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Fantasia biopunk utiliza horror biológico para discutir elitismo, poder e luta de classes

Em "As pragas de Tiliard", Hiron Ennes cria universo onde monstros, arte, política e desigualdade se entrelaçam em narrativa de ficção.

Evandro Júnior / Na Mira

Atualizada em 21/06/2026 às 12h12
Capa do livro
Capa do livro (Foto: Divulgação)

Em uma cidade construída dentro de uma árvore colossal, a copa é destinada à elite, que vive cercada por luxo, perfumes capazes de alterar percepções e espetáculos grandiosos. Já nas raízes, trabalhadores, exterminadores de pragas e pessoas marcadas por dívidas hereditárias lutam diariamente para sobreviver. 

É nesse cenário marcado pela profunda divisão entre riqueza e pobreza que Hiron Ennes, autore vencedore do British Fantasy Award, constrói uma narrativa que combina horror biológico, intrigas políticas, arte e luta de classes de forma tão original quanto perturbadora.

As pragas de Tiliard chega ao Brasil pela Plataforma21, com tradução de Yonghui Qio, e apresenta aos leitores uma metrópole viva construída sobre um emaranhado de raízes gigantescas. Conhecida como o Leito de Morte das Tulipas, a cidade é constantemente ameaçada por criaturas conhecidas como pragas catóptricas: seres capazes de provocar incêndios, espalhar toxinas alucinógenas, semear dúvidas e até transformar completamente a vida de quem cruza seus caminhos.

Nesta cidade vive Guy Moulène, um exterminador de pragas disposto a aceitar qualquer trabalho para impedir que a irmã, Tyro, seja consumida pelas dívidas hereditárias que assolam os moradores mais pobres. Quando recebe a missão de caçar uma centopeia colossal (grande o suficiente para lutar contra um dragão), ele acredita estar diante de apenas mais um serviço perigoso, porém, a criatura possui um veneno mortal e um apetite insaciável por obras de arte. 

À medida em que sobe as camadas da capital destruindo tudo pelo caminho, a criatura passa a ameaçar não apenas a sobrevivência de Tiliard, mas também as estruturas que sustentam a identidade e o futuro do local, da elite aos moradores mais pobres.

Enquanto percorre os níveis inferiores da metrópole em busca da praga, Guy se vê envolvido em conflitos que ultrapassam os limites de uma simples caçada. Paralelamente, personagens como Asteritha Vost, integrante da elite da cidade alta, ligada aos círculos de poder locais, ajudam a revelar as engrenagens que movem aquela sociedade. Aos poucos, diferentes perspectivas expõem um sistema marcado por privilégios, manipulação e disputas políticas, em que arte, informação e influência se tornam instrumentos capazes de moldar o destino de toda a população.

Autor utiliza o cenário distópico da obra para refletir sobre desigualdade, exploração e concentração de poder

Para além dos monstros e intrigas políticas, o autor utiliza o cenário distópico da obra para refletir sobre desigualdade, exploração e concentração de poder. Com personagens LGBTQIAPN+ e uma narrativa que transita entre o grotesco e a crítica social, Hiron Ennes apresenta uma história que transforma criaturas fantásticas, sci-fi e paisagens perturbadoras em ferramentas para discutir questões sociais atuais.

Ao cominar fantasia biopunk, horror biológico e ficção especulativa, As pragas de Tiliard retrata uma ambientação onde natureza, arquitetura, arte e tecnologia se fundem. Com uma estética marcada pelo grotesco e pelo extraordinário, este lançamento de volume único constrói um universo rico em detalhes, que desafia convenções tradicionais da fantasia contemporânea.

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