticas públicas.

Ao longo de Democracia e Populismo - a nova classe trabalhadora, Marilena Chaui articula esses elementos para evidenciar como antigas matrizes simbólicas se atualizam em novas formas de dominação. O resultado é uma análise inédita e provocadora, capaz de reposicionar o debate público sobre classes e desigualdade no país.

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