Vida Ciência

Outros veículos de divulgação científica no Maranhão

Iniciativas do tipo têm papel de fundamental importância na desmistificação da ciência e na aproximação da sociedade e as descobertas científicas

Antonio José Silva Oliveira, físico, doutor em Física Atômica e Molecular, pós-doutor em Jornalismo Científico. Professor da UFMA

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h30
Jovens manuseiam equipamento na Unidade de Ciência Móvel, levando ciência onde o povo está
Jovens manuseiam equipamento na Unidade de Ciência Móvel, levando ciência onde o povo está

Em 2012, o CNPq criou o Comitê de Assessoramento de Divulgação Científica, que tem por finalidade fomentar a atividade de difusão dos conhecimentos científicos e tecnológicos, assim como colocá-los ao alcance da população, para que esta possa utilizá-los nas suas atividades cotidianas e tomadas de decisão envolvendo a família, a comunidade e a sociedade como um todo.
A divulgação científica e cultural desempenha um papel de fundamental importância na desmistificação da ciência e na aproximação da sociedade e as descobertas científicas. Um exemplo que podemos citar, e faz parte da história da divulgação e propagação da ciência no Maranhão, é a Revista Maranhense, a Universidade Popular e a Escola de Ensaio, cuja história encontra-se publicada em nossa página do mês de maio deste ano.
No artigo deste mês, iremos falar sobre outro meio de comunicação significativo, os programas de rádio, em especial aqueles que se dedicavam à difusão científica. Sendo assim, em parte este artigo é fruto de leituras, reflexões, debates e pesquisas observadas pela professora do IFMA, Ana Lourdes Alves de Araújo, minha orientanda do programa de pós-graduação em Educação, que retrata o diálogo entre pesquisadores nacionais e internacionais, em relação ao debate da divulgação científica, que vêm se destacando como organizadores de produção científica.
Essas reflexões possibilitaram-nos perceber que a compreensão pública da ciência é um problema, que não diz respeito apenas à escola, instituição representante da educação formal, mas envolve também ações das mais diversas entidades, em diferentes espaços de atuação da educação não formal.
Na segunda década do século XX, um grupo de intelectuais liderados por Roquette-Pinto, Henrique Morize e outros membros da Academia Brasileira de Ciência e da sociedade da época, fundaram a primeira estação de rádio no Brasil, a Sociedade Rádio do Rio de Janeiro, instituição de caráter educativo-cultural na cidade do Rio de Janeiro. Durante seus 13 anos de existência, a emissora manteve uma programação eminentemente “cultural”, e, demonstrando que cultura também “educa”, “ensinou” poesia, literatura e ciência, “educou” ouvidos para a música de concerto e “deu as primeiras aulas” de pronúncia padrão brasileira da língua portuguesa. Pouco mais tarde, Roquette-Pinto resolveu doá-la pa­ra o Ministério de Educação e Cultura. Nascia, assim, a Radio MEC, que hoje integra a atual TV Brasil na Secretaria de Comunicação da Presidência da República.
No estado do Maranhão, em 1966, surgiu uma estação de rádio com o mesmo perfil, a Rádio Educadora. A nova rádio foi uma iniciativa de Dom José Medeiros Delgado, Monsenhor Dr. Artur Lopes Gonçalves, Cláudio Brandt, Voltaire Frazão e Osvaldo Vasconcelos, que tinham o sonho de levar a cultura popular e a educação, de forma mais rápida, às mais distantes localidades do Maranhão, principalmente à zona rural. Podemos destacar dois programas que se tornaram de grande audiência; Alimentação é Vida e A Saúde da Nossa Gente, na Rádio Educadora Rural do Maranhão, nas décadas de 1980 e 1990, realizados por meio do diálogo direto com as fontes.
Sob o veio teórico da Educação Popular de Paulo Freire e de estudiosos da educação não formal, ficou constatado que programas radiofônicos foram importantes instrumentos de educação, permitindo que, temporalmente, a ciência fizesse parte do cotidiano de comunidades rurais do Maranhão.
O programa radiofônico Alimentação é Vida, criado em 1983 e veiculado por dois anos, foi fruto da parceria formada entre a Universidade Federal do Maranhão, o professor Warwick Estevam Kerr, do Departamento de Biologia, e a professora Vera Salles, do Departamento de Comunicação, enfatizando que, em meados da década de 1980, o professor Warwick fazia experiências sobre melhoramentos genéticos de plantas encontradas em tribos indígenas.

Astronomia na Praça, realizado pelo Ilha da Ciência, tem atraído grande público em São Luís
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Muitas foram as demandas apresentadas pelo público ouvinte sobre temas como doenças e tabus referentes à alimentação e à saúde. Além disso, naquela oportunidade, uma nutricionista convidou a professora Vera Salles para pesquisar e divulgar o trabalho dos agentes de saúde, fato este que provocou a mudança de denominação do Programa para A Saúde da Nossa Gente.
O Programa A Saúde da Nossa Gente atingia um público considerável da Zona Rural, tendo em vista a quantidade de cartas enviadas pelos ouvintes que interrogavam sobre questões relacionadas à saúde e à alimentação. Por­tanto, o novo programa, além de divulgar o trabalho dos agentes de saúde, conservou um bloco so­bre a utilização de plantas alimen­tícias e medicinais.
A recepção que teve A Saúde da Nossa Gente, que se realizou por meio da pesquisa e das cartas dos ouvintes, levou a professora Vera Salles a concluir que o público de seu programa era especificamente mulheres, passando a veicular, também, o programa Vida de Mulher.
Os dois programas, A Saúde da Nossa Gente e Vida de Mulher, começaram a ser veiculados em dias diferentes: um aos sábados e outro, aos domingos. Houve momentos em que foram apresentados ao vivo, direto das comunidades ouvintes e, pela repercussão e pelo apoio que recebeu de diversas agências de fomentos e de ONGs, o programa Vida de Mulher acabou ocupando todo o espaço de que a professora e sua equipe dispunham na radiofonia local.
O programa A Saúde da Nossa Gente apresentava em seu conteúdo temas como: plantas alimentícias e medicinais, receitas de alimentação alternativas e remédios caseiros, doenças, dicas de higiene, jornal com notícias sobre saúde e educação, entrevistas com diversos profissionais da área da saúde, educação e representantes do poder público, entre outras discussões voltadas à área da saúde e educação. Além disso, era expressiva a repetição do tema discutido em diversos programas, em muitos casos, pelas dúvidas apresentadas pelos ouvintes em suas cartas.
Diante do exposto acima, é importante que se considere que o termo divulgação científica ou popularização da ciência, pode ser preenchido de sentido, pois a história nos ensina o quanto foi fundamental sua popularização para o desenvolvimento do Brasil, assim como importante instrumento de formação para a cidadania.
Nesse sentido, compreender o processo educativo sob a perspectiva dialógica, em que a ação e a reflexão constituem-se elementos essenciais da aprendizagem, é fun­damental considerar que existem outras possibilidades de promoção da educação, que também pode ser para além dos muros da escola, como no caso da Divulgação Científica, que se reflete aqui em um programa radiofônico, o qual resgata um sentido social de cidadania na medida em que realiza ações que modificam a vida de seus ouvintes interlocutores sociais.
Um exemplo atual, cujos esforços aproximam a ciência da comunidade e o cientista do povo, é o Laboratório de Divulgação Científica Ilha da Ciência, que leva a ciência e seu extenso universo de possibilidades em quatro rodas, que tornam possíveis a observação de fenômenos e a compreensão, não apenas dos aspectos mais distintos fora de nosso sistema solar, assim como aqueles que se encon­tram bem perto de nós.

Astro sendo observado a partir de São Luis, que tem sediado diversas atividades do tipo
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