Fernando Meirelles responde às acusações de MV Bill sobre 'Cidade de Deus'

Atualizada em 27/03/2022 às 15h24

O diretor do filme 'Cidade de Deus', Fernando Meirelles, que está em Los Angeles, se declarou surpreso com os ataques feitos pelo cantor de rap MV Bill contra a produção do longa . "Estou certo que há algum mal-entendido no caminho. Bill foi apoiado pela VideoFilmes para realizar seus clipes, que não se diferem muito das intenções do filme, a Katia Lund já trabalhou com ele e está trabalhando com sua irmã [Nega Gizza] e, como o Bill participou conosco de um episódio da série 'Cidade dos Homens' sem nunca ter feito estas observações a respeito do longa -metragem 'Cidade de Deus', sempre acreditei que não houvesse qualquer problema. Por isso a surpresa", afirmou o diretor num texto divulgado pela distribuidora Lumiére.

MV Bill afirmou que o filme não trouxe benefícios para a comunidade local e que houve uma exploração da imagem das crianças, tudo isso aumentando e estigma contra a Cidade de Deus. Meirelles responde:

"O Bill tem razão ao dizer que o filme não ajudou a comunidade. Fora as pessoas envolvidas na produção, o filme de fato não mudou a vida do lugar, esta seria uma tarefa para a qual não estaríamos preparados. Por outro lado, se não transformou a comunidade, ao menos está tentando transformar a vida dos garotos que participaram do projeto. Até hoje continuamos trabalhando juntos no grupo Nós do Cinema e muitos deles estão encontrando oportunidades a partir desta experiência. Mantemos também no Rio um escritório que aos poucos vai ajudando alguns garotos a encontrarem seu caminho. Não poderemos nunca alterar a vida de milhares de pessoas, mas ao menos de uma ou duas dezenas será possível, se eles quiserem. Estes poderão virar exemplo para outros."

Meirlelles diz que entende que o filme não reforçou a imagem de violência da Cidade de Deus: "A população do Rio sabe que CDD é um lugar violento não por causa da história que aconteceu nos anos 70 mostrada no longa, mas sim pelas 68 mortes violentas ocorridas no ano passado e noticiadas pela imprensa. Portanto não é um filme que deve ser combatido, mas sim esta violência cotidiana e o Bill tem uma capacidade de liderança que pode e deve ser usada para reverter este quadro. Ele está se mobilizando agora e só isto já é positivo."

Meirelles acredita que seu longa deu uma contribuição para a melhor compreensão dos problemas da Cidade de Deus e teve um efeito positivo sobre a imagem do local:

"Acredito também que o projeto possa trazer alguns benefícios a longo prazo que devem ser pesados: Nosso presidente me disse que o filme havia mudado sua maneira de ver a questão da segurança pública. CDD não muda nada diretamente mas sinto que ajudou a levantar a questão da exclusão social no País mais uma vez. Informou a sociedade mostrando um ponto de vista que ainda faltava. Junto com 'Cidade dos Homens', jogou alguma luz sobre o problema da favela. Se hoje o Bill consegue mobilizar o prefeito do Rio ou o Hermano Vianna do Ministério da Cultura, isso se deve um pouco ao filme também. Apoio integralmente a mobilização que ele está fazendo, mesmo estando a produção do longa no incômodo papel de vidraça. As motivações do Bill são legítimas, ele é de fato uma liderança em sua comunidade e deve usar isso em prol da própria comunidade. Do nosso lado estaremos sempre abertos para qualquer conversa ou ação que possa trazer algum benefício a esta ou qualquer outra comunidade. Basta nos dizer como podemos ajudar," concluiu Meirelles.

O escritor Paulo Lins, autor do romance que deu origem ao roteiro do longa, foi citado apenas de passagem por MV Bill mas mandou de Havana um comentário sucinto sobre o assunto: "O estigma da Cidade de Deus vem num crescente há 500 anos. O nosso papel é discutir, trazer para luz, para a partir daí combater com mais argumento."

A polêmica começou com um texto de MV Bill publicado no site do Viva Favela afirmando que ele não iria mais se omitir em relação ao filme 'Cidade de Deus' que, para ele, tinha trazido muitos prejuízos para a comunidade onde ele mora, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Bill anunciou que ía soltar o verbo numa entrevista coletiva marcada para o dia 6 de fevereiro. No texto, ele citou o antropólogo Hermano Vianna que está trabalhando como consultor do Ministério da Cultura e, no sábado, foi ao bairro conversar sobre projetos para a Cidade de Deus. Hermano divulgou um texto na quarta-feira explicando que a nova administração do ministério quer desenvolver projetos com o hip hop. Por isso ele procurou o empresário Celso Athayde – que trabalha com Bill e organiza o Prêmio Hutus de rap – quando soube das acusações de MV Bill e decidiu conversar com o cantor a respeito.

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