Cidades | Imigração

Pelos mares: chineses e japoneses no Maranhão

Acompanhe relatos de pessoas que deixaram seus países para se estabelecer no Brasil; estragos da Segunda Guerra, marcam algumas histórias, outros realizaram sonhos
Kethlen Mata/ O Estado 29/08/2020 às 00h02

São Luís – Quando escutam a pergunta “o que vem na sua cabeça quando ouve falar de chineses, ou japoneses?”, muitas pessoas costumam responder Rua Grande, ou ainda Rua de Santana - ambas se referem ao comércio, e aos muitos asiáticos que realmente trabalham nessa parte da cidade. No entanto, esses povos estão em São Luís há muito tempo, antes desta imigração – relativamente recente – para o comércio local.

Para começar a contar a história de algumas dessas famílias que vieram para a Ilha há mais tempo do que se imagina, é preciso antes, entender o porquê de elas terem saído de tão longe para firmar raízes no Maranhão. Para isso, O Estado contou com a ajuda do pesquisador Ramssés de Souza Silva, que explica que o primeiro grande fluxo imigratório no estado aconteceu ainda no primeiro reinado, no governo de Pombal.

“O Europeu, o africano veio para o Maranhão, se entrelaçou com o indígena, e nós estamos aqui. Nós somos o produto de um fluxo migratório, então, a primeira grande política migratória foi no governo de Pombal, em Portugal, ele estimulou muito a vinda de estrangeiros para cá, naquele ciclo do algodão – em que o Maranhão despontou. Estava acontecendo a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, e eles entraram em crise, a produção algodoeira deles, e o Maranhão ganhou o protagonismo. Então vieram muitos estrangeiros, veio gente da Irlanda, dos Estados Unidos, França, e adentraram aí nesses vales do Rio Itapecuru, Rio Mearim, e por aí vai”, descreve Ramssés.

Mas, a presença dos asiáticos, pelo menos, de forma mais intensa e que se tenha registros, data do segundo reinado, na virada para a república. “Dom Pedro II estimulou a vinda de sírios, libaneses, e os asiáticos, para trabalhar com comércio, e melhorar essas vilas que estavam surgindo, então, pode-se dizer, que já no período imperial, o primeiro grande fluxo migratório foi esse, no segundo reinado. Ali, já chegou asiático aqui, só que já em um período tardio, no final do século XIX”, discorre o pesquisador, pela história.

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A família Nishiwaki
Um retrato dessa história, é a família de Takao Nishiwaki, ele saiu aos 8 anos, acompanhado de seus irmãos. Sua irmã mais velha tinha 11 anos, outra com 5, e o caçula com 3, saíram da ilha de Shikoku, cidade de Kochi-ken Japão, e chegaram no Brasil no dia 4 de janeiro de 1961. “No ano da chegada, no mês de julho, nasceu uma irmã e, dois anos depois, nasceu mais uma irmã. Hoje somos seis irmãos. A mais velha e um irmão moram no Japão”, remonta a família, Nishiwaki, em sua memória, hoje com 67 anos.

Ele relata que veio para o Brasil porque a vida no seu país natal naquela época estava muito difícil. “Era muito precária, ainda não tinha retomado a consequência da segunda guerra mundial. E justamente nessa época surgiu a proposta do governo do Maranhão para trabalhar em avicultura”, completa. De fato, era dessa maneira que acontecia a vinda de muitas famílias japonesas para o Maranhão. Ramssés de Souza Silva completa a explicação de Nishiwaki: “As pessoas não vêm à toa, eles ficam lá e ficam sabendo de alguma propaganda governamental para trazê-los. Mas nem sempre essas promessas eram cumpridas. E aí a dificuldade tremenda, lugar estranho, costumes estranhos, a descrença dos vizinhos, e a desconfiança, porque eles foram jogados no meio de um monte de sitiantes, ou seja, pessoas muito simples”, frisa.

A proposta que fizeram para a família Nishiwaki era irrecusável, uma doação de 10 hectares de terra, uma casa pronta para morar, uma granja montada com mil pintos para iniciar, e um ano de ração para aves. “Mas, não foi cumprida toda essa proposta. Com isso foi mais uma temporada de sacrifício e sofrimento”, afirma, Nishiwaki. Quando perguntado sobre voltar para o Japão, ele responde que para morar não, aqui está sua família, agora o Japão é somente para passeio.

Ele não chegou cursar o segundo grau completo, mas fez muitos cursos técnicos durante a vida, que lhe garantiram o sustento, o último ele fez no Japão, massagista. Takao Nishiwaki hoje tem um casal de filhos formados.

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Os Murakami
Keiko Murakami Winkler também chegou cedo ao Brasil, com 9 anos, ela atravessou os mares pela costa da África, uma viagem de 45 dias. Primeiramente, chegou em São Paulo, mais precisamente no Porto de Santos. “Fomos para interior de São Paulo. Minha mãe foi professora de língua japonesa por mais de 50 anos, na comunidade nipônica na cidade de Capão Bonito”.

Seu pai trabalhou como avicultor, assim como muitos imigrantes japoneses que se deslocaram para o Brasil na época. Com seus 18 anos, ela seguiu para estudar e trabalhar em São Paulo. “Sempre fui beneficiada pelo fato de ser japonesa, graças aos imigrantes que vieram para o Brasil antes de mim. Eles deixaram a herança de trabalho honesto e esforçado”, destaca Keiko, a O Estado.

Na capital, ela conheceu outro imigrante, desta vez, um alemão que também veio para o país depois dos estragos da Segunda Grande Guerra. Teve dois filhos, ainda em São Paulo, mas a caçula já nasceu em terras maranhenses. “Chegamos em São Luís em 1982. Junto com a Alumar. A procura de oportunidades. Minha adaptação aqui foi um pouco difícil. Estranhei o clima, e alimentação.”, afirma a Murakami, hoje com 71 anos.

“O Japão, depois da segunda guerra, foi muito difícil. Meus pais tinham fábrica de extração de ferro na Manchúria – uma província japonesa no continente Chinês. Perdemos tudo na guerra. Meu pai sempre sonhou em procurar novas oportunidades na terra que diziam que plantando, a colheita era rica”, expõe.

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Os Yamada
A história de Kiyoshi Yamada é um pouco diferente das contadas anteriormente. Ele já havia se formado em Agronomia no Japão, e, em suas próprias palavras, veio para o Brasil realizar seu sonho de trabalhar na Transamazônica. Chegando em São Paulo, em dezembro de 1974, ele ficou alguns anos estudando o português, aprendendo os costumes, os modos de raciocinar, e em 1978, foi trabalhar em Goiás, ficando lá por 5 anos. “Em uma empresa de mineração. Eu fiz um projeto de irrigação, para 50 hectares, foi um desafio para mim, mas eu fiz e ficou conhecido entre eles”, recorda Kiyoshi.

Ele também trabalhou na construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e somente depois, quando o trabalho diminuiu em Tucuruí, veio se aventurar em São Luís. Segundo ele, a saudade dos peixes de água salgada pesaram na decisão. “Hoje, estou aqui no Maranhão, há 32 anos. Atualmente, sou administrador de empresa rural e meu último sonho é reflorestar a área que temos. Isso eu ainda não consegui. Neste ano, não estou trabalhando, e no mês passado tive um infarto. Quase que não posso sonhar mais e, daqui para frente, quero me concentrar para realizar meu sonho”, conta Yamada, com um sorriso no rosto. Quando perguntado se sente saudades do país natal, ele responde que é difícil ter esse sentimento, apenas quando se surpreende com os absurdos da sociedade.

Família Chiang

Os chineses no Maranhão
A história dos chineses no Maranhão também é antiga, segundo a história oral, eles estão aqui desde o século XIX, uma família muito famosa é a Chung. De acordo com pesquisas feitas pelo pesquisador Ramssés de Souza, identificaram registros da “Tinturaria China”, cujo o dono possuía esse sobrenome, no jornal O Imparcial de 15 de janeiro de 1939.

De acordo com ele, não houve um fenômeno migratório tão forte na época, como aconteceu com os japoneses. “Eu acredito que os chineses, vêm para o Maranhão, até antes dos japoneses, então, esses chineses que vemos na Rua de Santana, não são novidades para maranhenses. Os Chung, talvez tenham sido a primeira família asiática que veio para o estado”.

Outra família que se estabeleceu em São Luís, foi a Chiang. Kelvin Chiang contou a história da vinda de seu avós chineses para o Brasil em 1952, quando fugiam da invasão japonesa. “Meus avós chegaram no Porto de Santos em São Paulo. Eles vieram de navio e foi uma viagem que durou em torno de 60 dias”, descreve. Seus pais conheceram o Maranhão pela primeira vez em 1968.

“Meu pai veio para cá fazendo implantação de sistemas de telecomunicação e, em 1980, ele começou a trabalhar para a Vale, também com sistemas de comunicação, então, viajou praticamente o Brasil inteiro construindo torres de rádio, telefonia. Ele instalou o primeiro telefone em várias cidades do Maranhão”, completa.

SAIBA MAIS

Lacuna

Realizar pesquisas sobre a história de famílias asiáticas no Maranhão não é tarefa fácil, já que a carência de pesquisas científicas é visível, no que diz repeito ao estudo desses imigrantes no estado. De acordo com Ramssés de Souza, alguns motivos podem explicar essa carência.

“O primeiro motivo é que muitas famílias não se interessam por sua história, os jovens não se interessam em escrever sobre a genealogia da sua família. Muitos sabem apenas o básico, o trivial”, explica. Já o segundo motivo seria o fato de que essas histórias ainda são recentes.

“Muitos historiadores gostam de falar sobre o século XIX, século XVIII, XV, XVI, mas as coisas mais recentes são difíceis de ficar remoendo, pois é recente, e não querem mexer com determinada lembrança”, pontua Ramssés.

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