COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão, pós-graduado em Direito e vice-presidente do Moto Club. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

A delicadeza de permanecer

Permanecer, depois de tantas cirurgias, depois de um câncer enfrentado e vencido, é uma forma de coragem que ultrapassa ideologias.

Vítor Sardinha

Reprodução.

Há momentos em que o poder se despe das insígnias e revela apenas o que sempre foi essencial: a fragilidade humana. A imagem recente da ex-governadora do Maranhão e atual deputada federal Roseana Sarney, falando pela primeira vez após mais uma cirurgia, não traz palanques, nem microfones, nem discursos inflamados. Traz um leito hospitalar. Traz o silêncio branco dos lençóis. Traz o rosto de alguém que atravessou, mais uma vez, a fronteira delicada entre o medo e a esperança.

O procedimento para retirada de um tumor foi, segundo a equipe médica, exitoso e sem intercorrências. A palavra técnica “exitosa”, soa quase fria diante da dimensão humana do que representa. Não se trata apenas de um êxito cirúrgico. Trata-se da continuidade da vida.

Não é a primeira batalha. Ao longo dos anos, Roseana já passou por 26 cirurgias. Em uma delas, retirou as mamas como parte do tratamento contra o câncer : E venceu! Curou-se. A cicatriz, invisível para muitos, tornou-se símbolo íntimo de resistência. Cada procedimento carregou seu próprio temor, seu próprio silêncio de espera, seu próprio recomeço.

Chamam-na de guerreira. E, nesse caso, a palavra não parece exagero. Não é a guerra dos debates parlamentares nem das disputas eleitorais. É a guerra silenciosa travada contra o próprio corpo, nas madrugadas hospitalares em que o tempo desacelera e cada batida do coração se torna preciosa.

No Maranhão, onde a política se mistura com memórias familiares e histórias de geração em geração, Roseana é mais do que um nome público. Foi governadora, é deputada federal, atravessou décadas de vida política intensa. Para muitos maranhenses, sua trajetória se confunde com capítulos da história recente do estado, com seus ciclos de esperança, controvérsia, transformação.

Mas diante de um leito hospitalar, tudo se reduz ao essencial: a condição humana.

Há algo profundamente tocante na decisão de gravar um vídeo naquele momento. Não para reafirmar posições políticas, mas para comunicar presença. É como se dissesse, com serenidade: “Continuo aqui. ” E permanecer, depois de tantas cirurgias, depois de um câncer enfrentado e vencido, é uma forma de coragem que ultrapassa ideologias.

Reprodução

O Maranhão conhece bem a palavra resistência. Resistimos às estiagens no interior, às marés que avançam na ilha, às crises que parecem maiores do que nós. Resistimos com fé, com conversa, com esperança teimosa. Talvez por isso a imagem daquela mulher, de cabeça raspada, olhar firme apesar do cansaço, tenha tocado tantos. Porque nela vemos algo que reconhecemos em nós mesmos: a vontade de continuar.

Em tempos de julgamentos rápidos e opiniões apressadas, a vulnerabilidade tem uma força desarmante. A ausência de maquiagem, o cenário simples do hospital, o tom sereno, tudo aponta para uma verdade que não precisa de ornamentos. A vida é frágil. E ainda assim, insiste.

Enquanto o Maranhão segue seu ritmo, com o comércio abrindo cedo, o vento que percorre a Avenida Litorânea ao fim da tarde, as conversas nas varandas do interior; a notícia de uma cirurgia bem-sucedida se soma às pequenas vitórias silenciosas que sustentam a existência. Alguém recebe alta. Alguém termina um tratamento. Alguém começa de novo.

No fim, o que permanece não é o cargo, nem o mandato, nem o palanque. O que permanece é a capacidade de atravessar a dor e agradecer pelo dia seguinte.

E, pra nossa guerreira do Maranhão, lutar pela vida sempre foi um ato de esperança!


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