COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Deus tem endereço

Se Deus veio morar entre nós, onde estão as casas que ainda faltam?

Kécio Rabelo

“Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1,14). Esta afirmação, extraída do Evangelho de João, não admite uma leitura confortável. Ela desloca a fé do plano abstrato para o chão da vida concreta. Deus não apenas visitou a humanidade — habitou. Escolheu casa, vizinhança, fragilidade, precariedade. A encarnação não foi simbólica nem distante: foi real, cotidiana, situada. E, por isso mesmo, profundamente humana — e também profundamente política.

É preciso insistir, para que isso se fixe: entre nós, Deus, em Jesus de Nazaré, teve endereço. Não acima, não à margem, mas entre nós, numa descida que toca para ficar, para permanecer.

O movimento é desconcertante: não a ascese das criaturas em direção ao Criador, mas o Criador que desce ao encontro das criaturas. Deus que desce é sempre um escândalo. Um Deus que aceita morar, compartilhar teto, dividir o espaço da vida comum desmonta qualquer espiritualidade desencarnada.

Mas, se Deus veio morar entre nós, onde estão as casas que ainda faltam?

Onde estão os quartos que não existem, os tetos improvisados, os endereços negados, as vidas empurradas para fora do mapa?

Há uma permanência da iniquidade — não apenas daquela de cunho religioso, mas daquela que, desde a origem, é segregadora.

Em todas as culturas, a casa é mais do que paredes. No Oriente, ela se organiza como proteção da interioridade: o pátio, o silêncio, a intimidade preservada do olhar público. No Ocidente, a casa é retorno e abrigo: o lugar onde o dia termina, a mesa se reúne e a memória se deposita nos objetos simples. Em qualquer tradição, porém, a casa é o primeiro território da dignidade. Antes da escola, antes do trabalho, antes da cidadania plena, vem a casa.

Sem casa, não há descanso.

Sem casa, não há intimidade.

Sem casa, a vida vive em suspensão — em alerta constante, em transição sufocante.

A moradia é o espaço onde o ser humano aprende a existir com menos medo. Onde a criança cresce com referência, onde o idoso encontra amparo, onde a família constrói vínculos e sonhos. Não se trata apenas de abrigo contra a chuva, mas de proteção contra a invisibilidade, contra o esquecimento, contra a exclusão.

Quando a casa falta, tudo falta sempre um pouco mais.

A negação do direito à moradia não é um detalhe social nem uma falha pontual — é uma ferida estrutural. Ela desorganiza vidas, fragiliza vínculos, expõe corpos e interrompe futuros. Não ter casa é ser empurrado para fora da cidade, da política, do cuidado e do reconhecimento. É viver sempre de passagem, mesmo quando o desejo mais profundo é permanecer.

Por isso, reduzir a moradia a um problema técnico, a um item orçamentário ou a uma mercadoria submetida exclusivamente às regras do mercado é um erro moral. Casa não é luxo. Casa é condição de humanidade.

O Evangelho é claro e desconcertante: o Deus cristão escolheu morar. Não se protegeu no alto, não se isolou na distância. Veio para o chão, para a precariedade, para a convivência. Ao fazer isso, revelou um critério definitivo: não é aceitável que alguém seja privado do direito de habitar com dignidade.

A fraternidade começa quando ninguém é empurrado para fora.

A fraternidade se constrói quando a cidade deixa de excluir.

A fraternidade se concretiza quando a casa deixa de ser privilégio.

Perguntar “o que é a casa?” é, na verdade, perguntar quem somos nós. Somos uma sociedade que constrói muros ou mesas? Endereços fechados ou portas abertas? Estatísticas frias ou histórias com rosto?

A Campanha da Fraternidade nos convoca, mais uma vez, a sair do discurso e entrar no compromisso. Onde falta moradia, falta Evangelho vivido. Onde uma casa é erguida com dignidade, ali a fé ganha corpo.

Porque, no fim, a pergunta decisiva não é apenas onde Deus morou entre nós.
É se nós estamos dispostos a garantir que todos tenham onde morar.


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