COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Quando o conhecimento vira valor: o novo papel das universidades na era da inovação

O empreendedorismo inovador é, por natureza, transversal e interdisciplinar.

Roberto Serra

Há uma transformação silenciosa, porém irreversível, redefinindo as fronteiras do que compreendemos como ensino superior no Brasil. Durante décadas, consolidou-se a visão da universidade como um "templo do saber", um espaço sagrado e, por vezes, isolado, dedicado prioritariamente à formação teórica e à produção acadêmica estrita. No entanto, o século XXI impõe uma nova e decisiva dimensão a essa jornada: a de agente ativo na criação de soluções, negócios e impacto econômico concreto. Não se trata, em absoluto, de abandonar a essência humanística ou o rigor da pesquisa básica, mas de ampliá-los. A universidade contemporânea é chamada a produzir ciência e, simultaneamente, a colocá-la em movimento.

Esse movimento encontra sua expressão mais vital no empreendedorismo inovador. Diferentemente do empreendedorismo por necessidade ou puramente comercial, esta modalidade nasce da própria investigação científica. São pesquisas, experimentos e descobertas laboratoriais que, ao cruarem os portões do campus, transformam-se em produtos, processos ou serviços capazes de alterar profundamente realidades sociais e produtivas. É a ciência em seu estado mais pleno de aplicação, onde o rigor do método se encontra com a agilidade do mercado para resolver problemas que, até então, pareciam insolúveis.

O cenário global já consolidou essa lógica com clareza absoluta. Relatórios da OCDE e indicadores de inovação de 2025 reforçam que as nações mais resilientes e competitivas são aquelas em que as universidades atuam como verdadeiros hubs de desenvolvimento. O exemplo emblemático do MIT, nos Estados Unidos, cujos egressos fundaram empresas que movimentam receitas comparáveis ao PIB de grandes nações, ou a rede dos Institutos Fraunhofer na Alemanha, demonstram que a soberania de um país hoje se mede pela sua capacidade de converter massa cinzenta em inovação tecnológica. Na Ásia, Coreia do Sul e China estruturaram estratégias nacionais que integram governo e academia para liderar áreas críticas como inteligência artificial e energias limpas, sob a premissa de que o conhecimento só cumpre plenamente sua função social quando gera impacto real na vida do cidadão.

No Brasil, esse avanço é marcado por um paradoxo instigante. Figuramos consistentemente entre os 15 maiores produtores de artigos científicos do mundo, segundo dados da CAPES, evidenciando uma pujança intelectual inegável. Contudo, ainda enfrentamos dificuldades históricas na conversão dessa produção em soluções aplicadas. Dados do INPI revelam que a participação de residentes nacionais em pedidos de patentes ainda não reflete todo o nosso potencial. Produzimos conhecimento em escala, mas capturamos pouco do seu valor econômico e social. É precisamente aqui que o fomento ao empreendedorismo inovador assume um papel decisivo, funcionando como a ponte necessária entre a tese e a prateleira, entre o laboratório e a sociedade.

Um dos mitos mais deprimentes que precisamos derrubar é o de que a inovação é exclusividade das ciências exatas ou da engenharia. O empreendedorismo inovador é, por natureza, transversal e interdisciplinar. Ele floresce com o mesmo vigor na medicina e na computação quanto nas ciências sociais, na educação, na economia criativa e nas humanidades. A verdadeira inovação emerge da interseção de saberes, na conjugação de forças onde soluções para o agronegócio dialosqgam com tecnologias educacionais, e novos materiais de construção encontram suporte em modelos de gestão disruptivos. A inovação não é um setor, mas uma mentalidade que integra competências técnicas a uma visão humanística e pragmática do mundo.

Para o estudante em formação, essa mudança de paradigma representa uma libertação de horizontes. O cenário tradicional de carreiras, ancorado quase exclusivamente em concursos públicos ou na inserção em estruturas corporativas rígidas, já não é suficiente para absorver o volume de talentos que formamos anualmente. Além disso, a escassez de vagas e a frequente baixa remuneração em início de carreira tornam o empreendedorismo inovador não apenas uma alternativa, mas uma estratégia qualificada de inserção produtiva. Empreender a partir do conhecimento é assumir o protagonismo da própria trajetória, transformando anos de estudo em um projeto de vida que gera emprego, renda e transformação social.

Para o professor e o pesquisador, os ganhos são igualmente expressivos. A aproximação com o ecossistema empreendedor não diminui o valor da pesquisa acadêmica; pelo contrário, fortalece sua relevância social e abre novas avenidas de financiamento e colaboração. Quando um docente vê sua teoria aplicada em uma solução que melhora o diagnóstico de uma doença ou otimiza a logística de pequenos produtores, a função da universidade atinge sua plenitude. Não por acaso, as agências de fomento e os órgãos de avaliação vêm incorporando, de forma crescente, critérios de impacto socioeconômico em suas métricas de excelência.

Contudo, para que esse ecossistema prospere, é necessário mais do que boas ideias. Exige-se um ambiente favorável, instrumentos de financiamento ágeis, segurança jurídica — pautada pelo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação — e, acima de tudo, uma mudança cultural profunda. É preciso que a ousadia de empreender deixe de ser vista com desconfiança nos corredores acadêmicos para ser celebrada como uma das mais nobres extensões do saber. A universidade precisa ser um porto seguro para o risco calculado e um terreno fértil para o erro que ensina.

A universidade do século XXI não pode se dar ao luxo de ser um espelho do passado; ela deve ser a forja do futuro. No fim das contas, a pergunta que deve ecoar em nossas salas de aula e laboratórios é simples: qual o valor do conhecimento que permanece guardado em si mesmo? O empreendedorismo inovador oferece a resposta mais vigorosa ao converter ciência em solução, pesquisa em desenvolvimento e pessoas em protagonistas das mudanças que o país exige. Ao romper os muros da universidade, o conhecimento não se perde; ele se multiplica, ganha vida e, finalmente, cumpre sua promessa de transformar o mundo.


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