Ambientado na cidade fictícia de Aroeira, no sertão da Paraíba, entre as décadas de 1970 e 1990, ‘Mortes no Sobrado’ mergulha em uma atmosfera densa, onde o calor da terra se mistura aos silêncios carregados de medo e memória.
No romance marcado por regionalismo, mistério e críticas sociais, a professora e especialista em Literatura Brasileira, Fátima Sá Paraíba, apresenta a história de um sobrado antigo, envolto em lendas e violência. Ali repousa o passado sombrio da influente família Gomes Barreto, cujos segredos atravessam gerações e continuam a ecoar pelas ruas da região.
Noutra época, o casarão pertenceu ao temido Coronel Gomes, homem de poder áspero e com fama cruel devido a acusações de abusos e assassinatos que ecoaram por todo o sertão. O filho, Zé Gomes, herdou as terras e a dureza do pai, perpetuando um legado de opressão. Tempos depois, foi encontrado morto ao lado de uma jovem, em uma cena oficialmente tratada como suicídio por envenenamento, mas cercada de suspeitas que nunca se calaram.
Anos mais tarde, Aroeira volta a estremecer quando dois corpos desconhecidos aparecem boiando na fonte do sobrado, como se o passado viesse à tona para cobrar dívidas. O delegado Tião recorre ao experiente inspetor Pingo D’Água, conhecido pela habilidade em desvendar crimes complexos.
À medida que a investigação avança, as pistas conduzem às feridas abertas desta impetuosa família. Enquanto isso, surge Fedorento, o enigmático flautista da praça, que observa tudo em silêncio, como quem guarda informações ocultas que o tempo ainda não conseguiu apagar.
Com elementos culturais e expressões próprias do sertão paraibano, a trama combina a investigação policial em estilo clássico — conduzida com pistas e reviravoltas — a elementos de crenças populares, segredos familiares e traumas.
Povo marcado pelas próprias lendas
Assim, o mistério ultrapassa o crime e imerge nas camadas mais profundas da memória e da identidade de um povo marcado pelas próprias lendas. “Embora seja um romance policial, a obra também se apoia em ambientação regional e linguagem típica, o que dá profundidade cultural e senso de lugar à narrativa”, explica Fátima Sá Paraíba.
Apesar da escuridão que envolve os crimes, Mortes no Sobrado ilumina a busca incansável por justiça como força capaz de romper ciclos de opressão. Ao longo da investigação, a persistência do bem se revela nos gestos firmes e na consciência ética do inspetor, cuja trajetória pessoal também é atravessada por dúvidas e conflitos. É nesse percurso que surge a possibilidade de redenção, mostrando que, mesmo em meio às sombras, ainda há espaço para transformação.
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