Moradores de Caxias sentem saudades da política feita com paixão

Agência Brasil 08/09/2006 às 13h52

Duque de Caxias (RJ) - A procissão eleitoral passa ao longe, nas ruas da Vila Tenório. "Olha lá. Em pleno feriado de 7 de setembro. Você acha que alguém está contente de estar ali? Duvido que tenha alguém que não esteja sendo pago. A política da paixão acabou, hoje é só a política da compra."

Enquanto visitamos as ruínas da antiga mansão de Tenório Cavalcanti, Fábio Tenório Cavalcanti Francesconi, 44 anos, neto dele, conta qual foi a política que ele conheceu na infância, morando com o avô: "Comício, não tinha essa de anunciar. Decidia que ia para tal cidade, ia alguém na frente, arrumava um caminhão para a gente subir. O velho começava a falar e dali a pouco juntava 5 mil, 10 mil pessoas ouvindo. As pessoas vinham porque tinham interesse".

O neto lembra das caminhadas com o avô na avenida Rio Branco. "Ele parava a avenida. Subia num caixote e juntava 5 mil pessoas. Vai juntar hoje sem pagar, sem dar lanche e transporte? Eu desafio qualquer político a fazer isso."

A paixão com que os militantes defendiam seus candidatos e partidos é comparada, por ele, à atitude das torcidas de futebol. "Se dois grupos adversários se encontravam na rua, o pau comia", conta. "O político fazia, se preocupava em fazer e atender a população. Hoje você compra o cabo eleitoral, o líder comunitário, como se compra o pão na padaria."

A explicação para a mudança, diz Fábio, reside tanto na atitude dos políticos de hoje como na percepção que o povo construiu disso: "O pessoal age na matemática. Pega uma maleta de dinheiro, senta e mapeia: tanto para o líder de tal local, que tem tantos votos, tanto para aquele outro. E o povo foi ficando malandro: se o político só aparece mesmo de quatro em quatro anos, quando ele vier aqui, vou depenar – peço telha, casa, dinheiro, tudo. Assim, acabou a empolgação".

Fábio, que hoje é advogado, recebeu, publicamente, do avô, a herança política, quando se candidatou a deputado em 1982 e 1986. "Era assistencialismo? Era. Era coronelismo? Era. Mas, era tão mais bonito...", diz ele. "Na campanha, as pessoas traziam bebês para passar a capa preta na cabeça deles. Diziam que fechava o corpo da criança."

A nostalgia do neto é compartilhada por outras pessoas que conviveram com Tenório, como David Muniz de Almeida, 87 anos, conterrâneo dele. Em sua casa, em Palmeira dos Ìndios, David guarda uma quantidade de documentos sobre Tenório: fotos, livros, recortes de jornal. "Ah, ele era um Pelé, um Garrincha. Homens como ele nascem de 100 em 100 anos."

O ex-caminhoneiro também conviveu, na infância, com Graciliano Ramos, prefeito de Palmeira dos Índios entre 1928 e 1930. E ainda conheceu pessoalmente Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Para ele, não se fazem mais políticos como antigamente. "Ninguém nunca falou do roubo de um Tenório, de um Graciliano Ramos. Agora, é esse bando de ladrões que tem por aí."

"Hoje, a gente dizer, fulano é honesto, ele até se ofende, porque está chamando ele de besta, de idiota. Rui Barbosa é que chegou a dizer que havia de chegar a época em que o cara ia se enojar de ser chamado de honesto", diz seu David.

Arlindo Paixão da Costa, 72 anos, morou, por décadas, ao lado da casa de Tenório, no centro de Duque de Caxias. "Político de hoje é difícil a gente crer. Tem que ver para crer, como diria o Tomé", afirma o aposentado. Para ele, a qualidade dos políticos anda tão ruim que o direito ao voto facultativo que lhe concede a condição de idoso é uma conquista: "Graças a Deus, vou votar porque quero".

Apesar de lamentar a baixa qualidade dos políticos atuais, Arlindo destaca alguns avanços: "Hoje o pessoal vai mais para o palanque. Certas coisas que o pessoal fala hoje num debate, se fosse antigamente, ia pra guerra". As falas agressivas de mulheres que são candidatas, por exemplo, espantam Arlindo. "Naquela época, não tinha mulher nesse negócio. Uma coisa assim ia chamar a atenção, pra dizer menos."

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