Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica é a quinta doença que mais mata no Brasil

O Globo Online

Atualizada em 27/03/2022 às 13h57

SÃO PAULO - Pouca gente ouviu falar em Doença  Pulmonar Obstrutiva Crônica - a DPOC - sigla pela qual os médicos se referem à enfermidade que afeta entre 7,5 milhões a 10 milhões de brasileiros e é a quinta causa de mortes no país, a maioria fumantes.  Os dados surpreendentes foram divulgados nesta quarta-feira em São Paulo e fazem parte do maior estudo já realizado sobre DPOC no mundo, o GIANT - Greatest International Antibiotic Trial - que avaliou quase 50 mil pacientes em todo o mundo com a participação de 7.751 médicos de 46 países, inclusive do Brasil.

A Doença  Pulmonar Obstrutiva Crônica é caracterizada por uma mistura de bronquite crônica com enfisema pulmonar. Os pacientes apresentam inflamação dos brônquios (inchaço e aumento da produção de catarro) e a destruição progressiva dos alvéolos do pulmão.

Apesar de pouco conhecida e diagnosticada, a DPOC é tão grave quanto o diabetes e o infarto, na avaliação do médico pneumologista José Roberto Jardim, um dos pesquisadores do GIANT e professor da Universidade Federal de São Paulo.

- A DPOC mata cerca de 33 mil pessoas por ano no Brasil. A doença acomete 15% da população - revela Jardim, complementando que a DPOC não tem cura, mas o diagnóstico precoce pode reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Em 90% dos casos, a causa da DPOC é o cigarro. A doença se manifesta em cerca de 30% dos fumantes depois dos 40 anos de idade, ou seja, depois que eles fumaram por 20 ou 30 anos.

Em 90% dos casos, a causa da DPOC é o cigarro. No Brasil, as pessoas começam a fumar com uma média de idade de 13 anos. Por volta dos 35 anos, o fumante tem tosse diária, mas acredita que isso é normal. Aos 45 anos, começa a sentir cansaço e falta de ar ao fazer caminhadas curtas ou subir escadas. Também imagina que não há nada de errado com isso. Trata-se apenas de um efeito da vida sedentária, de uns quilinhos extras e do cigarro. Pois, de acordo com o pneumologista José Roberto Jardim, estes podem ser sintomas iniciais de DPOC.

- A doença se manifesta em cerca de 30% dos fumantes depois dos 40 anos de idade, ou seja, depois que eles fumaram por 20 ou 30 anos. Mesmo que o paciente seja um ex-fumante, a DPOC pode se manifestar, pois os pulmões já foram expostos às substâncias tóxicas contidas na fumaça do cigarro - explica Jardim, complementando que apenas 12% dos casos de DPOC no Brasil são diagnosticados e, portanto, tratados adequadamente.

Os sintomas da DOPC são tosse, catarro, falta de ar, principalmente durante o sono e atividade física. Os sintomas aparecem de forma lenta e progressiva e é normal que eles só chamem a atenção quando o quadro piora.

Mesmo que o paciente seja um ex-fumante, a DPOC pode se manifestar, pois os pulmões já foram expostos às substâncias tóxicas contidas na fumaça do cigarro

No mundo, enquanto a taxa de mortalidade de todas as doenças cai desde 1965, a mortalidade causada pela DPOC aumentou 163%. Como base de comparação, a taxa de morte por doenças coronárias registrou uma queda no mesmo período de 59%.

Um dos maiores especialistas mundiais em doenças pulmonares, o pneumologista Sanjay Sethi, diz que a DPOC é a 'Cinderela' das doenças pulmonares.

- Ela está lá, mas oculta seus sintomas. Só nos últimos dez anos as atenções se voltaram à DPOC como um problema de saúde pública. É uma doença muito relacionada ao tabagismo. Talvez com a doença no centro da discussão, mais pessoas parem de fumar. Mas 24% dos adultos fumam nos Estados Unidos. Na China e no Sudeste Asiático, 50% dos adultos são fumantes. Sabemos que a DPOC é a sexta causa de morte no mundo hoje. Em 2020, será a terceira - disse o especialista, mostrando porque estamos longe de erradicar a DPOC do mapa mundial.

Estudo avalia tratamento por antibióticos

Apesar de não haver cura, Sanjay Sethi realiza um estudo para tratar a DPOC por meio de antibióticos. A tentativa do médico é evitar crises que, agravam o quadro já delicado dos pacientes. Na fase estável da doença, ele administra periodicamente doses profiláticas de antibióticos para evitar infecções por bactérias ou vírus. O resultado de seu estudo só será  divulgado no próximo mês. Também estão sendo feitas pesquisas com ácido retinóico, que regenera tecidos, mas por enquanto, nenhuma foi bem sucedida.

Os poluentes no ar que respiramos em grandes cidades não são capazes de causar DPOC, mas agravam a situação de portadores da doença.

- Poluentes não causam a doença, mas pioram o quadro dos pacientes e aumentam as hospitalizações e os quadros infecciosos. As partículas que estão no ar poluído causam infecções - explicou Sanjay.

Cigarros de maconha, charutos e cachimbos são potenciais causadores de DPOC.

- Cada cigarro de maconha equivale a seis cigarros de tabaco - explica Sanjay.

Apesar dos usuários de maconha fumarem menos, eles expõem seus pulmões a uma quantidade maior de substâncias tóxicas. Quanto aos charutos e cachimbos, é enganosa a idéia de que, por não tragar a fumaça, ela faz menos mal.

- A nicotina é absorvida pela mucosa da boca e chega aos pulmões da mesma maneira - explica Jardim.

A boa notícia é que no Brasil o número de fumantes tem diminuído. Em 1989, 32,6% dos adultos fumavam. Em 2002, este percentual caiu para 24%. No entanto, sabe-se que, neste universo de fumantes, metade irá desenvolver pelo uma das 54 doenças relacionadas ao tabagismo, entre elas a DPOC, que, segundo Jardim, pode ser, em muitos casos, de mais difícil tratamento que um câncer.

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