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LITERATURA

Ana Maria Gonçalves diz que literatura negra ajuda a explicar permanência do racismo no Brasil

Primeira mulher negra da Academia Brasileira de Letras defende que obras de autores negros disputam a narrativa da história do país e impulsionam mudanças no mercado editorial.

Na Mira, com informações da Agência Brasil.

Ana Maria Gonçalves diz que literatura negra ajuda a explicar permanência do racismo no Brasil.
Ana Maria Gonçalves diz que literatura negra ajuda a explicar permanência do racismo no Brasil. (Foto: ABL/ Divulgação/ Dani Paiva)

BRASIL – A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do premiado romance Um Defeito de Cor e primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), afirmou que a literatura produzida por autores negros tem papel fundamental para compreender a permanência histórica do racismo no Brasil e disputar o próprio sentido da narrativa nacional.

Em entrevista à Agência Brasil, durante participação na 6ª edição do encontro Julho das Pretas que Escrevem, em Brasília, a escritora defendeu que obras como a sua ajudam a explicar desigualdades históricas e reforçam debates importantes, como o das políticas de cotas raciais.

"Livros como o meu, como o de vários outros escritores e escritoras negros, ajudam a contar uma história para que o povo brasileiro entenda o porquê da necessidade de cotas. A gente sabe desde sempre o porquê precisava, mas durante muito tempo o racismo foi escondido e tratado como um assunto tabu dentro da sociedade brasileira", afirmou.

Uma história contada por outro olhar

Publicado em 2006, Um Defeito de Cor acompanha a trajetória de Kehinde, uma menina sequestrada ainda criança no antigo Reino do Daomé, atual Benim, e trazida escravizada para o Brasil. Considerado um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea, o livro inspirou o samba-enredo da Portela no Carnaval de 2024.

Para Ana Maria Gonçalves, a obra não apresenta uma versão alternativa da história do Brasil, mas busca ocupar o mesmo espaço reservado às narrativas tradicionais.

"Um Defeito de Cor é a história do Brasil contada pelos olhos e pela vivência de uma mulher negra. Ele não é uma outra versão ou uma contra-história. Eu quero disputar esse lugar que sempre foi ocupado pela história oficial", disse à Agência Brasil.

A escritora também afirmou que os reflexos da escravidão permanecem presentes na sociedade brasileira. Ao comentar a violência enfrentada pela população negra, ela citou a música Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro, do grupo O Rappa.

"A gente continua sendo os corpos que estão sendo perseguidos, presos e mortos. Pessoas que muitas vezes são tratadas apenas como números, e não como histórias", declarou.

Primeira mulher negra na ABL

Eleita para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves destacou que sua chegada à instituição representa uma conquista coletiva e lembrou que outras escritoras abriram caminho para esse momento.

Segundo ela, a mobilização em torno da candidatura da escritora Conceição Evaristo, em 2018, ajudou a ampliar o debate sobre a representatividade dentro da ABL.

"A minha eleição tem muito a ver com a candidatura da Conceição Evaristo. Foi naquele momento que a sociedade passou a questionar a ausência de mulheres negras na Academia Brasileira de Letras", afirmou.

Mudanças no mercado editorial

Durante o Festival Latinidades, a autora também falou sobre o crescimento da presença de escritores negros no mercado editorial nas últimas décadas. Para ela, a maior visibilidade dessas obras contribuiu para romper estereótipos que, durante muito tempo, classificaram essa produção como literatura de menor relevância.

"A gente está mudando o mercado editorial ao mostrar que a diversidade também é importante para quem busca retorno comercial", disse.

Apesar dos avanços, ela ressaltou que ainda há desafios para ampliar o espaço destinado a autores negros, lembrando que, entre a publicação de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, em 1859, e o lançamento de Um Defeito de Cor, apenas oito mulheres negras haviam publicado romances no Brasil.

A jornalista Waleska Barbosa, idealizadora do coletivo que promove escritoras negras no Distrito Federal e mediadora da conversa com Ana Maria Gonçalves, também chamou atenção para os obstáculos que ainda persistem.

Segundo ela, publicar um livro é apenas uma etapa do processo. "Também existem desafios relacionados à circulação das obras, distribuição, crítica literária e premiações. Quando analisamos esses números, percebemos que os avanços ainda são menores do que parecem", afirmou durante o evento.

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