Paisagem única

Por que os Lençóis Maranhenses parecem um deserto mas não são

Com 125 centímetros de chuva por ano, o Parque Nacional do Maranhão supera o índice pluviométrico de Londres, garantindo a formação de suas famosas lagoas temporárias entre as dunas de areia.

Imirante, com informações do g1

- Atualizada em 21/08/2026 às 15h52
A NASA chamou os Lençóis Maranhenses de “deserto feito de água” ao divulgar uma imagem do parque vista do espaço. Apesar das dunas que lembram um deserto, a região recebe um alto volume de chuvas, responsável pela formação das lagoas que transformam a paisagem.
A NASA chamou os Lençóis Maranhenses de “deserto feito de água” ao divulgar uma imagem do parque vista do espaço. Apesar das dunas que lembram um deserto, a região recebe um alto volume de chuvas, responsável pela formação das lagoas que transformam a paisagem.

MARANHÃO - Uma imagem dos Lençóis Maranhenses vista do espaço chamou a atenção pela paisagem formada por extensas dunas de areia branca e lagoas de diferentes tons de azul e verde. Ao divulgar o registro, a NASA descreveu o Parque Nacional como um “deserto feito de água”.

A fotografia foi publicada pela NASA nas redes sociais na quinta-feira (20) e rapidamente chamou a atenção pela dimensão do campo de dunas. A imagem foi captada pelo satélite Landsat 9, que orbita a Terra. Ao norte do parque, é possível observar o Oceano Atlântico, enquanto a vegetação do litoral maranhense aparece delimitando a área de dunas.

Apesar da aparência semelhante à de um deserto, os Lençóis Maranhenses não são classificados como um deserto. A principal diferença está justamente na quantidade de chuva que a região recebe ao longo do ano.

Segundo a NASA, o parque registra cerca de 125 centímetros de chuva por ano, volume superior ao observado em Seattle, nos Estados Unidos, e aproximadamente o dobro do registrado em Londres, na Inglaterra.

A quantidade de água é fundamental para a formação das lagoas que aparecem entre as dunas. Durante o período chuvoso, a água se infiltra na areia e contribui para elevar o nível do lençol freático, fazendo com que lagoas temporárias se formem na área.

Por que os Lençóis Maranhenses parecem um deserto, mas não são?

A paisagem dos Lençóis Maranhenses lembra um deserto por causa das imensas dunas de areia branca, que se estendem por quilômetros e apresentam pouca vegetação em algumas áreas. Mas há uma diferença fundamental: a região recebe um volume elevado de chuvas.

Segundo a NASA, os Lençóis Maranhenses recebem cerca de 125 centímetros de chuva por ano. A água das precipitações se acumula entre as dunas e dá origem às famosas lagoas, principalmente durante o período chuvoso.

É justamente essa combinação de areia, chuva, vento e água subterrânea que torna a paisagem tão diferente dos ambientes desérticos tradicionais. Enquanto os desertos são caracterizados pela escassez de chuvas, nos Lençóis Maranhenses a água é essencial para a formação e transformação da paisagem.

Por isso, apesar da aparência desértica, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses não é considerado um deserto. A expressão usada pela NASA, “deserto feito de água”, faz referência justamente a esse contraste entre as grandes dunas e as lagoas que surgem entre elas.

Como surgem as dunas e lagoas?

A paisagem dos Lençóis Maranhenses é resultado da combinação entre areia, vento e chuva.

Os rios da região transportam grandes quantidades de areia de quartzo até a faixa litorânea. Ao longo de milhares de anos, esse material foi sendo acumulado e movimentado pela ação dos ventos, formando o extenso campo de dunas.

O oceanógrafo Denilson Bezerra, professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e doutor em Ciência do Sistema Terrestre pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), explicou ao g1 que a formação das dunas depende da interação entre os ventos, a precipitação e o lençol freático.

“As dunas se formam basicamente pela combinação da dinâmica de ventos do local, precipitação (chuva) e também o lençol freático. A chuva bate na areia, infiltra e enche o lençol freático. Então, essas três condições, precipitação, lençol freático e dinâmica de ventos, condicionam a formação de dunas de uma forma constante lá, bem dinâmica, no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses”, explicou o pesquisador.

Durante o período chuvoso, a água se infiltra na areia e eleva o nível do lençol freático, contribuindo para o surgimento das lagoas entre as dunas.

Já durante a estação seca, muitas dessas lagoas diminuem de tamanho ou desaparecem, enquanto os ventos passam a atuar com maior intensidade sobre a areia.

Mais de 90% das chuvas na região ocorrem entre janeiro e julho, segundo pesquisa divulgada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Uma paisagem que chama atenção do espaço

Uma imagem dos Lençóis Maranhenses vista do espaço foi compartilhada pela NASA nesta quinta-feira (20). O registro mostra a extensão do parque nacional, no Maranhão, e destaca o contraste entre as dunas de areia branca, a vegetação e as lagoas de água doce que se formam na região.
Uma imagem dos Lençóis Maranhenses vista do espaço foi compartilhada pela NASA nesta quinta-feira (20). O registro mostra a extensão do parque nacional, no Maranhão, e destaca o contraste entre as dunas de areia branca, a vegetação e as lagoas de água doce que se formam na região.

Na imagem divulgada pela NASA, o contraste entre as dunas de quartzo branco e as lagoas de água doce cria um mosaico de tons azuis e verdes.

O Oceano Atlântico aparece ao norte do parque, enquanto a vegetação litorânea delimita o campo de dunas.

Algumas dunas dos Lençóis Maranhenses chegam a aproximadamente 30 metros de altura, contribuindo para a dimensão da paisagem que pode ser observada em imagens de satélite.

A NASA explicou que a formação da região está relacionada a uma combinação de fatores geológicos e climáticos. Os rios transportam grandes quantidades de areia de quartzo para uma faixa bastante plana do litoral maranhense. Ao longo de centenas de milhares de anos, esse material se acumulou e foi sendo remodelado, entre outros fatores, pelas variações do nível do mar e pela ação dos ventos.

Maior campo de dunas da América do Sul

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses possui aproximadamente 1.500 quilômetros quadrados e reúne dunas, lagoas, rios, manguezais e áreas de vegetação.

Considerado o maior campo de dunas da América do Sul, o parque está localizado em uma região de transição entre os biomas Cerrado, Caatinga e Amazônia.

A paisagem formada pela combinação de areia branca e lagoas também transformou os Lençóis Maranhenses em um dos principais destinos turísticos do Brasil.

Patrimônio Natural da Humanidade

A importância ambiental e a singularidade da paisagem fizeram com que os Lençóis Maranhenses recebessem reconhecimento internacional.

Em 2024, o Parque Nacional foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

O reconhecimento considera as características naturais da região, marcada pela combinação entre dunas, lagoas, rios, manguezais e diferentes formações de vegetação.

A imagem divulgada pela NASA reforça, de outra perspectiva, uma característica que faz dos Lençóis Maranhenses uma paisagem única: um imenso campo de dunas onde a água é tão importante quanto a areia para transformar o cenário ao longo do ano.

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