Maranhão

Antropólogo dos EUA vive entre índios maranhenses há mais de 50 anos

Maior e mais longa pesquisa sobre tribo indígena já realizada registrou rituais.
Fantástico 02/01/2012 às 10h03

RIO DE JANEIRO - Um americano, antropólogo, com quase 90 anos, é o responsável pelo maior e mais longo estudo sobre os índios canelas, do Maranhão. Ele registrou mais de 50 anos da vida na aldeia. Até o comportamento sexual dos índios foi pesquisado.

Nos passos da coreografia tribal, um homem branco de 87 anos usa bengala para dançar. Porque o herdeiro de uma das maiores fortunas da Califórnia largou tudo para viver entre os índios do Brasil? “Porque encontrei outra coisa melhor para fazer. Muito melhor. Sempre me dediquei a antropologia. Uma vez que encontrei a antropologia, não tinha outra coisa para fazer”, resume o antropólogo Bill Brocker.

Filho de banqueiro, ele abandonou os negócios da família nos EUA e foi estudar os índios canelas, uma etnia do grupo timbira, que vive na aldeia Escalvado, no município de Fernando Falcão, no centro sul do Maranhão.

Ele é provavelmente também o antropólogo mais idoso do mundo fazendo pesquisa de campo. A foto do índio Francisquinho Tephot foi tirada pelo próprio Bill em 1957, quando esteve no Brasil pela primeira vez. Francisquinho Tephot, que aparece na foto aos 18 anos, nunca tinha vista o um branco antes. Foi da estranheza a uma amizade que já dura 54 anos.

Anfitriões perfeitos, os índios canelas adoram receber. O visitante é adotado por uma família e recebe logo um nome indígena. A família de Bill é a mesma a mais de cinco décadas. A irmã indígena Dominga o recebeu em 1957 e cozinhou para ele.

Bill relata o primeiro almoço na aldeia: “Eu sentei no chão, porque só tinha esteira, mas não tinha colher nem garfo. Eu comi com os dedos, entre eles. Na mesma família”.

Hoje, sentado a mesa, comendo no prato e usando talheres, Bill faz das mudanças culturais da aldeia a base de uma impressionante pesquisa realizada com a ajuda dos índios.

Bill pediu a eles que escrevessem diários, que registrassem o que acontecia em volta. Os diários começaram 1964. “Comecei a escrever as coisas, tudo que passa pelo pátio, organização lá dentro da aldeia”, conta um índio. E continuam a ser feitos ate hoje.

É o maior e o mais longo estudo que se tem notícia sobre o cotidiano de uma única aldeia. A rotina da comunidade descrita no diário contempla aspectos da vida publica, mas principalmente da vida pessoal dos índios e do comportamento das famílias.

O arcaico e o moderno convivem lado a lado em um jogo de contradições. As crianças assistem desenho animado dentro da maloca de palha. O modo tradicional de ornar o corpo ganha símbolos inesperados. E a antiga economia tribal, baseada em trocas, no escambo, mudou inteiramente com a chegada do dinheiro.

Os diários também revelaram a Bill o comportamento sexual dos índios. Havia ocasiões em que o sexo fora do casamento era praticado por todos, sem que houvesse condenação moral. O rígido controle das lideranças evitava conflitos.

“Tinha ciúmes, mas os velhos sempre abafavam, as “tias” abafavam. É muito contra a lei deles ter ciúmes, mas o ser humano tem ciúme”, explica o antropólogo.

Ao longo dos anos, os diários foram registrando uma mudança nesse comportamento. “Lá no passado, eles tiveram uma liberdade muito grande. Ninguém culpava ninguém. Amou, amou. Gostou, gostou. Hoje já mudou completamente. Por quê? Porque parece que nós vimos vocês [homens brancos] e porque largar a mulher leva culpa. Nunca termina essa culpa”, avalia Raimundo Beato Padset.

Francisquinho é um dos principais colaboradores de Bill. Com a velha máquina que o antropólogo lhe deu, registrou mais de 30 anos de mudanças. “A gente escreve coisas como se fosse um jornal”, conta. A vida lá fora ia para a lauda de Francisquinho. Inclusive as influências indesejáveis. “Hoje, o jovem quer ser branco, não quer mais deixar cabelo crescer”, lamenta.

Mesmo assim, os canelas mantêm um complexo repertório de rituais. Cerimônias de provação, como as corridas de tora. Ritos de passagem da idade adulta. As festas que varam a noite sem que ninguém saia da roda até amanhecer. É como se a preservação dos rituais servisse para contrabalançar a mudança cultural.

Há traços do temperamento dos canelas que jamais mudaram. A habilidade para resolver conflitos é expressa em ações, gestos. O que mais preocupa o antropólogo são a saúde e a educação dos índios. A escola da aldeia esta em péssimo estado.

Os originais da pesquisa vão para instituto onde Bill trabalha. O Museu Nacional de História Natural de Washington. Mas as cópias de tudo o que foi produzido pelos diários estão sendo enviadas ao museu Emílio Goeldi, em Belém do Pará.

A licença para pesquisar no Brasil está acabando. Pela primeira vez, Bill está pensando em não renová-la. “É possível que seja minha última visita. Não vou dizer que é certo. Mas é mais provável que eu volte só para visitar”.

Como então o mais canela dos antropólogos gostaria de ser lembrado por seus parentes indígenas? “Como a pessoa que morava entre eles, gostava deles e sempre aprendeu muito com eles”, resume.

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