Estudo

Juventude de São Luís nos anos 1980 é tema de tese defendida na UFPi

Pesquisa analisa grupos como Akademia dos Párias e destaca poesia como instrumento de ocupação da cidade e resistência social.

Evandro Júnior / Na Mira

Atualizada em 30/03/2026 às 08h41
Isaac Gonçalves Souza é historiador graduado pela Uema, Mestre em História do Brasil pela UFPI e membro da Academia Caxiense de Letras
Isaac Gonçalves Souza é historiador graduado pela Uema, Mestre em História do Brasil pela UFPI e membro da Academia Caxiense de Letras (Foto: Divulgação)

SÃO LUÍS - Uma pesquisa sobre a cena cultural de São Luís nos anos 1980, focada em grupos como a Akademia dos Párias e o coletivo do Guarnicê, foi defendida e aprovada na Universidade Federal do Piauí, em Teresina, na última sexta-feira (27). A tese do historiador Isaac Gonçalves Souza, membro da Academia Caxiense de Letras e graduado pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema), analisou como jovens da época construíam suas relações com a cidade e com o tempo por meio da poesia e da linguagem, criando códigos próprios para habitar o espaço urbano.

Personagens como Celso Borges, Fernando Abreu, Roberto Kenard, Ademar Danilo, Joaquim Haickel e outros emergem na narrativa em gestos, versos, visões de mundo e, por meio deles, se delineia a imagem de uma São Luís experienciada subjetivamente por meio da arte.

Segundo Isaac Gonçalves Souza, que é mestre em História do Brasil, a produção literária da época era diversa e corajosa, mesclando estilos líricos, satíricos, experimentais e anárquicos. Os jovens, segundo ele, não guardavam seus versos na gaveta, mas queriam que sua linguagem ‘atravessasse a rua’ e marcasse cada canto da cidade.

“Não há uma homogeneidade na produção escrita daquele tempo. É justamente isso que torna interessante para uma pesquisa histórica. Havia formigamentos. Alguns escreviam de uma maneira mais cerebral, outros eram mais anárquicos. Alguns eram satíricos, outros líricos, outros experimentais. No geral, era uma produção corajosa, que colocava o corpo em jogo”, conta.

Conceito de juventude mudou nas últimas décadas

O estudo também ressalta que o conceito de juventude mudou nas últimas décadas. Entre os anos 1960 e 1990, ser jovem era mais uma posição estética e política do que uma questão de idade. Hoje, termos como geração X, Y, Z, yummi ou geek refletem, em grande parte, práticas de consumo, o que altera a forma como a literatura e as artes são vividas.

“Era ser ‘o outro’ do status quo, ter compromisso com as coisas como elas poderiam ser. Hoje, existem dezenas de nomeações que indicam nada mais do que mercados, práticas de consumo. É um cenário diferente. A literatura e as artes em geral sofrem os efeitos dessa mudança”, pontua.

A pesquisa destaca ainda o papel da poesia como instrumento de oposição, seja ao conservadorismo social, ao autoritarismo estatal ou à hegemonia do mercado, e evidencia que experiências como amor, amizade e estética são dimensões históricas e políticas, e não apenas decorativas.

Reflexões metodológicas para a história cultural do Maranhão e do Brasil

O trabalho propõe também reflexões metodológicas para a história cultural do Maranhão e do Brasil, mostrando tempo, espaço e corpo como construções históricas e linguísticas. Além disso, buscou-se uma escrita acessível e fluida, capaz de interessar não apenas a acadêmicos, mas a qualquer leitor curioso.

“Minha pesquisa demonstra que a modernização de São Luís, iniciada nos anos 1960 e acelerada nas décadas seguintes fez se desintegrarem formas tradicionais de se entender o tempo e o espaço. A cidade ganhou outros ritmos, caminhos e gentes. As juventudes urbanas da década de 1980 tiveram que inventar seus próprios códigos e signos para lidar com essa condição histórica. Eles fizeram isso por meio da poesia, tomada como instrumento para o ocupar a cidade e se fazerem habitar por ela. Assim, construíram uma experiência histórica única de invenção de um tempo, de um espaço e de si mesmos enquanto sujeitos da história”, diz. 

Isaac Gonçalves Souza espera que seu estudo traga contribuições para a história cultural do Maranhão e do Brasil. Do ponto de vista da teoria e do método, ele considera ter produzido um trabalho arrojado, com procedimentos que podem ser apropriados criticamente por outras pesquisas. “Também espero contribuir para a desnaturalização das noções de tempo, espaço e corpo, demonstrando que elas são construções históricas, culturais, erigidas na linguagem, e não realidades imutáveis, sem história”, diz.

 

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