COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Alegria sob medida

O carnaval ainda é essa explosão humana que a música do Bicho Terra celebra, nos devolvendo, por um instante, ao que somos quando a vida dança nesse “turbilhão que ferve num vulcão de alegria”.

Kécio Rabelo

Na fila da farmácia, entre o balcão de genéricos e o cheiro insistente de álcool, duas jovens se inclinavam sobre o celular de uma delas, rindo em tom baixo, como quem compartilha um segredo leve. As imagens deslizavam na tela e, com elas, vinham comentários rápidos, quase automáticos — desses que não parecem carregar peso algum.

Uma foto de Júlia, em traje de banho, provocou aprovação imediata. O abdômen definido, o sorriso confiante, o corpo pronto para a avenida. Era “outro nível”, como diziam, com aquele entusiasmo típico de quem acredita estar apenas elogiando.

Logo depois apareceu a foto de Camila. O tom mudou. Não havia hostilidade aberta, mas um riso curto, desses que tentam se justificar como brincadeira. Uma delas comentou que não teria coragem de postar uma foto assim. A outra concordou, balançando a cabeça com uma expressão que misturava espanto e julgamento. Falavam da amiga ausente como quem analisa um figurino de vitrine, não uma pessoa.

Atrás delas, um homem aguardava sua vez com uma caixa de analgésicos na mão. Não parecia interessado na conversa, mas o silêncio da fila fazia com que tudo chegasse com nitidez. Ele levantou os olhos por um instante, como se tentasse encontrar outro ponto de atenção — o cartaz de promoção, a televisão muda no canto, qualquer coisa que o tirasse daquela cena. Mas a frase já havia ficado.

O corpo não era detalhe. Era critério. Aprovação. Passaporte.

Enquanto a fila avançava lentamente, ficou no ar a sensação incômoda de que, antes mesmo de começar, o carnaval já havia imposto sua primeira regra.

O carnaval chega como quem abre uma janela depois de dias abafados. Não resolve os problemas, não cura as dores — mas permite respirar. É uma pausa coletiva, quase um acordo silencioso: por alguns dias, suspende-se o peso do cotidiano e deixa-se a alegria circular, mesmo que improvisada, mesmo que imperfeita.

Desde suas origens, o carnaval carrega essa vocação de intervalo. Nas festas pagãs que antecediam a Quaresma, na inversão medieval das hierarquias, no riso que desautorizava o medo, havia ali um gesto profundamente humano: rir para não sucumbir. Comer, dançar, exagerar — não por alienação, mas por sobrevivência. O corpo, tantas vezes disciplinado, controlado, moralizado, ganhava licença para existir sem pedir desculpas.

No Brasil, essa herança encontrou chão fértil. O carnaval virou tambor, fantasia, rua. Tornou-se expressão popular, espaço de crítica, ironia e afeto. Um lugar onde o pobre podia ser rei, o anônimo podia ser personagem, o silêncio do ano inteiro podia virar canto. Alegria, sim — mas uma alegria que sempre soube da dor. Talvez por isso seja tão intensa.

Mas algo parece ter se deslocado no meio do caminho.

Hoje, em meio ao brilho, há também uma exigência silenciosa: a do corpo perfeito. Sarado, definido, esculpido. Como se o carnaval, antes território da suspensão das normas, tivesse incorporado uma nova regra — a da exposição como credencial de pertencimento. Não basta estar na rua; é preciso estar “em forma”. Não basta dançar; é preciso performar um ideal.

E a pergunta insiste: status de quê?

Status de disciplina extrema? De tempo disponível para moldar o corpo enquanto outros mal moldam o dia? Status de adequação a um padrão que se apresenta como liberdade, mas cobra ingresso alto? Há algo de contraditório nisso tudo. O carnaval, que nasceu como celebração do excesso, da mistura e da diferença, passa a reproduzir um modelo único de beleza, quase industrial, quase excludente.

O corpo que antes era linguagem vira vitrine. E quem não corresponde — quem envelheceu, quem adoeceu, quem simplesmente não quer — sente, mesmo que de leve, o deslocamento. Como se a alegria tivesse critérios. Como se o riso precisasse ser autorizado por um espelho.

Ainda assim, o carnaval resiste. Ele resiste no bloco pequeno que canta desafinado. No grupo que dança sem coreografia. No sorriso de quem esqueceu, por algumas horas, a conta atrasada, a perda recente, o cansaço acumulado. Resiste porque, no fundo, sua força não está na forma do corpo, mas no gesto de estar junto.

Talvez seja isso que o carnaval continue a nos lembrar, apesar de tudo: que a alegria não é prêmio por desempenho. É necessidade vital. Não se mede em centímetros, nem em curtidas, nem em aprovação. Ela acontece quando o corpo — qualquer corpo — encontra espaço para existir sem medo.

E, ao final da festa, quando as ruas silenciam e a rotina retorna, fica essa lição breve, mas potente: se até a alegria anda sendo condicionada, talvez seja hora de defendê-la com mais coragem. Como direito. Como pausa. Como humanidade.

E, no meio desse caos bonito, dessa mistura sem controle, o carnaval ainda é aquilo que a música incendiária do Bicho Terra insiste em dizer: essa explosão humana, imperfeita e necessária, que nos devolve — ainda que por pouco tempo — àquilo que somos quando a vida resolve, finalmente, dançar nesse “turbilhão que ferve num vulcão de alegria”.
 


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