COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O Cartão Vermelho que o Maranhão Precisa Mostrar

Há dias em que o futebol deixa de ser apenas futebol.

Vítor Sardinha

O Cartão Vermelho que o Maranhão Precisa Mostrar (Reprodução)

O gramado do estádio Nhozinho Santos, acostumado ao barulho das torcidas, ao apito seco do árbitro e ao suspense de cada jogada, recebeu naquele domingo algo diferente. Entre as linhas brancas do campo e o verde vasto da grama, ergueu-se um gesto silencioso, mas profundamente humano: um cartão vermelho erguido não contra um jogador, mas contra velhas feridas da nossa própria história. 

Racismo. 

Feminicídio. 

Palavras duras, pesadas como o calor de meio-dia nas ruas de São Luís, como o silêncio que muitas vezes paira nas casas quando a violência se instala onde deveria existir abrigo. 

O futebol, que tantas vezes serve de refúgio às alegrias populares do Maranhão, das peladas nos bairros aos jogos que fazem vibrar as arquibancadas, tornou-se naquele instante uma espécie de espelho social. Ali, diante de torcedores, bandeiras e camisas de time, pessoas comuns seguravam um recado simples e urgente: há coisas que não podem mais continuar em campo. 

O racismo é uma dessas faltas antigas que atravessam gerações. Ele não grita sempre; às vezes apenas sussurra nos olhares atravessados, nas oportunidades negadas, nos espaços que parecem sempre pertencer a outros. Mas permanece ali, como uma falta não marcada. 

Já o feminicídio é o tipo de violência que fere ainda mais fundo porque nasce onde deveria existir amor. Em muitas casas, o grito que ninguém ouviu se transforma em ausência definitiva. E cada ausência dessas pesa sobre o Maranhão inteiro, como se a cidade perdesse um pedaço da própria voz. 

Por isso, naquele gesto coletivo, havia algo que ultrapassava a formalidade de uma campanha institucional. Havia uma tentativa de lembrar que a justiça não mora apenas nos tribunais. Ela também precisa existir nas arquibancadas, nas ruas, nas escolas, nas conversas de família e nos silêncios que decidimos quebrar. 

Talvez por isso o símbolo do cartão vermelho tenha sido tão poderoso. No futebol, ele significa limite. Significa dizer: daqui não passa. 

Quem sabe o Maranhão esteja, pouco a pouco, aprendendo a levantar esse cartão também fora dos estádios. 

Porque toda sociedade precisa decidir quais violências continuará tolerando e quais finalmente expulsará de campo. 

E naquele dia, sob o céu aberto do Nhozinho Santos, parecia haver um acordo silencioso entre as pessoas que seguravam aquele cartaz: algumas partidas da vida não podem mais terminar empatadas. 

Há injustiças que precisam, finalmente, sair do jogo.


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