COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

“And the Oscar goes to…”

Uma descoberta científica só se transforma em inovação quando chega à sociedade.

Roberto Serra

Atualizada em 15/03/2026 às 10h52

Depois de Ainda Estou Aqui, pelo segundo ano consecutivo o Brasil tem um motivo especial para olhar para o cinema com orgulho. O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, chega ao palco do Oscar. Mas, para além do reconhecimento artístico, o filme nos oferece uma oportunidade rara: refletir sobre ciência, tecnologia e soberania em uma perspectiva profundamente brasileira.

Em uma das cenas mais marcantes, ambientada no Brasil de 1977, o personagem Marcelo — um professor universitário e pesquisador — é pressionado a transferir uma patente desenvolvida a partir de sua pesquisa. A cena é carregada de tensão. Não se trata apenas de um documento técnico ou de um detalhe jurídico. O que está em jogo ali é algo muito maior: quem controla o conhecimento produzido dentro de uma universidade.

A recusa de Marcelo transforma uma simples patente em um símbolo político. De um lado, interesses empresariais e estratégicos pressionam pela apropriação daquela tecnologia. Do outro, está o cientista que entende que o conhecimento não pode ser simplesmente capturado sem critérios ou sem retorno à sociedade que financiou sua criação.

Embora a história se passe durante o período autoritário brasileiro, o dilema apresentado pelo filme continua extremamente atual. Hoje sabemos que o conhecimento científico não pode permanecer isolado dentro dos muros da universidade. Mas também aprendemos que sua transferência para o setor produtivo precisa ocorrer de forma responsável, estratégica e transparente.

Afinal, o que seria das empresas sem as universidades?

Grande parte das tecnologias que usamos diariamente nasceu em ambientes acadêmicos: vacinas, algoritmos, novos materiais, técnicas agrícolas, softwares, medicamentos. Antes de chegar ao mercado, quase todas essas soluções passaram por laboratórios universitários, grupos de pesquisa e projetos financiados com recursos públicos.

Mas também precisamos fazer a pergunta inversa: o que seria das universidades sem as empresas?

Uma descoberta científica só se transforma em inovação quando chega à sociedade. E, para isso acontecer em escala, são necessárias empresas capazes de produzir, distribuir, investir e levar essas soluções ao cotidiano das pessoas. Sem esse elo, muitas pesquisas permaneceriam confinadas em artigos científicos, teses e relatórios técnicos.

Nesse sentido, a propriedade intelectual — representada pela patente no filme — não é apenas um instrumento jurídico. Ela funciona como uma ponte entre dois mundos: o da ciência e o da economia.

Quando bem estruturada, a proteção intelectual permite que uma universidade licencie suas tecnologias para empresas, garantindo que o conhecimento gerado com recursos públicos possa ser transformado em produtos e serviços que beneficiem a sociedade. Ao mesmo tempo, assegura que parte desse valor retorne à própria universidade, alimentando novos ciclos de pesquisa e inovação.

Esse modelo é hoje adotado em praticamente todos os países que conseguiram transformar ciência em desenvolvimento econômico. Nos Estados Unidos, universidades como MIT e Stanford deram origem a tecnologias que impulsionaram empresas globais. Na Coreia do Sul e em Israel, políticas consistentes de transferência de tecnologia transformaram descobertas científicas em motores de crescimento econômico.

No Brasil, esse movimento ganhou força a partir da Lei de Inovação (Lei nº 10.973, de 2004), posteriormente aprimorada pelo Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243, de 2016). Essas legislações consolidaram o papel dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) e das agências de inovação — estruturas criadas nas universidades justamente para proteger, negociar e transferir tecnologias desenvolvidas em seus laboratórios.

São esses mecanismos que hoje permitem que a ciência brasileira dialogue com o setor produtivo de forma estruturada, transformando conhecimento em soluções para a sociedade. Se o personagem de Wagner Moura estivesse inserido nesse ambiente institucional contemporâneo, provavelmente não estaria sozinho diante de pressões políticas ou empresariais. Haveria um sistema jurídico, institucional e administrativo responsável por garantir que aquela patente fosse negociada de forma transparente e equilibrada.

Isso não significa que o debate tenha desaparecido — nem que deva desaparecer. Ainda hoje existe uma tensão saudável entre a chamada “ciência básica”, voltada para ampliar o conhecimento, e a “ciência aplicada”, que busca resultados mais imediatos. Encontrar o equilíbrio entre essas duas dimensões continua sendo um dos grandes desafios das políticas científicas contemporâneas.

Mas uma coisa é certa: a sociedade perde quando universidades e empresas caminham separadas. Sem universidades fortes, não há geração consistente de conhecimento. Sem empresas inovadoras, esse conhecimento não se transforma em soluções reais para a população.

É justamente nesse ponto que o cinema, às vezes, nos ajuda a enxergar a realidade com mais clareza. Ao assistir O Agente Secreto, não vemos apenas um suspense político ambientado em um período turbulento da história brasileira. Vemos também uma metáfora poderosa sobre o valor do conhecimento e sobre a responsabilidade coletiva de protegê-lo e utilizá-lo de forma estratégica.

Talvez seja por isso que o filme tenha conquistado tanta atenção internacional. Ele fala de história, de política e de ética. Mas, de maneira sutil, também fala de ciência, tecnologia e inovação.

E quando o cinema brasileiro sobe ao palco do Oscar, não é apenas a arte que é celebrada.

De certa forma, sobem ali também a inteligência, a criatividade e a capacidade de um país transformar ideias em narrativas que atravessam fronteiras. Mas talvez a pergunta mais provocativa seja outra: se uma patente pode inspirar um grande filme, quantas transformações ainda estão silenciosamente nascendo dentro dos laboratórios das nossas universidades?

O prêmio vai além da estatueta dourada. Também é digno de Oscar o conhecimento que deixa o silêncio dos laboratórios, atravessa a ponte entre universidade e empresa e chega, finalmente, à vida das pessoas. É nesse momento que a ciência ganha público, a tecnologia ganha escala e a inovação ganha sentido. É o momento em que uma ideia sai do roteiro… e passa a transformar o mundo. A melhor cena ainda está por vir. 


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