As mulheres que atravessam o tempo
Elas atravessam ruas antigas de São Luís, sob os azulejos portugueses que guardam memórias do vento e do mar.
O calendário chega sempre com seus números redondos. Oito de março. Dia Internacional da Mulher. Uma data que volta todos os anos como quem bate à porta com delicadeza, lembrando que a história, por mais que às vezes pareça escrita apenas em vozes graves, sempre foi também sussurrada por vozes femininas.
No Maranhão, essas vozes ecoam há muito tempo.
Elas atravessam ruas antigas de São Luís, sob os azulejos portugueses que guardam memórias do vento e do mar. Caminham pelos mercados onde o cheiro de peixe fresco se mistura ao murmúrio das conversas. Estão nas escolas, nas casas, nos hospitais, nos gabinetes públicos, nas igrejas silenciosas e nas cozinhas onde tantas histórias começaram.
Algumas dessas mulheres ganharam nome na história.
Maria Firmina dos Reis foi uma delas. Em pleno século XIX, quando quase tudo conspirava contra o silêncio das mulheres, e mais ainda contra o silêncio das mulheres negra, ela decidiu escrever. Professora, romancista, abolicionista. Seu livro Úrsula, publicado em 1859, abriu uma fresta de luz em um país ainda mergulhado na escravidão. Não era apenas literatura. Era coragem impressa em papel.
Décadas depois, outra voz feminina pisaria nos caminhos da política nacional.
Roseana Sarney tornou-se a primeira mulher a governar o Maranhão. Em um espaço historicamente masculino, sua presença marcou uma ruptura simbólica. Para muitas meninas maranhenses que cresceram vendo seu nome nos jornais, aquilo dizia algo simples e poderoso: também era possível.
Mas a história das mulheres do Maranhão não está apenas nos livros ou nos palácios.
Ela está nas mãos firmes das quebradeiras de coco babaçu que, no interior do estado, sustentam famílias inteiras com paciência e resistência. Está nas professoras que atravessam estradas de terra para chegar a escolas pequenas. Está nas enfermeiras que passam noites inteiras acordadas ao lado de leitos silenciosos. Está nas mães que, mesmo cansadas, ainda encontram força para acreditar no amanhã dos filhos.
Talvez seja por isso que o 8 de março, aqui, nunca seja apenas uma data simbólica. Ele carrega uma espécie de memória coletiva.
Memória das mulheres que vieram antes, algumas lembradas, muitas anônimas, e que, mesmo sem saber, foram abrindo caminhos invisíveis para as que viriam depois.
Quando a noite cai sobre São Luís e as luzes antigas começam a refletir nos azulejos das fachadas, é possível imaginar que a história continua sendo escrita. Não apenas em decretos, discursos ou livros.
Mas nos gestos cotidianos, coragem silenciosa de quem insiste em seguir adiante.
Porque, no fundo, o Maranhão também é feito dessas mulheres que caminham devagar pelas páginas do tempo, deixando aqui e ali, pequenas marcas de esperança que nem o vento do Atlântico consegue apagar.
Saiba Mais
As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.