Leitura

Psicanalista articula em livro reflexões inspiradas em Clarice Lispector, Einstein e Freud

'Meu pai mentiu pra mim' é de autoria de Daniel Lirio.

Evandro Júnior / Na Mira

Capa do livro
Capa do livro (Foto: Divulgação)

Tomás é um menino de 12 anos que tem sua visão de mundo abalada por uma descoberta aparentemente banal: o pai afirma que não há sobremesa, mas é flagrado comendo doce escondido. O episódio, simples à primeira vista, desencadeia uma crise profunda no protagonista de ‘Meu pai mentiu pra mim’, do escritor e psicanalista Daniel Lirio. Afinal, se a figura paterna é capaz de mentir sobre algo tão pequeno, o que mais pode não ser verdade?

A partir dessa dúvida, o garoto passa a questionar as pessoas e a desconfiar da forma como compreende a sociedade. Ao longo de um dia na escola, ele vivencia diversas situações que ampliam esse dilema, em conversas com os amigos, nas aulas e em encontros com adultos. Cada personagem apresenta uma perspectiva diferente, pois há quem justifique mentiras “do bem”, quem as condene totalmente, e quem proponha que a realidade pode ser transformada pela imaginação.

Livro entrelaça referências históricas, mitológicas e culturais

Em paralelo, o livro entrelaça referências históricas, mitológicas e culturais aos personagens que interagem com o Tomás. Ulisses, por exemplo, aparece como amigo do adolescente, inspirando coragem e astúcia; Marie Curie e Albert Einstein apontam os caminhos da investigação científica; Freud abre espaço para o olhar interior; e Gregor Samsa, famoso personagem de Kafka, e Clarice Lispector, aproximam o menino da dimensão subjetiva. Ao lado deles, pensadores como Jean Baudrillard e Frantz Fanon tensionam ainda a noção de realidade, enquanto Milton Santos amplia seu olhar para questões sociais e coletivas.

Neste percurso, as aulas sobre ciência, cultura, história e arte deixam de ser apenas conteúdos escolares e se transformam em metáforas vivas das inquietações do protagonista. Elas questionam como saber o que é verdade, se é possível ter certeza absoluta e até que ponto a imaginação também constrói o real.

Mestre em Psicologia Social pela USP, Daniel Lirio apresenta uma narrativa acessível e sensível, marcada por diálogos e reflexões que aproximam o leitor do universo de Tomás. A trama mostra que crescer implica aprender a conviver com dúvidas e compreender que verdade e imaginação podem coexistir. Ao abordar temas como confiança, ética e percepção da realidade, o livro estimula ainda o pensamento crítico.

“O drama do protagonista é como se abrir para novas formas de pensar o mundo – conforme referências latino-americanas, africanas etc. – sem rejeitar completamente o referencial tradicional que também o constitui.  O livro é um convite para pensar questões universais: a vida, a morte, a possibilidade de convivência e encontro com o outro, sem termos um referencial único e garantidor do que é a verdade ou a mentira”, explica o autor.

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