COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

O que eu vi em Glasgow: por que a China venceu a corrida do capital humano

O Brasil havia “importado” a ideia da internacionalização em larga escala, inspirada em experiências como a chinesa.

Roberto Serra

Em 2013, durante meu estágio de pós-doutorado no Reino Unido, vivi uma cena que nunca mais esqueci. Ao visitar, com um amigo brasileiro, o filho dele na Universidade de Glasgow, na Escócia, fiquei impressionado com a movimentação em um bloco de quatro andares repleto de estudantes brasileiros, todos bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras.

A surpresa maior veio logo em seguida. O “Silvazinho”, como carinhosamente o chamávamos, apontou na direção oposta e mostrou algo ainda mais impressionante: uma sequência de cerca de dez prédios ocupados por estudantes chineses.

Naquele momento, sem perceber, eu estava diante de dois modelos distintos de futuro.

O Brasil havia “importado” a ideia da internacionalização em larga escala, inspirada em experiências como a chinesa. Mas tratamos o Ciência sem Fronteiras como um programa de governo. A China tratou isso como política de Estado. E essa diferença fez toda a diferença.

A China não apenas enviou milhões de jovens ao exterior. Ela construiu a ponte de volta. Por meio de iniciativas como o Plano de Mil Talentos, estruturou um processo consistente de retorno de cérebros, oferecendo laboratórios de ponta, financiamento robusto e inserção estratégica desses profissionais no sistema produtivo.

Enquanto o Brasil descontinuou o programa sem consolidar uma base interna capaz de absorver esse conhecimento, a China fez o movimento completo: buscou o conhecimento fora, internalizou e fortaleceu suas próprias universidades. Hoje, o jovem chinês já não precisa sair do país para ter acesso a uma educação de excelência. Ele encontra isso dentro de casa.

Mais de uma década depois, os números ajudam a explicar esse movimento.

Segundo o QS World University Rankings: Asia 2026, a China continental lidera o continente com 394 instituições classificadas, mostrando a força e capilaridade do seu sistema universitário. No Times Higher Education (THE) 2026, universidades como Tsinghua (12ª) e Peking (13ª) já se aproximam do topo global, superando diversas instituições tradicionais da Europa.

Quando olhamos para áreas estratégicas, como engenharia e tecnologia, o avanço é ainda mais evidente. Rankings por disciplina, como o ShanghaiRanking, colocam universidades chinesas entre as líderes globais em impacto científico aplicado — justamente onde ciência e indústria se encontram.

E o Brasil?

A Universidade de São Paulo (USP), nossa principal referência, aparece entre as melhores do mundo — entre as 100 no QS e na faixa das 150 no THE —, seguida por instituições como Unicamp e UFRJ. São posições respeitáveis, mas que ainda revelam um desafio: transformar ciência em inovação, e inovação em desenvolvimento econômico.

É aqui que entra a mudança mais profunda feita pela China.

Em janeiro de 2025, entrou em vigor a nova Lei de Graus Acadêmicos, que redefine a lógica da pós-graduação em áreas estratégicas. Em vez de uma tese que termina na estante, o doutorado pode ser obtido por meio de um resultado prático de inovação.

O critério deixa de ser apenas o rigor do texto e passa a ser a capacidade de resolver um problema real. O estudante apresenta um protótipo, uma patente ou um processo industrial, acompanhado por uma mentoria dupla: um professor e um especialista da indústria.

Não se trata de abandonar a ciência. Trata-se de dar a ela consequência.

Como destacou o Science & Technology Daily (2026), a ciência chinesa deixou de ser medida apenas por publicações e passou a ser avaliada pelo seu impacto na soberania tecnológica.

Essa talvez seja a melhor síntese do que vi em Glasgow.

Aqueles prédios cheios de estudantes chineses representavam a fase da quantidade. O que vemos hoje — liderança em energia limpa, inteligência artificial e computação avançada — é a transformação desse capital humano em capacidade produtiva.

A China tratou a educação como infraestrutura crítica, tão estratégica quanto portos, estradas ou energia.

E o Brasil?

Ainda estamos no meio do caminho.

Nas agências de inovação, como a que dirijo na UEMA, o esforço diário é justamente esse: aproximar o conhecimento da realidade, conectar pesquisa com demanda, transformar ideias em soluções.

Por isso, deixo uma pergunta simples — e necessária:

queremos formar pesquisadores que escrevem sobre o mundo ou pesquisadores que ajudam a transformá-lo?

A experiência chinesa não nos diz para abandonar a ciência acadêmica. Ela nos mostra que a tese não pode ser o fim. Precisa ser o meio.

Porque inovar, no fim das contas, não é apenas produzir conhecimento.
É transformar conhecimento em desenvolvimento.


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