EUA vão trabalhar alinhados com o Brasil, seja quem for o presidente, diz embaixadora

04/10/2002 às 03h30

A Área de Livre Comércio das Américas (Alca) só será bem sucedida se trouxer benefícios eqüitativos para todos os envolvidos na criação do bloco econômico.

A avaliação é da embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, que concedeu entrevista exclusiva à Agência Brasil.

"Eu confio muito nessas negociações. Acho que temos que dialogar, obviamente. Todos os lados vão defender os interesses deles.

Aqui neste Hemisfério vamos ter 34 países defendendo seus interesses, mas o bloco só vai funcionar se for um acordo que faça com que os 34 países fiquem satisfeitos.

Se não for assim, o projeto vai fracassar. É um bom negócio quando todo mundo sai dizendo: eu ganhei algo", disse a embaixadora.

De acordo com a embaixadora, as notícias dando conta de que apenas os países ricos irão ganhar com a Alca, como EUA e o Canadá, não procedem: "Cada país, neste caso, tem de ter algum benefício. Ninguém vai negociar só pra que os outros ganhem".

No dia 1º de novembro, em Quito (Equador), os ministros da Fazenda e das Relações Exteriores dos 34 países vão se reunir para começar a traçar o plano de trabalho para alavancar a Alca, que está prevista para começar a funcionar a partir de 2005.

As negociações serão conduzidas pelos Estados Unidos e pelo Brasil, que assumirão, respectivamente, a presidência e a co-presidência do Comitê de Negociação do bloco.

Para a embaixadora norte-americana, os dois países têm "uma responsabilidade enorme" na condução das negociações.

"É um compromisso com esses países que vai trazer benefícios para o Hemisfério inteiro", afirmou.

Mas ela também cobra uma participação dos demais países envolvidos. "Não é uma responsabilidade só dos Estados Unidos, só do Brasil.

Se tivermos sucesso, vai ser um sucesso mútuo, se fracassarmos, será um fracasso mútuo".

Ela salientou que, até agora, nenhum país tem um plano definido em relação aos seus interesses e sobre a forma para viabilizá-los.

A Alca foi criada em 1994, durante a I Cúpula das Américas, realizada em Miami (EUA), com o objetivo de eliminar as barreiras alfandegárias entre todos os 34 países americanos, exceto Cuba.

A Alca será o maior bloco econômico do mundo, envolvendo um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 10,8 trilhões e uma população de quase 850 milhões de pessoas.

Na entrevista exclusiva à Agência Brasil, a embaixadora Donna Hrinak também falou das barreiras comerciais impostas pelos países ricos, como Estados Unidos e membros da União Européia (UE).

Ela rebateu as críticas direcionadas ao seu país. "Os Estados Unidos são, na realidade, um dos mercados mais abertos do mundo.

Importamos um trilhão de dólares a cada ano. Somos um grande mercado para o mundo. Obviamente nós também reclamamos do protecionismo da União Européia, do Japão, principalmente na área da agricultura, uma área onde o Brasil e os Estados Unidos compartilham do mesmo ponto de vista", disse a embaixadora, acrescentando que todo país exerce um certo grau de protecionismo.

Quando à questão das salvaguardas ao aço impostas pelo governo norte-americano, ela esclareceu que já foram feitas algumas exceções. "Fizemos algumas exceções para o Brasil na questão do aço. É um bom exemplo de como podemos formar alianças, cruzando fronteiras, porque o Brasil fez um lobby excelente para conseguir as exceções", disse.

De acordo com a embaixadora, o que pesou para que os EUA revisassem sua posição em relação à exportação do aço brasileiro foi, sobretudo, a reclamação da própria indústria americana, "que depende do aço brasileiro".

Para Donna, foi muito difícil para o representante do Comércio dos EUA, Robert Zoellick, decidir restringir e sobretaxar o aço. "Eu sei que foi muito difícil para o representante Comercial dos Estados Unidos, o Bob, tomar essa decisão sobre o aço, porque, sobretudo, ele é um 'free trader' (defensor de um mercado livre).

Mas a indústria dos Estados Unidos está sofrendo, tem excesso de fornecedores no mundo e isto é parte de uma negociação mundial para ter equilíbrio", concluiu a embaixadora.

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