Roda Viva | Opinião

Paulo Abreu Filho

Benedito Buzar27/03/2021

A morte de Paulo Abreu Filho, ou Paulica, como eu o chamava, sem dúvida alguma, além da profunda tristeza, levou consigo um pouco de mim. Benedito Buzar

O escritor Josué Montello deixou registrado em seu livro de memórias “Diário do Entardecer”, esta insofismável verdade sobre os amigos perdidos ao longo do tempo: “Fiz uma lista de amigos mortos. De amigos que só voltarei a encontrar dentro de mim trazidos pela memória. Valha-me Deus como são muitos. Ainda bem que os levo comigo por onde quer que eu vá, e os ressuscito na luz de minhas recordações. É isso mesmo a saudade: o dom privativo de reviver os amigos mortos”.

Nesta fase da vida, em que a humanidade vem sendo atacada de maneira brutal pelo maldito Covid-19, vejo como tenho perdido parentes e amigos, aqui e alhures, alguns colegas de infância e de juventude e com os quais firmei laços fraternos de relacionamento que jamais desapareceram ou diminuíram com o passar dos anos.

Às vezes, por motivos e razões ditadas pela vida, a gente não se via como outrora, quando éramos felizes e não sabíamos, mas, ao nos encontrarmos dedicávamos horas a recordar daqueles momentos, que já se pulverizavam, mas ficaram indelevelmente marcados pelas boas lembranças e inesquecíveis recordações.
Um escritor, que não lembro o nome, do alto de sua sabedoria, deixou para a posteridade o seguinte pensamento: “Morremos um pouco cada vez que perdemos um ente querido.”

Essa insofismável verdade me remete a um amigo, falecido recentemente, vitimado pelo maligno vírus que ora domina o universo, que partiu para a eternidade levando um pouco da saudável convivência que mantivemos na adolescência, quando estudamos e fomos colegas no Colégio dos Irmãos Maristas, nos anos 1950.
Chamava-se Paulo Abreu Filho, à época, um dos melhores alunos da turma e com o qual construí uma amizade que nunca sofreu abalos, ao contrário, se consolidou de forma inexorável e fraterna.
Paulo, filho de um dos homens mais ricos da cidade, dono de uma poderosa rede de lojas de tecidos, chamada Rianil, com matriz em São Luís e filiais nas principais cidades do interior do Estado. A loja, localizada no começo da Rua Oswaldo Cruz, pela quantidade e qualidade de tecidos, era a mais procurada pelo consumidor, mas nem por isso o filho do empresário Paulo Abreu, mostrava-se arrogante e pedante. Ao contrário, procurava ser igual, simples e despojado de grandeza, razão porque teve sempre bons amigos.
Depois que estudamos nos Maristas, tomamos rumos diferentes. Ele continuou em São Luís, onde optou pelo curso de Direito e graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, após o que montou com outros colegas um escritório de advocacia, ao qual se dedicou de corpo e alma, tornando-se um profissional correto, estudioso e respeitado na cidade.

Depois de formados, voltamos a nos reencontrar amiúde, quando juntos trabalhamos e prestamos serviços a alguns organismos da administração pública estadual, a exemplo do Banco de Desenvolvimento do Maranhão, Secretaria de Indústria e Comércio e Empresa Maranhense de Turismo.

As mudanças de governos e as aposentadorias nos conduziram aos desencontros, mas quando, aqui e acolá, nos revíamos, matávamos as saudades da época e dos atos e fatos que ficaram para trás, mas nunca os esquecemos.

A morte de Paulo Abreu Filho, ou Paulica, como eu o chamava, sem dúvida alguma, além da profunda tristeza, levou consigo um pouco de mim.

Cem anos de Ivar Saldanha
Dos doze filhos de Raimundo João e Maria Antonieta Saldanha, o segundo, na ordem cronológica, Ivar, nascido em Rosário a 8 de março de 1921, herdou do pai, um farmacêutico formado na Bahia, a vocação para a política. Depois da morte do genitor, que ocupava a presidência da Caixa Econômica Federal no Maranhão, indicado por Vitorino Freire, que começava a montar o seu reinado político no Estado.
Ivar, com 26 anos, assume o controle da família, inclusive a educação dos irmãos - alguns manda estudar em São Paulo, ingressa na vida política, candidatando-se nas eleições de outubro de 1950 a deputado à Assembleia Legislativa, pelo Partido Social Trabalhista, criado por Vitorino.

Eleito, teve participação ativa no movimento contra a eleição de Eugênio Barros, que as Oposições acusavam de fraude eleitoral, trazendo de Rosário, no dia da posse do governador, um ônibus com amigos e correligionários, que foi metralhado pelos policiais quando tentava entrar na Avenida Pedro II. Ivar, atingido por um balaço no braço, precisava se licenciar, ato que só conseguiu ao entrar de maca no Plenário da Assembleia, pois a bancada oposicionista não queria dar número para o seu tratamento no Rio de Janeiro.

Nas eleições de 1954, reelege-se deputado estadual e antes de terminar o mandato é nomeado prefeito de São Luís, em julho de 1957, pelo o governador Matos Carvalho, que, em seguida, o nomeia secretário da Fazenda estadual, cargo que renuncia para concorrer, pela terceira vez, à Assembleia Legislativa. Eleito, é nomeado pela segunda vez prefeito da capital maranhense, no exercício do qual executa um plano de melhoria urbanística de São Luís, que garante a ele popularidade junto ao eleitorado oposicionista, fato que leva o novo governador, Newton Bello, a mantê-lo no cargo de gestor da cidade, para continuar o trabalho nas áreas de saúde e educação, que lhe valeu ser incluído na chapa de candidatos do PSD à Câmara federal.

Eleito em 1962, com votação estrondosa em São Luís, ombreando-se à de Neiva Moreira, o grande líder popular da cidade. Após assumir o mandato em Brasília, rompe com o governador Newton Bello, mudando-se, com outros parlamentares do PSD, para o PTB em apoio ao presidente João Goulart.

Com a deposição de Jango pelos militares, o projeto do PTB vira pó e Ivar junta-se ao deputado José Sarney, postulante ao governo do Estado, que o lança candidato à prefeitura da capital, que conquistara autonomia política-administrativa. Desta feita, enfrentaria nas urnas o candidato Epitácio Cafeteira, que o derrota nas eleições de 3 de outubro de 1965.

Depois de cumprir dois mandatos na Câmara federal, no pleito de novembro de 1970, se elege, mais uma vez, à Assembleia Legislativa, tornando-se dela presidente no biênio 1971-1973, envergando a camisa da Arena, pela qual se reelege deputado estadual em 1974.

Em 1976, quando cumpria o seu quinto mandato parlamentar, recebe convite do governador Nunes Freire para assumir, pela terceira vez, o cargo de prefeito de São Luís, que perdera novamente a autonomia política-administrativa, por exigência do regime militar. Só deixa a prefeitura nas proximidades das eleições de 1978, para ser candidato pela sexta vez à Assembleia Legislativa. Eleito, agora pelo PDS, é guindado à vice-presidência do Poder Legislativo.

Em maio de 1982, o governador João Castelo exige a renúncia do presidente da Assembleia, Albérico Ferreira, seu sucessor hierárquico, haja vista o falecimento do vice-governador Artur Carvalho, fato gerador de uma crise política, porque Albérico decide não renunciar ao cargo, para não permitir a Ivar, o vice-presidente, comandar a Casa Legislativa do Estado e, como tal, assumir o Poder Executivo, face à renúncia de Castelo, candidato ao Senado.

A crise se arrasta por vários dias até Albérico renunciar ao cargo, pela interferência de José Sarney, que usa todo o seu prestígio político, para não prejudicar a eleição de Luiz Rocha, candidato à sucessão de Castelo.
Ivar, então na condição de presidente da Assembleia, assume o cargo de governador do Estado, em maio de 1982, por conta da renúncia de João Castelo, ato imediatamente contestado pelo presidente do Poder Judiciário, José Antônio de Almeida e Silva, no pressuposto de ser o substituto legal de Castelo, no que foi impedido pelo Supremo Tribunal Federal.

Em homenagem à vida política de Ivar, o governador Luíz Rocha o indica para compor o Conselho de Contas do Estado, cargo no qual se aposenta, mas com disposição para enfrentar novamente as urnas, nas eleições de 1986, elegendo-se pela sétima vez, deputado estadual, no mandato em que pela segunda vez é escolhido para presidir o Poder Legislativo do Maranhão, no biênio 1989-1991.
Era casado com Amélia Aquino Saldanha, com quem teve dois filhos: Maria do Carmo e Raimundo João. Seu falecimento ocorreu a 2 de fevereiro de 1999, em um acidente rodoviário, nas proximidades do povoado Estiva, quando viajava para Rosário.

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