Xícaras e ciclos
Algumas xícaras se quebram para que aprendamos a segurar com menos pressa; outras, para que aceitemos beber de outro recipiente — ou simplesmente esperar o próximo café.
Uma xícara caiu na cozinha. Não era exatamente o som da xícara pousando no pires, mas um estalo seco, quase imperceptível, desses que anunciam pequenas fraturas no cotidiano. A casa seguia em silêncio, e o cheiro doce-ácido do caju plantado no quintal entrava pela janela azul entreaberta, misturando-se ao ar da manhã. Havia ali um gesto simples, quase ritual: preparar algo para si, insistir no presente.
A vida costuma acontecer assim, em ruídos mínimos. Entre uma xícara que se apoia inteira e outra que ameaça trincar, os dias vão se organizando em ciclos de alegria e tristeza — não como opostos em guerra, mas como forças que se alternam, se atravessam e, às vezes, se confundem. Há períodos em que tudo parece leve, expansivo, quase luminoso; em outros, o peso vem sem aviso e se instala na mesa, no corpo, no pensamento. Todo início de ano, isso parece voltar com alguma força.
tempo em que vivemos, saturado de estímulos, tornou essa leitura ainda mais difícil. Confunde-se alegria com euforia, como se a felicidade precisasse ser barulhenta, constante, performática. A dopamina virou régua emocional: se não vibra, se não acelera, parece não valer. Mas a alegria — a que sustenta — raramente grita. Ela se parece mais com essa xícara que talvez tenha trincado, mas continua sendo xícara: quente, imperfeita, cotidiana, suficiente.
Confundimos momentos com constância. Um instante bom vira promessa eterna; um instante ruim, sentença definitiva. E, presos a essas fotografias emocionais, deixamos de perceber o fluxo. A vida não é linha reta nem espetáculo contínuo: é repetição, pausa, retorno. É ciclo.
Há quem viva como quem coleciona xícaras quebradas. Usam cola, fita, cuidado excessivo, tentando manter tudo em pé, como se o remendo fosse solução permanente. Mas os ciclos não pedem conserto imediato; pedem compreensão. Algumas xícaras se quebram para que aprendamos a segurar com menos pressa; outras, para que aceitemos beber de outro recipiente — ou simplesmente esperar o próximo café. Sobre xícaras quebradas ou bem guardadas, o tempo tem sempre grande valor.
Talvez a maturidade esteja nisso: reconhecer que nem toda alegria será euforia, nem toda tristeza será ruína. Que viver é aceitar o som da xícara na cozinha — às vezes intacta, às vezes trincada — e, ainda assim, sentar-se à mesa. Porque, no fim, não é a ausência de quebras que nos sustenta, mas a capacidade de atravessar os ciclos sem nos perdermos neles.
Passadas as celebrações alegres e vibrantes do fim e do início do ano, estamos novamente a perseguir os ciclos, percebendo-os ou não, com a teimosia silenciosa de seguir em frente. Sem essa consciência da fragilidade, parece impossível fugir do ciclo da utilidade.
Xícaras se quebram. Permanece na memória o cheiro do café misturado ao caju maduro da cozinha e do quintal, lembrando-nos de que o essencial segue intacto — se o trouxermos em nós.
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